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Conferência MultiOrquestra – o primeiro debate e um comentário (11/5/2016)
Por João Luiz Sampaio

A terceira conferência MultiOrquestra, realizada pelo British Council com o tema “Orquestras: Modo(s) de usar”, foi aberta na manhã desta terça-feira (dia 10) no Sesc Bom Retiro com um painel sobre Música e Diplomacia Cultural. Graham Sheffield, diretor de artes do Conselho Britânico, iniciou os trabalhos. Em sua apresentação, relembrou a viagem da Filarmônica de Nova York para a Coréia do Norte em 2008 e da recente visita da Orquestra do Mariinsky de São Petersburgo a Palmira, na Síria. São dois exemplos, disse, de apresentações que nada acrescentam na relação entre culturas. Para ele, uma turnê só ganha sentido quando estabelece diálogos musicais e culturais ricos, indo além de uma simples apresentação. Um dos exemplos citados por ele deixa clara a ideia: a Sinfônica da BBC Escocesa, ao visitar a Índia, realizou um longo trabalho compartilhado com músicos e compositores locais, com foco nas diferenças e possíveis aproximações entre tradições tão distintas. Sheffield também falou sobre o Brasil. Para ele, “muito do que é feito aqui em termos de engajamento social pelas artes e a música tem chegado à Europa com destaque. Vocês parecem estar apontando o caminho de novas tecnologias de desenvolvimento social e cultural. Por que as orquestras brasileiras não podem ser líderes em todas as Américas?”

 
Da esquerda para direita: Richard Wigley (Ulster Orchestra), John Neschling (Theatro Municipal de São Paulo), Graham Sheffield, moderador (British Council), Marianne Feldmann (Embaixadora da Áustria), Anne Parsons (Detroit Symphony Orchestra [Divulgação / Flávio Florido]

O próprio Sheffield mediou o debate que se seguiu. Diretor do Theatro Municipal de São Paulo, o maestro John Neschling afirmou que representava ali o “establishment” e que via nas discussões colocadas “uma realidade que não é a nossa”. “Como pensar em viajar por um país que não tem dinheiro, não tem público, não tem teatro?”. O maestro também questionou o que vê como uma mistura entre música e educação e música e função social. “Fica-se perguntando para que serve a música. Para que serve a poesia? Para que serve a vida? Mahler é Mahler. Não se pode confundir música com trabalho social. Como comparar o que faz o Theatro Municipal com o Projeto Guri, o Neojiba, a Orquestra Jovem do Estado, que faz um excelente trabalho, questionando a sua função social? Fazer isso é falar de tudo e falar de nada. A situação brasileira impede que uma discussão como essa possa florescer”, disse.

Richard Wigley, da Ulster Orchestra, na Irlanda, chamou atenção para o fato de “que as pessoas não se interessam por uma orquestra porque as orquestras não se interessam por elas”. Abordou também um outro tema: o papel dos músicos nessa busca por uma nova relação com as plateias e um novo sentido para a sua atividade. “O músico estuda e quer sentar-se no palco e tocar o repertório para o qual se preparou. E de repente alguém diz que ele tem que fazer mais do que isso, conversar com a plateia, tocar para crianças. Nem todos estão prontos para isso, e entendo que é papel do gestor ajudá-los a fazer essa transição”, colocou. Anne Parsons, da Sinfônica de Detroit, por sua vez, defendeu a música como uma “língua que ajuda a contar a nossa história e celebrar a semelhança entre as pessoas”. “Quando nos apresentamos dentro dessa linguagem, o fato é que não há limites na busca por novas maneiras de lidar com a comunidade e pensar em como fazer para aproximar as pessoas. A participação no ato de fazer música é fundamental”, colocou. Embaixadora da Áustria no Brasil, Marianne Feldmann lembrou, no contexto da diplomacia cultural, que o grande repertório sinfônico saiu da Áustria. “Quando essas obras surgiram, também eram síntese de uma diversidade. É por isso que fazem sentido para o mundo. Não se trata de uma música da Áustria levada ao mundo. Mas da música do mundo criada na Áustria”, disse, chamando atenção para a importância da excelência e da qualidade.

