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“Viagem entre mundos” apresenta música feita no Brasil (6/6/2016)
Por Nelson Rubens Kunze

“Viagem entre mundos” é o nome da nova edição do Circuito BNDES Musica Brasilis. Idealizado e dirigido pela cravista Rosana Lanzellotte, o projeto compreende espetáculos, concertos didáticos e oficinas, bem como a edição de partituras e a sua distribuição em um portal na internet. “Viagens entre mundos” são as viagens entre classes, em que música da corte ganha as ruas, são as viagens entre gêneros, ao mesclar clássico e popular, entre mitos, ao tratar da música de Carlos Gomes, e entre tempos, quando o música brasileira chega ao século XXI comemorando os 80 anos do compositor campineiro Raul do Valle.

Sem perder a dimensão de espetáculo artístico, Musica Brasilis incorpora a pesquisa músicológica e a difusão de nossa produção musical histórica. Assim, a edição deste ano propõe diferentes programas: “Missão artística 200 anos”, que recupera a música produzida no Brasil em 1816, data da chegada ao país da Missão Artística Francesa; “Cartas Leopoldinas”, baseada nas cartas de d. Leopoldina, que veio ao Brasil em 1817 como noiva de Dom Pedro; “O selvagem da ópera”, em torno da figura do compositor Carlos Gomes, retratando um outro momento da história musical do país; “De modinhas e Marílias”, apresentando canções brasileiras inspiradas nos poemas do inconfidente Tomás Antonio Gonzaga dedicados a sua amante “Marília de Dirceu”; e, finalmente, “O selvagem da ópera e o lirismo experimental”, propondo um diálogo entre Carlos Gomes e o compositor contemporâneo Raul do Valle.


Da esquerda para direita: Carol Castro, Rosana Lanzelotte, Jacques Ogg, Ricardo Kanji e Alberto Kanji [Divulgação / Cristina Granato]

Assisti no sábado, dia 4 de junho, na Sala Cecilia Meireles no Rio de Janeiro, ao programa “Cartas Leopoldinas”. O repertório incluiu obras de dois compositores ligados à Princesa Leopoldina: Leopold Kozeluch, de quem fora aluna de piano em Viena, e Sigismund Neukomm, austríaco como a princesa e aluno de Haydn, que viera ao Rio de Janeiro com a Missão Artística Francesa. A apresentação se encerrou com o Hino Imperial e Constitucional de autoria do Dom Pedro I.

E foi muito bom o resultado da apresentação. Excelentes músicos – a própria Rosana Lanzelotte e Jacques Ogg no pianoforte, Ricardo Kanji na flauta, Felipe Prazeres no violino e Alberto Kanji no violoncelo – interpretaram as obras, entre as quais a atriz Carol Castro lia trechos de cartas da Princesa Leopoldina. Alternando formações como pianoforte a quatro mãos, pianoforte com flauta e violoncelo, pianoforte e violino e pianoforte e violoncelo, a música soa singela, tem graça e beleza. À exceção de uma Triosonata de Kozeluch, todas as peças foram compostas no Brasil e diversas delas são dedicadas à família real. Importante aspecto para o sucesso da apresentação foi a ideia de intercalar a leitura das cartas de Leopoldina, que, qual uma narrativa paralela, contextualiza o repertório. Igualmente feliz e de bom gosto foram a ambientação cênica e os caprichados figurinos.

Pela criatividade do formato, por seu conceito de valorização e difusão de um rico repertório histórico e, não menos importante, pelo cuidado e apuro de sua produção, Musica Brasilis se destaca como excelente iniciativa na área da música clássica brasileira da atualidade.

[O Circuito BNDES Musica Brasilis segue com as seguintes apresentações: dia 9/6 em Aracaju; dia 21/6 em Belém; dia 22/6 em Belo Horizonte; dia 30/6 em Parati; dia 5/7 em Campinas; e dia 21/7 em Vitória. Consulte detalhes no Roteiro Musical.]

[Nelson Rubens Kunze viajou ao Rio de Janeiro e assistiu ao espetáculo a convite do Musica Brasilis.]





Nelson Rubens Kunze - é diretor-editor da Revista CONCERTO

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