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Trilogia Amazônica é grande acerto da programação do Theatro Municipal carioca (5/8/2016)
Por Nelson Rubens Kunze

Olimpíadas! O Rio de Janeiro está em clima de festa. Andando pelas ruas, são muitos turistas, muitas línguas e muito movimento. E pelo centro, ao longo da Avenida Rio Branco passando pelo Theatro Municipal, trafega o novo VLT – o bonde que liga o Aeroporto Santos Dumont à rodoviária (ok, não sei se é prioridade em termos de mobilidade urbana, como muita gente reclama, mas que é uma beleza e um grande charme, ah, isso é). E o que dizer da espetacular esplanada do Museu de Arte do Rio e do Museu do Futuro, que, junto com a renovação de todo o entorno do porto, agora batizado de Boulevard Olímpico, recupera uma degradada região da antiga capital do Império e da República? Cidade maravilhosa!

Mas vamos ver como será a cerimônia de abertura da grande festa olímpica. Com a direção de profissionais como Fernando Meirelles e Daniela Thomas, certamente será melhor que a malfadada abertura da Copa, e esperemos que consiga passar ao mundo um pouco da riqueza e diversidade do Brasil (e não apenas aqueles mesmos estereótipos de sempre).

Se a música clássica e a cultura erudita (desculpe o palavrão) serão novamente preteridas – e, ao que tudo indica, serão mesmo –, o Theatro Municipal do Rio de Janeiro apresenta, como contraponto, uma ótima e inteligente programação: a Trilogia Amazônica. Inteiramente baseado em obras de Villa-Lobos, o programa tem a orquestra e o balé da casa em três coreografias encomendadas a três destacados artistas brasileiros: “Uirapuru”, criada por Daniela Cardim (company manager, ensaiadora e coreógrafa do New English Ballet Theatre, de Londres); “Erosão”, por Luiz Fernando Bongiovanni (diretor e coreógrafo do Núcleo Mercearia de Ideias); e “Alvorecer”, idealizada por Marcelo Gomes (bailarino principal e coreógrafo do American Ballet Theatre).

Assisti à estreia do espetáculo, na quarta-feira dia 3 de agosto, e no geral o resultado foi muito bom. A orquestra, conduzida pelo seu regente titular Tobias Volkmann, soou bem e apresentou uma consistente interpretação. Igualmente o balé, que tem direção artística de Ana Botafogo e Cecília Kerche, deu provas de sua competência, com bons bailarinos e excelentes solistas. As três coreografias tinham como fio condutor a natureza e a própria música de Villa-Lobos. No conjunto, as diferentes concepções coreográficas emprestaram riqueza e diversidade ao espetáculo.

“Uirapuru”, sobre o Canto III da Floresta do Amazonas e a própria Uirapuru, conta a lenda do pássaro “de canto mais belo dentre todas as aves da floresta”. Na coreografia de Daniela Cardim a dança clássica está bem presente, os dançarinos se movimentam em um ambiente de linhas geométricas, com árvores estilizadas e em figurinos de maiôs coloridos, lembrando os anos 1950. Cenários são complementados por projeções sobre telas de tule transparente. O trabalho emana a atmosfera mítica atribuída ao pássaro encantado.

Cena de “Uirapuru”, de Daniela Cardim [Foto: divulgação TMRJ  / Júlia Rónai]

A segunda obra, “Erosão”, baseada na música de mesmo título, é bem diferente. Parte de uma abordagem mais contemporânea, explorando efeitos de luz de altos contrastes e grande dramaticidade. Com projeções, Luiz Fernando Bongiovanni faz uma crítica explícita à destruição do meio ambiente, no fim incluindo imagens do rompimento da barragem de Mariana.

Cena de “Erosão”, de Luiz Fernando Bongiovanni [Foto: divulgação TMRJ  / Júlia Rónai]

A coreografia que fecha o programa, “Alvorecer”, acompanha as obras Alvorada na floresta tropical e Amazonas. Marcelo Gomes, que é nascido em Manaus, aproveita o tema musical para contar a história do boi-bumbá e do boi de Parintins. Com um cenário inspirado em uma estética naif tropical, com elementos que lembram Tarsila do Amaral, o trabalho enfoca o folclore popular de forma ingênua – o que é reforçado pela participação de crianças da Escola Estadual de Dança Maria Olenewa –, com cores e climas bem brasileiros.

Cena de “Alvorecer”, de Marcelo Gomes [Foto: reprodução vídeo TMRJ]

Apesar de funcionarem muito bem em conjunto, os trabalhos são criações isoladas – por isso mesmo “trilogia”. Se todas as obras são bem acabadas e ricas de sugestões, cada espectador terá as suas próprias predileções. Assim, sem demérito das outras, eu pessoalmente fico com “Erosão”, por seu desenvolvimento narrativo, equilíbrio dramático e beleza plástica, bem como por sua mensagem de advertência para a destruição de nosso meio ambiente.

Se você está no Rio de Janeiro, ou se você for para lá, não deixe de assistir à Trilogia Amazônica. Um ótimo programa para acompanhar a maior festa esportiva do mundo.





Nelson Rubens Kunze - é diretor-editor da Revista CONCERTO

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