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Ópera “O anão” não acompanha nível do Theatro São Pedro (23/8/2016)
Por Nelson Rubens Kunze

A ópera O anão, de Zemlinsky, nova produção do Theatro São Pedro de São Paulo, infelizmente destoa do nível das realizações às quais nos acostumamos a assistir nesta casa nos últimos anos (é só lembrar, por exemplo, do ótimo Don Quixote do primeiro semestre). É verdade que nem sempre a qualidade de um espetáculo depende exclusivamente dos recursos investidos, mas neste Anão do Theatro São Pedro fica faltando alguma coisa. Um cenário formado por serpentinas e caixas de papelão e um elenco composto majoritariamente por vozes em formação (a despeito de ser elogiável abrir espaço para a apresentação de solistas da Academia de Ópera) não correspondem ao que se espera do teatro de ópera do estado mais rico do país.

É uma pena. O anão é uma joia rara e, acredito, um título perfeito para um teatro com as dimensões do São Pedro. Guardo ótimas lembranças de uma apresentação que assisti no Rio de Janeiro, em uma produção semi encenada da Orquestra Petrobras Sinfônica dirigida pelo maestro Isaac Karabtchevsky [leia meu comentário aqui].

A ópera O anão, escrita sobre libreto de Georg Klaren, por sua vez baseado no conto “O aniversário da infanta” de Oscar Wilde, contém ricos elementos interpretativos, como o sarcasmo, a soberba, os conceitos normal/deformado ou belo/feio, ou o espírito transformador nos centros europeus (e em Viena) das primeiras décadas do século XX. A música de Zemlinsky reflete esse mundo, em uma linguagem romântica de grande intensidade.

É verdade que há coisas satisfatórias na nova produção do Theatro São Pedro: a orquestra teve um bom desempenho sob direção de André dos Santos e, no geral, os solistas defenderam seus papeis com correção. Mas, para um título dessa exigência, faltou maturidade e virtuosismo. E a encenação de William Pereira, por sua simplicidade, não logrou abarcar o complexo universo psicológico e dramático da ópera. O ponto culminante da história – o anão reconhecendo sua deformidade – ficou comprometido pela feitura um tanto grosseira do espelho (mais parecido a um grande refletor, que ficava balançando enquanto os atores se movimentavam). Em meio a uma concepção tão econômica, é necessário destacar os caprichados figurinos de Olintho Malaquias, ponto positivo da encenação.

Como sabemos, os cortes orçamentários promovidos pelo governo do Estado de São Paulo obrigaram o Theatro São Pedro a cancelar títulos – esse O anão estava planejado originalmente em dobradinha com a estreia de uma nova ópera de Jorge Antunes. Além disso, a nova realidade financeira obrigou a direção do teatro a cancelar a participação de renomados solistas. Ainda que o Theatro São Pedro esteja mantendo uma variada e rica programação paralela – com música de câmara, projeto academia, concertos e tardes de ópera – é lamentável que esses cortes se reflitam sobre a produção das óperas.

Seria altamente desejável que o governo revisasse seu plano de contingenciamento, livrando as organizações sociais (como o Theatro São Pedro) de cortes, que afetam criticamente seu funcionamento e, no cômputo geral, não contribuem para o equilíbrio orçamentário do estado [leia mais sobre o assunto aqui]

Como já demonstrou anteriormente (Falstaff, Édipo Rei, O homem dos crocodilos, Dom Quixote, Bodas no monastério e O amor dos três reis, para citar apenas algumas das óperas que produziu), o Theatro São Pedro esbanja potencial para muito mais que esse pobre Anão.


Cenas de “O anão” [Divulgação / Heloisa Bortz]

[Clique aqui para ler também a crítica de Jorge Coli]





Nelson Rubens Kunze - é diretor-editor da Revista CONCERTO

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