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Porto Alegre tem “Don Pasquale” em montagem divertida e eficaz (2/9/2016)
Por Everton Cardoso

Encenar uma comédia, ao contrário do que muitas vezes parece, não é nada fácil; quando é uma peça do gênero conhecido popularmente como “pastelão”, a dificuldade aumenta. Há sempre o risco de se reproduzir a dinâmica dos piores exemplos das telas e dos palcos. Sendo uma ópera – gênero mais tipificado pelos dramas românticos, heroicos e histórias menos dadas ao riso –, isso se torna ainda mais complexo. E foi a esse desafio que a Orquestra Sinfônica de Porto Alegre se lançou, no último mês de agosto, ao trazer ao palco do Theatro São Pedro, na capital gaúcha, uma montagem de Don Pasquale, de Gaetano Donizetti. Há 14 anos o conjunto não apresentava encenações de obras líricas. Plateia lotada; riso frequente: assim pode-se resumir o que se viu na sala.


Ospa apresenta “Don Pasquale”, em Porto Alegre [Divulgação / Marília Lima]

A atuação do baixo Saulo Javan como protagonista da história foi, sem dúvida alguma, um dos pontos altos da noite. Como poucos cantores-atores, ele foi capaz de traduzir em sua interpretação os traços do velhote vaidoso que pretende arrumar para si uma bela e jovem esposa. Esse espírito estava presente na movimentação corporal e na expressão facial, convencendo o espectador. Figurino e cenografia participaram dessa construção de forma eficiente: a roupa do protagonista era uma casaca com bordados de lantejoulas, a única peça de todo o guarda-roupa que reluzia; a casa de Don Pasquale tinha paredes que imitavam um tecido que estava no limiar entre o refinado e o cafona; numa das paredes havia um retrato do personagem com ar de soberba e arrogância. Também a Norina interpretada pela soprano Carla Domingues foi convincente no seu trânsito entre a ingênua donzela casadoira e a golpista que, mancomunada com Dr. Malatesta, arquiteta a tramoia central do enredo. Destaque, ainda, merece o Ernesto do tenor Giovanni Tristacci – trazido à cena como um bobalhão romântico que vestia casaca cor-de-rosa e cantava, em cena do terceiro ato, sob a lua cheia. O “buffo” da ópera, portanto, traduziu-se em cena e levou a plateia às gargalhas nos momentos mais cômicos do texto e nos trechos em que a música adquiria um tom jocoso. Isso tudo se completou com as brilhantes atuações dos três personagens como cantores: um Don Pasquale cômico; uma Norina dissimulada e um Ernesto comovente emergiram das competentes vozes dos intérpretes.

É importante destacar a opção por um figurino que remete à estética rococó, com perucas brancas, calções e meias brancas, vestidos bufantes – ainda que, em muitos elementos, fuja da típica tonalidade pastel e opte por uma paleta de cores mais intensa e terrosa, quase barroca. Ainda assim, a aproximação com esse momento da história da arte se evidencia em elementos que dialogam com a leitura proposta por Sofia Coppola em seu Marie Antoinette (filme de 2006, que trata da biografia da rainha da França) e que traz a futilidade da vida cortesã e a fartura de uma gastronomia bela e refinada como elementos centrais. Nesse sentido, na opção estética pelo exagerado, a montagem da Ospa ofereceu ao público uma experiência vigorosa e intensa: a da comédia dramática, estilo típico nas tramas e na estética de tons vibrantes do cineasta espanhol Pedro Almodóvar. Em Don Pasquale, então, a relação entre o que se vê e o que se ouve é capaz de construir, para o espectador, uma narrativa interessante e instigante; neste caso, com a opção por elementos em consonância, sem grandes estranhamentos – o que legou à trama musicada por Donizetti e à comédia a ela inerente um papel de destaque.

A direção cênica, porém, teve de lidar com uma limitação: em Porto Alegre, não há teatros para ópera. O São Pedro – mais prestigiosa casa da cidade e com uma plateia cuja forma em ferradura favorece a acústica para canto lírico – não possui fosso de orquestra. O conjunto musical, por isso, foi posto sobre o palco. A solução foi estabelecer dois planos para o desenrolar das cenas: uma espécie de palco mais alto um pouco atrás e sobre a orquestra; e o proscênio. Ainda que isso conferisse dinamismo à montagem e resolvesse o problema do posicionamento dos músicos, fez com que, em alguns momentos, o canto perdesse força e vibração – afinal, os sons das vozes dos solistas tinham de sobrepassar os dos instrumentos para chegar à plateia. Essa diferença se tornou ainda mais intensa devido às pequenas dimensões do teatro – que comporta pouco mais de 600 espectadores. Isso causa certo estranhamento aos ouvidos, já que normalmente o distanciamento do canto serve, em peças líricas, a propósitos narrativos – lembro-me aqui da cena final do primeiro ato de La Traviata, de Giuseppe Verdi, quando o cantar de Alfredo vem de longe, como se na memória de Violette.


O trio de protagonistas [Divulgação / Ana Eidam]

Ainda, a montagem recorre a um recurso cênico que, apesar de interessante, não esteve bem resolvido. A proposta é que o que se via no palco fossem os bastidores de uma filmagem de Don Pasquale. Por isso, havia atores e atrizes que manuseavam câmeras e microfones, trocavam cenários e em alguns poucos momentos interagiam com os protagonistas – retocando-lhes a maquiagem, por exemplo. Essa movimentação toda, no entanto, não contribui muito para as cenas e, em muitos momentos, chega a destoar do foco central – inclusive porque desvia do tom mais engraçado dado à narrativa da peça em si. Isso fica ainda mais estranho quando da presença do coro na parte final da ópera: o conjunto vocal é formado por serviçais e convidados de Norina, mas, surpreendentemente, alguns desses técnicos de cinema – vestidos de preto e à moda atual – juntam-se aos personagens rococó, o que cria certa confusão na contraposição com o enredo e a proposta a ele associada.

Com muitos méritos e algumas falhas, então, a proposta da Ospa para Don Pasquale foi, para o público sulino, um momento de diversão e de prazer estético. Ainda que sejam menos raras as oportunidades de se ver música lírica em forma de concerto, é apenas na confluência do visual com o auditivo que a experiência de ópera se completa em sua plenitude. Quando a proposta visual apresenta elementos à altura da peça escolhida e da interpretação musical – caso do que se viu nessa ocasião – isso se torna ainda mais impactante. Resta, então, a expectativa – quiçá, esperança – de que a orquestra ofereça mais récitas desta montagem e que não deixe de trazer à cena novas óperas. Quem sabe, assim, revivamos os tempos que restaram na memória da cidade: quando, em meados do século passado, o ousado Pablo Komlós, maestro húngaro radicado em Porto Alegre e regente da Ospa, levava a palco encenações como a de Aida, que foi registrada em fotos e permaneceu na memória de quem a viu – diz-se que até animais desfilaram pelo palco durante a marcha triunfal composta por Verdi.





Everton Cardoso - é jornalista, pesquisador e professor universitário. Atua como crítico de ópera no programa Nota Musical, da Rádio da Universidade (UFRGS, Porto Alegre - RS)

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