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E vamos ao... musical! (3/9/2016)
Por Nelson Rubens Kunze

Em uma palavra: ótimo! É assim o novo My Fair Lady em cartaz no Teatro Santander, em São Paulo. Verve musical, excelentes cantores-atores, bonita e bem acabada encenação e a competente direção de Jorge Takla fazem do espetáculo um programa obrigatório não só para quem gosta do gênero, mas para todos que curtem assistir a um programa cultural de qualidade.

Como é sabido, My Fair Lady conta a história de uma pobre e ignorante florista de Covent Garden, Eliza, que vira pivô de uma aposta entre o professor aristocrata Henry Higgins e o coronel Pickering: eles pretendem transformá-la em uma dama da alta sociedade londrina. A atitude autoritária de Higgins, de forte carga machista e misógina, acaba subvertida pelo amor – ainda que a cena final mostre uma submissa Eliza servindo o acomodado professor refestelado em sua poltrona... My Fair Lady é baseado na peça teatral Pigmalião, escrita em 1913 por George Bernard Shaw. A música foi composta por Frederick Loewe sobre libreto de Alan Jay Lerner, que aqui ganhou inspirada versão em português de Cláudio Botelho (o conhecido “the rain in Spain stays mainly in the plain” virou “atrás do trem as tropas vêm trotando” – clique aqui para ouvir no YouTube).

Cena de My Fair Lady [divulgação]

O elenco é primoroso. O barítono Paulo Szot, grande astro da cena lírica internacional (e vencedor do cobiçado prêmio Tony americano por sua atuação no musical South Pacific, na Broadway), fez Higgins, com crescente envolvimento. Esbanjando talento e técnica – além da voz privilegiada – Szot conduziu a história com grande carisma. Excelente foi a sua interação com o Coronel Pickering interpretado com muita competência por Eduardo Amir.

No mesmo nível atuou a jovem soprano Daniele Nastri como Eliza. Absolutamente à vontade sobre o palco, de lindo e amplo registro vocal, Nastri empolgou pela graça e beleza de sua interpretação. Outro destaque “importado” da ópera foi o barítono Sandro Christopher, que fez o papel de Alfred Doolittle, pai de Eliza. Com seu natural dom histriônico, Christopher logrou dar ao papel o grau exato de comicidade. Mas seria injusto não citar os papeis secundários, que mantiveram o mesmo nível de qualidade: Frederico Silveira como Freddy Eynsford-Hill, Eliete Cigaarini como a mãe de Higgins e Daniela Cury, que fez a Senhora Pearce.

A cenografia de Nicolas Boni é funcional e bonita, assim como os figurinos de Fabio Namatame. Uma grande reprodução da capa de um jornal londrino da época cobre a boca de cena e, quando suspensa, revela lindos e caprichados ambientes, de sóbria sofisticação. Todo o espetáculo flui naturalmente por meio das competentes soluções cênicas propostas por Takla – destaque para a beleza e equilíbrio da cena da corrida de cavalos.

A direção musical e regência couberam a Luiz Gustavo Petri, que conduziu a orquestra com toda a leveza e brilho que a partitura exige. E aqui, o único reparo: no dia em que assisti ao espetáculo (quarta-feira dia 31), a amplificação da orquestra me pareceu um pouco exagerada, fazendo com que as passagens em forte ganhassem uma incômoda estridência...

Eu sei, não dá para comparar. Mas se você está cansado das soluções improvisadas que constantemente ameaçam as produções líricas de nossos teatros de ópera, vá se regozijar no competente teatro musical de My Fair Lady. Com certeza vale a pena!


 

Paulo Szot, como Henry Higgins [divulgação / João Caldas Filho]

A soprano Daniele Nastri, no papel de Eliza Doolittle [divulgação]

Cena de My Fair Lady [divulgação]





Nelson Rubens Kunze - é diretor-editor da Revista CONCERTO

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