John Neschling voltou a falar, abordando a questão do sentido do fazer musical. “Por que nós somos músicos? A única razão de ser músico é fazer música”, colocou. Sheffield deu então a palavra a Katherine Zeserson, ativista cultural inglesa que tem desenvolvido trabalho com projetos educacionais brasileiros. Ela iniciou sua fala dizendo que o espaço do concerto precisa ser pensado em conjunto com o objetivo de uma apresentação. “A sala de concertos é uma tecnologia do século XIX. Precisamos criar novas tecnologias, em consonância com o nosso tempo, levando em consideração a questão da democratização do espaço público. Se a cultura não estiver no espaço público, será símbolo de uma certa elite”, afirmou. E então respondeu às colocações de Neschling. “O Brasil tem a oportunidade de desenvolver algo, um modelo que seja fruto da união do acesso com a excelência e a participação. É algo único no mundo, que precisa ser exportado. Se não há propósito algum para a música, precisamos repensar o que é o ser humano, que sempre contou sua história e se relacionou com o seu mundo por meio da música. E se não há maneira de conectar a música com a educação, podemos encerrar esse encontro agora.”

Um convidado da Argentina, representante da Sinfônica Nacional Argentina, seguiu em uma linha parecida. “Nossas instituições musicais na América Latina nasceram há 100 anos como instituições privadas. Em seguida, tornaram-se públicas. E hoje 80% ou 90% dependem de financiamento estatal. São pagas, portanto, pelo dinheiro do contribuinte, mas retornam algo a apenas 5% da população. Na Argentina, temos 40% da população vivendo sem educação, saúde. Só teremos novos públicos se associarmos o que fazemos a uma forte atividade de integração social.”

Neschling voltou a se pronunciar. “Entendo que quem não conhece o Brasil não se dê conta da nossa realidade. O Brasil é o Congresso Nacional, é aquela votação, é o fim do Ministério da Cultura. Eu me preocupo com a educação, meu teatro tem uma escola. Mas os assuntos precisam ser discutidos separadamente. Não posso questionar o valor do concerto por si só. Você pode questionar o que a orquestra pode fazer pela educação, ótimo. Mas a primeira função é tocar, e tocar bem”, disse. Ele também falou da questão dos espaços dos concertos. “A Sala São Paulo foi feita nessa região degradada para ajudar a revitalizá-la. Não adiantou nada. Deveria ser um ponto de interferência urbana. Mas não adiantou nada. Se não tivesse estacionamento, ninguém ia”. Nessa questão, foi rebatido por Sheffield. “Mas em outros lugares do mundo isso deu certo. Se não deu aqui, talvez não seja por causa da música, mas pela falta de coalizão de diferentes forças e agentes da sociedade”, colocou.

Após o painel, três membros do programa que, na esteira da conferência, se dedica a abrir espaço para novos líderes para a música clássica no Brasil, compartilharam um pouco do trabalho realizado até agora. “Estamos em 2026. E neste ano a orquestra é agente ativo de mudança. A música é entendida como agente social. Há a experimentação de novos formatos. Os músicos se sentem empoderados. A orquestra de 2026 tem mais flexibilidade. Ela entende o ser humano como um ser pensante e colaborativo. Estabelece parcerias com a comunidade, numa real troca de conhecimento e de diálogo. A música está nas escolas, nos hospitais, nas ruas, nas praças, em contato com as pessoas. A orquestra está conectada com seu tempo e ao mesmo tempo ligada à tradição. Ela expressa empatia por meio da diversidade. A orquestra deixou a postura de comodismo para pensar o novo, oferecendo um cardápio mais amplo de experiências. E há um ecossistema dentro e entre as instituições, que são parceiras, compartilham as suas dificuldades e paixões.”

