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Nelson Goerner e o xodó sinfônico de São Paulo (4/4/2016)
Por Irineu Franco Perpetuo

Boa parte da vitalidade de uma orquestra vem do nível dos convidados que a vitalizam, dinamizam e propõem novas abordagens e repertório. Assim, se é uma pena não terem dado certo as negociações que trariam Valery Gergiev para reger a abertura da temporada da Orquestra Jovem do Estado de São Paulo, mês passado, há que se festejar bastante a presença de Nelson Goerner à frente do xodó sinfônico dos paulistas, na Sala São Paulo, no último sábado, dia 2.


Orquestra Jovem de São Paulo com Nelson Goerner (piano) e Marc Coppey [foto: Heloísa Bortz/divulgação]

A um mês de completar 47 anos de idade, o pianista argentino é já um velho conhecido do público brasileiro, tendo se apresentado por aqui em recitais e com orquestra. Em sua edição de janeiro, a revista francesa Diapason dedica duas páginas a Goerner, chamando-o de “príncipe do piano”, e quem o ouviu tocar sabe que não se trata de exagero: técnica relaxada, apuro sonoro, extremo cuidado e refinamento nos fraseados constituem os elementos “aristocráticos” que têm feito dele uma espécie de intérprete “oficial” de Chopin, gravando diversos discos para o selo do instituto que leva o nome do compositor, em Varsóvia.

A conexão polonesa vai ainda mais longe: em 2010, no âmbito dos festejos do 150º aniversário do legendário pianista, compositor e primeiro-ministro da Polônia Ignacy Jan Paderewski (1860-1941), Goerner foi convidado a executar o concerto para piano e orquestra que este escreveu em 1888. A identificação foi imediata, e a Diapason chama a recém-lançada gravação de Goerner de “melhor versão moderna” da obra de Paderewski.

Pois foi justamente esse concerto que Goerner programou para sua apresentação em São Paulo – dando à cidade a oportunidade de ouvir uma partitura pouco conhecida por aqui. Bravura e gestos grandiloquentes não faltam à obra de Paderewski; enquanto o primeiro movimento pode soar algo prolixo, o segundo transborda de um lirismo pós-chopiniano que o faz primo da música que celebrizou Rachmaninov (13 anos mais jovem que o compositor polonês), enquanto o terceiro traz uma rítmica de inequívoco sabor “nacional”. O virtuosismo bombástico da escrita de Paderewski não parecia colocar dificuldades a Goerner, que jamais deixou as demandas atléticas da obra obscurecerem seu lirismo, ou tensionarem uma sonoridade sempre límpida e bela.

A regência ficou a cargo de Marc Coppey, destacado violoncelista francês da mesma idade de Goerner que vem se arriscando na batuta. Na obra de Paderewski, talvez Coppey pudesse ter segurado um pouco a sonoridade da orquestra – tarefa não muito simples, já que a própria retórica do concerto fica o tempo todo implorando fortes grandiloquentes e altissonantes.

Depois do intervalo, Coppey regeu de cor a Sinfonia nº 3, Eroica, de Beethoven. O grande mérito de Coppey foi ter demonstrado uma leitura “moderna” e “objetiva” da partitura beethoveniana, com tempos ágeis, desprovida de langores e excessos de sentimentalidade. Especialmente interessante foi o último movimento, em que Coppey se empenhou em dar uma caracterização diferente para cada uma das variações que o constituem.

Mas a apresentação não teria sido tão interessante, obviamente, não fosse pelo alto nível da Orquestra Jovem do Estado de São Paulo. Desde a reforma capitaneada por Cláudio Cruz, em 2012, a sinfônica deu um salto qualitativo espantoso, que a catapultou para o status de uma das protagonistas da vida musical da cidade. Renovação de quadros faz parte da lógica de funcionamento de uma orquestra jovem, cuja sina é “perder” integrantes para estabelecimentos de ensino internacionais ou para orquestras profissionais. Contudo, as constantes mudanças não têm implicado em queda na qualidade artística do grupo – o que só comprova a solidez do projeto da Jovem, que não por acaso vem atraindo algo do que há de melhor nas novas gerações de musicistas do país. Se os músicos que a constituem podem ser chamados de promessas, a qualidade da sinfônica já deve ser considerada uma realidade. Eis uma orquestra que dá gosto de ouvir e acompanhar.


[Nota do editor: Aguardem! A partir de maio, assinantes da Revista CONCERTO ganham, na renovação de suas assinaturas, o primeiro CD da Orquestra Jovem do Estado de São Paulo, com regência do maestro titular Cláudio Cruz e a participação do violoncelista Antonio Meneses. Se você ainda não é assinante da Revista CONCERTO, clique aqui.]

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Irineu Franco Perpetuo - é jornalista, colaborador do jornal Folha de S. Paulo e correspondente no Brasil da revista Ópera Actual (Barcelona).

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