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“Orfeu e Eurídice” tem boa montagem no Rio de Janeiro (11/7/2016)
Por Nelson Rubens Kunze

O alemão Christoph Willibald Gluck, nascido em 1714 e falecido em 1787, estabeleceu, junto com o libretista Ranieri de Calzabigi, um marco no desenvolvimento da história do ópera. Propondo uma nova simplicidade, Gluck despiu à tradição barroca os seus ornamentos e virtuosismos, buscando realçar a narrativa. Como escreveu Jorge Coli neste mesmo espaço a propósito de outra ópera de Gluck, “da mesma maneira que David eliminou a pintura galante e ornamentada do Antigo Regime, Gluck condenou a sofisticação virtuosística da ópera que o precedia”. Orfeu e Eurídice, símbolo dessa reforma neoclássica, estreou em Viena, em 1762.

Um pesado arcabouço de pilares e vigas domina o palco desta nova montagem da ópera, produção do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. No primeiro ato, simulando uma catacumba com o túmulo de Eurídice, a grande estrutura funciona bem. E também combina com Orfeu enfrentando as fúrias no inferno. Mas, apesar das muitas soluções criativas do diretor cênico Caetano Vilela, a vultuosa estrutura que perpassa todo espetáculo confere uma rigidez e monumentalidade fria, que rouba uma leitura mais íntima e poética da ação e da música, muitas vezes extremamente delicada e emocionada de Gluck.

 
Cena da ópera “Orfeu e Eurídice” [Crédito das fotos: Júlia Rónai]

Por outro lado, é verdade que o palco do Municipal carioca é grande e que o amplo cenário serviu bem para delimitar o espaço e para dar suporte apropriado para o desenrolar da história, com uma natural e fluente movimentação de atores. Talvez a vulnerabilidade da ampla espacialidade seja mesmo intencional, já que até na bonita e iluminada cena final – Orfeu e Eurídice no império do amor acompanhados de um grupo carnavalesco com porta bandeira (de lindos figurinos e de muito bom gosto, vale ressaltar) – insinua-se um tom de melancolia, solidão e desesperança. (E, afinal, esse é mesmo o mundo do Orfeu mitológico, e não o do happy end que o libretista Calzabigi inventou para a ópera de Gluck, ao mudar o trágico final por meio da intervenção redentora do Amor – do tipo, quando tudo está perdido aparece um divino salvador da pátria.) O diretor Caetano Vilela também é o responsável pela ótima iluminação; cenários são de Duda Arruk; e os figurinos de Cássio Brasil.

O destaque vocal da noite foi Denise de Freitas. Artista madura, de grande personalidade artística, Denise fez o exigente papel de Orfeu (o papel masculino de Orfeu foi escrito para voz de castrati, como era comum na época, e hoje é feito por mezzo sopranos ou contratenores). Com sua maleável voz escura e ótima atuação cênica, a artista criou o personagem com muita propriedade. A excelente soprano Lina Mendes também ocupou bem o palco, com bonita e clara voz, e fez uma consistente Eurídice. O papel de Amor coube a jovem soprano Luisa Suarez, membro da Academia de Operá Bidu Sayão, do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Luisa se integrou perfeitamente bem às colegas, com uma boa performance tanto vocal quanto cênica. (Luisa é filha da cantora Carol McDavit, que fez o mesmo papel na última montagem desta ópera no Rio, há mais de 20 anos.) A orquestra, o coro e o balé do Theatro tiveram igualmente bom desempenho. A coreografia foi de Tânia Nardini.

A direção musical e regência couberam ao maestro convidado Abel Rocha. Com muita verve e entusiasmo, Abel imprimiu ritmo adequado à partitura, mantendo um bom equilíbrio entre o fosso e o palco. Na orquestra, faltou um pouco de delicadeza e acabamento, o que, contudo, em nenhum momento comprometeu a fluência do discurso musical. No todo, a montagem do Theatro Municipal do Rio de Janeiro – produzida integralmente dentro da casa com artistas brasileiros –, teve um resultado bom e consistente.

De resto, vale notar o espírito profissional e colaborativo que viabilizou a produção. Como escreve no programa o presidente da Fundação Theatro Municipal do Rio de Janeiro, João Guilherme Ripper, os servidores do teatro “não pouparam esforços para superar as dificuldades e preservar o brilho e a continuidade da temporada 2016”. A ópera contou com o patrocínio da empresa Sicpa, realizado por meio da Lei Rouanet.

 





Nelson Rubens Kunze - é diretor-editor da Revista CONCERTO

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