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Sinfônica Heliópolis abre temporada com “Quarta” de Gustav Mahler (6/5/2016)
Por Nelson Rubens Kunze

Acompanho o trabalho realizado pelo Instituto Baccarelli, projeto de inclusão social por meio da música, desde que funcionava na antiga fábrica de suco de laranja, lá mesmo da comunidade de Heliópolis, mas na outra ponta da Estrada das Lágrimas. A história é conhecida, já virou livro, enredo de escola de samba e recentemente inspirou o filme “Tudo que aprendemos juntos”, estrelado por Lázaro Ramos. Em 1996, após um grande incêndio na favela de Heliópolis, o maestro Silvio Baccarelli, em solidariedade, resolveu ajudar a comunidade oferecendo aulas gratuitas de violino em seu auditório na Vila Mariana. O trabalho era tão rico e recompensador, que começou a atrair outros músicos e profissionais. Dois anos depois, o projeto foi inscrito na Lei Rouanet e, desde então, passou a funcionar por meio de patrocínios privados incentivados, um modelo que, nas dimensões que alcançou, creio que seja único no país.

Em 2008, o Instituto Baccarelli mudou-se para sua sede atual, planejada especialmente para suas atividades, que consiste em dois edifícios construídos sobre um terreno cedido em comodato pela prefeitura da cidade. O prédio principal, de 5 andares, possui diversas salas de estudo com tratamento acústico, bem como espaços maiores para ensaio de grupos de câmara, corais e orquestras. O desenho das instalações ainda prevê a construção de um teatro próprio, no mesmo local, cuja construção, contudo, ainda não pode ser realizada.

Sob direção de Edmilson Venturelli de Souza e do maestro Edilson Ventureli, o Instituto Baccarelli mantém hoje 6 grupos de câmara, 20 corais e 4 orquestras, além da Orquestra Sinfônica Heliópolis, seu grupo de ponta. Criada em início dos anos 2000, como orquestra de formação de instrumentistas, a Sinfônica Heliópolis experimentou importante desenvolvimento sob direção do maestro Roberto Tibiriçá, que a conduziu de 2006 a 2011. Naquele período, a orquestra também empreendeu uma turnê de sucesso para a Alemanha, com apresentações no tradicional Festival Beethovenfest de Bonn.

Para avaliar o prestígio e a qualidade que a orquestra alcançou, basta dizer que, desde 2012, ela tem direção artística e regência titular do maestro Isaac Karabtchevsky, decano da regência brasileira. E que ela tem, como patrono, ninguém menos que o maestro Zubin Mehta, uma das maiores personalidades musicais de nosso tempo.

No sábado passado, dia 1º de maio, a Orquestra Sinfônica Heliópolis estreou sua temporada de concertos na Sala São Paulo. E, como em anos anteriores, escolheu uma sinfonia de Gustav Mahler, desta vez a Quarta. Sob regência de seu titular Karabtchevsky, os jovens músicos mostraram que sabem tocar como gente grande e confirmaram aquele velho lugar comum de que a “música clássica é universal e atemporal”. Como, senão, explicar que um grupo surgido de dentro de uma das comunidades mais vulneráveis da cidade de São Paulo possa interpretar de modo tão concentrado e emocionante uma partitura escrita no interior da Áustria há mais de 100 anos?

Pois foi isso que se ouviu – a Sinfônica Heliópolis, em trajetória de crescente qualidade, apresentou um belo e emocionante concerto. Os jovens músicos se empenharam na consistente leitura conduzida por Isaac Karabtchevsky, exibindo um bom resultado sonoro e musical. A parte de soprano solista do último movimento foi realizada pela argentina Paula Almerares.

Se hoje se discute a função das orquestras sinfônicas no mundo contemporâneo – reavaliando seu tradicional papel de mero reprodutor do patrimônio musical ocidental – sem dúvida o modelo do Instituto Baccarelli oferece uma resposta. A de que a música clássica e a excelência artística podem contribuir decisivamente para a formação de nossa juventude, para o crescimento humano e para a regeneração do tecido sociocultural de uma metrópole como São Paulo





Nelson Rubens Kunze - é diretor-editor da Revista CONCERTO

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