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Música & Política (de novo) (24/6/2016)
Por João Marcos Coelho

Eu já me preparava, semanas atrás, para começar um artigo sobre orquestras sinfônicas questionando os motivos que levaram a pianista venezuelana Gabriela Montero a tocar o concerto de Grieg com a Osesp na Sala São Paulo. Ora, dizia eu, ativista política contrária ao chavismo, ela compôs, em 2011, “ExPatria”, peça para piano e orquestra de 15 minutos, dedicada aos 21 mil assassinados em seu país pelo regime. Poderia (deveria) ter tocado as duas obras, mas em São Paulo, tocou só Grieg. Mas, num evento público, alguém da Osesp afirmou que foi Gabriela quem não quis tocar “ExPatria”... Ela teria preferido Grieg. Aí me assustei.

Nem bem tinha me recuperado do susto e o pianista turco Fazil Say, igualmente notório por sua atuação política contra o regime de Erdogan e autor de três sinfonias, tocou com a Osesp um concerto de Mozart. Será que ele também “afinara”? Longe disso. No recital que deu dois dias antes, Say tocou “Gezi Park”, sonata encharcada de gestos políticos já a partir dos títulos dos movimentos, falando “das noites de resistência em Istambul”, do “silêncio da nuvem de gás” e da “matança das crianças inocentes em Berkin Elvan”. Ele continua batalhando contra o governo turco e faz questão de deixar clara sua posição, aonde quer que vá. Fiquei contente.


Gidon Kremer [Foto: divulgação], Fazil Say [Foto: divulgação / Marco Borggreve] e Gabriela Montero [Foto: divulgação / Shelley Mosman]

Há dois elementos importantes nos dois parágrafos anteriores. Primeiro: quando há música contemporânea nos repertórios dos concertos e recitais, o clima quase sempre esquenta. E por um motivo simples: peças criadas em nosso tempo têm, direta ou indiretamente, algo a ver com a realidade que cerca a todos nós – público, compositor e intérprete. O segundo elemento me foi sugerido pela epígrafe do excepcional livro “Música de Invenção 2”, de Augusto de Campos, recém-lançado pela Editora Perspectiva. O livro resgata em boa hora uma entrevista antológica de J. Jota de Moraes em 1988 com o alemão Karlheinz Stockhausen, um dos compositores-chaves do nosso tempo. Augusto realocou esta frase aguda do entrevistado para as primeiras páginas do livro: “Viu o que a Orquestra de Stuttgart está tocando no Brasil? Beethoven, Mendelssohn, Ravel… tudo bem antigo, velho. Nada de música contemporânea. As pessoas não ouvem música contemporânea. E por isso, por não estarem acostumadas a ela, não gostam. E como as orquestras tocam pouca música contemporânea, quando fazem isso, tocam mal. Isso é bem um sinal de decadência artística. É igual em todo lugar – na Europa e aqui. Até o século 19 ouvia-se música moderna. Agora é diferente” [Entrevista a J. Jota de Moraes, Jornal da Tarde, 19/7/1988].

Aos três episódios, que têm tudo a ver entre si, tenho de acrescentar um quarto, testemunhado no concerto do violinista Gidon Kremer e sua Kremerata Báltica na Sala São Paulo no último dia 21. O genial músico letão nascido em Riga há 69 anos continua mais político do que nunca. Desde 2003, combate com unhas e dentes o governo Putin (desde que Putin mandou prender o magnata Kodorkovsky, solto dez anos depois). No repertório dos dois concertos paulistas não há nenhuma obra de cunho declaradamente político. Mas Kremer não é de deixar passar nenhuma chance de expressar sua posição política. Assina um texto que é pura nitroglicerina:

“Hoje, a política na Rússia revela o lado negro da famosa ‘alma’ desta nação. Embora seus cidadãos sejam com frequência enaltecidos por sua generosidade e por seu calor humano, a Rússia está em processo de perda de suas maiores qualidades. (...) Alimentados por pseudopatriotismo e uma insaciável sede de poder, os políticos e a política revelam um lado sombrio, ao mentirem constantemente para o mundo e para o seu próprio povo. (...) É impossível negar que há uma certa ‘lavagem cerebral’ em curso e que a manipulação dos meios de comunicação está incentivando os russos a apoiarem as mais insanas doutrinas, dividindo radicalmente a sociedade em crédulos e incrédulos, apoiadores e inimigos.”

É um direito inalienável de todo ser humano expressar suas opiniões políticas. Difícil entender a posição de Gabriela Montero, se ela de fato não tocou “ExPatria” por sua vontade e se isso lhe tenha sido proposto pela Osesp – até porque em entrevista ao Estadão ela fez questão de detonar o governo Maduro e o atual regime venezuelano.
 
Em todo caso, é pena que tão poucos músicos sigam os outros dois exemplos acima citados. Não é preciso tocar música politicamente engajada. Basta não fugir da raia. Basta não ter a espinha tão flexível a ponto de agachar-se para todo tipo de tiranete, desde que tal atitude lhes dê ganho$. Isso só os iguala à nossa classe política, digna de impropérios iguais aos que Kremer imputa aos queridos políticos russos.





João Marcos Coelho - é jornalista e crítico musical, colaborador do jornal O Estado de S. Paulo e apresentador do programa "O que há de novo", da Rádio Cultura FM; é coordenador da área de música contemporânea da CPFL Cultura.

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