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“Medeia” é ótima realização da Bienal de Ópera Atual (19/9/2016)
Por Nelson Rubens Kunze

Encerrou-se no Rio de Janeiro, no último dia 17 de setembro, a I Bienal de Ópera Atual. Promovida pela Funarte, a iniciativa pretende estimular a composição de novas óperas em formações de câmara, de custos reduzidos, viabilizando suas encenações.

Baseada na tragédia grega escrita por Eurípedes há mais de 2400 anos, a ópera Medeia foi o segundo título estreado na Bienal (o outro foi a Ópera do Mambembe Encantado, de Eli-Eri Moura) e o resultado geral foi muito bom. A obra foi criada pelo compositor brasileiro Mario Ferraro (também idealizador e diretor artístico da Bienal), que se formou na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e fez doutorado na City University, em Londres. Hoje, Ferraro é professor de Música do Colégio de Aplicação da UFRJ.

O libreto, elaborado pelo próprio compositor, conta a história de Medeia, a mulher traída, que, corroída de dor e humilhação e movida por vingança e ódio, assassina os próprios filhos para exterminar a descendência de Jasão, o amante que a abandonou. Como consta no programa, “Medeia apresenta uma das personagens femininas mais impressionantes da dramaturgia universal, seja pela gama quase inesgotável de sentimentos humanos que carrega, como também por suas atitudes frente ao conformismo do seu tempo e às injustiças a ela impostas por uma sociedade patriarcal arraigada nas suas tradições”.

O compositor Mario Ferraro distribuiu o papel de Medeia entre três cantoras de diferentes registros – para abarcar assim todo o universo feminino –, criando ótimas possibilidades para a exploração cênica. Além de Medeia, entram em cena o marido traidor Jasão e Egeu, rei de Atenas, que reforça a estrutura machista que controla e subjuga a mulher. Apresentou-se o Abstrai Ensemble (a formação instrumental é de flauta, clarinete, trompete, trombone, percussão, piano, violino, violoncelo e contrabaixo) sob a direção segura e convicta de Carlos Prazeres.

A encenação é de Marcelo Gama, brasileiro radicado há 20 anos na Europa, onde desenvolve intensa carreira especialmente com primeiras audições. Com recursos simples, Gama criou uma montagem de alta intensidade dramática – e grande atualidade –, realçando a violência física, emocional e psicológica contra a mulher. Medeia expressa seus sentimentos sempre controlada pelos homens, que a acorrentam com uma coleira no pescoço. O clímax do espetáculo, o ato consciente mas desesperado de assassinar os próprios filhos, gera um fluxo interminável de sangue que escorre de dentro do berço...

A linguagem musical é contemporânea e atonal. Em mais de uma hora e meia de música contínua, em uma estrutura orgânica e fluente, toda a importância é dada às vozes; os instrumentos são os protagonistas da atmosfera do drama, mas raramente têm relevância autônoma. Desse modo, a obra ganha uma densidade teatral que por vezes transcende a própria música. Não raro o melodismo vocal aproxima-se do canto falado (Sprechgesang), o que intensifica a comunicação da narrativa. Mais que ópera, Medeia é um teatro musical contemporâneo.

Tanto maior o desafio aos cantores atores, que, todos, tiveram excelente participação. As Medeias foram feitas, com grande e emocionante entrega, pela soprano Doriana Mendes, a mezzo Lorena Espina e a contralto Adalgisa Rosa. O tenor Gustavo Quaresma fez Jasão, e o baixo-barítono Licio Bruno, com seu habitual brilho, fez o rei Egeu.


Cenas da ópera Medeia [Foto: divulgação]

Essa Medeia é mais uma prova das possibilidades da ópera em nossos dias e, como se fosse necessário, um atestado da vitalidade do gênero. Ela é uma obra que trata de temas de nossa atualidade, e que, pela consistência e qualidade artística, mereceria ser vista também em outras cidades do Brasil.

[Nelson Rubens Kunze viajou ao Rio de Janeiro e assistiu a Medeia a convite da produtora Artematriz.]





Nelson Rubens Kunze - é diretor-editor da Revista CONCERTO

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