Um comentário
A mesa de abertura da conferência tinha como objetivo discutir a diplomacia cultural, ou o papel que orquestras podem ter nesse contexto, representativas da cultura de seus países. Mas o assunto muitas vezes pareceu colocado em segundo plano. E logo de cara se tocou no tema mais delicado que perpassa eventos como esse: a oposição entre tradição e inovação. É uma briga que muitas vezes se torna extremada e, nesse sentido, pouco útil. Para alguns, nessa linha, inovar (e reconhecer as funções sociais ou educacionais de uma orquestra sinfônica) significa acabar com a música de concerto de qualidade e jogar no lixo uma tradição a ser preservada. Para outros, defender o valor intrínseco do fazer musical significa, por sua vez, ter certeza de que a música clássica opta pelo distanciamento da realidade e, assim, pelo seu próprio fim.
 
John Neschling tem razão. O Brasil é o horror da votação do Congresso Nacional, é a extinção do Ministério da Cultura, o crime, a falta de investimento em educação. Poderia ainda incluir os recentes cortes de verbas em todas as esferas públicas, que enforca a atividade artística. Mas, e aí? O que vem depois dessa constatação, além do simples discurso vitimista proferido sobre uma terra arrasada? Nesse sentido, os questionamentos colocado por Zeserson parecem mais construtivos – no mínimo, ainda que não se concorde com eles, é preciso reconhecer que aceitam a importância de se discutir o presente e o futuro, como a música clássica sempre fez em sua história, e recusam-se a apostar na resignação. Se são hegemônicos, é talvez porque falam sozinhos, enquanto o resto é silêncio.

Não se trata, obviamente, de uma questão simples. E, não importa de que lado se esteja, é possível entender os pontos de vista de ambos os lados. Defender o valor intrínseco do fazer musical às vezes se confunde sim com certa posição comodista e reforça um estigma que, gostemos ou não, se acoplou à música clássica: ela é para poucos, sempre vai ser e, mais do que isso, é essa noção de exclusividade que ajuda a reforçar o seu valor. Por outro lado, como falar na implosão ou revisão de um modelo que, por mais que tenha raízes no século XIX, no Brasil ainda é extremamente recente, com orquestras conseguindo estabelecer uma atividade cotidiana, consistente e de qualidade nos últimos vinte anos apenas?

Como se resolve esse impasse? De cara, aceitando que não se trata da substituição de um modelo por outro, mas do compartilhamento de experiências que possibilitem a cada conjunto, dentro de sua realidade e proposta artística, repensar seu trabalho. Outro aspecto importante: quando se definiu que realizar trabalhos sociais e educacionais significa necessariamente abrir mão da qualidade e da excelência artística? A realidade de nossa vida musical, com diversos grupos recém-criados, tem provado justamente o contrário. E se entendermos a inovação não como perda de identidade, mas como uma ampliação do valor e do sentido do fazer musical, em consonância com a tradição? E se pensarmos a busca por novos formatos dentro da proposta de criação de uma tradição sinfônica ainda inexistente ou, no melhor dos casos, incipiente? Insisto: é uma questão complexa. Mas em meio a essa complexidade, a existência de tantos fatores a serem considerados talvez também ajude na chegada a diversos meios-termos possíveis. O que não dá mais é para fingir que está tudo bem e que as coisas são assim mesmo ou então aceitar que tudo vai mal, sem possibilidade de melhora, uma melhora que depende não de quem faz música, mas de agentes e problemas externos, como governos insensíveis ou a flagrante falta de investimento em educação. O risco é permanecermos na velha alternância entre ver o copo meio cheio ou meio vazio, o que significa, no fundo, que o copo continua sempre pela metade. Nossa vida musical – pelo modo como cresceu nos últimos tempos e pelas ameaças que têm sofrido recentemente – merece mais.





João Luiz Sampaio - é editor executivo da Revista CONCERTO e colaborador do jornal O Estado de S. Paulo

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