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Festival de Ópera do Theatro da Paz encena “Turandot”, de Puccini (26/9/2016)
Por Nelson Rubens Kunze

Não é tarefa trivial montar Turandot, de Puccini. Última ópera do compositor, escrita em 1924 (Puccini deixou-a inacabada, e a versão com a última cena concluída por Franco Alfano tornou-se a mais comumente encenada), Turandot exige uma grande orquestra, grande coro, coro infantil e 10 solistas, entre os quais dois papeis protagonistas, a princesa Turandot e o príncipe Calaf, de extrema dificuldade vocal. Além disso, há o desafio da encenação propriamente dita – a história se passa nos castelos imperiais da antiga China.

Mas o Festival de Ópera do Theatro da Paz não teme os grandes títulos, como já demonstrou em edições anteriores. E o resultado geral desta nova produção de Turandot – segundo e último espetáculo desta 15ª edição – é bom (ainda que fique evidente ser uma montagem simples e de poucos recursos – também no Pará a crise impôs severos cortes na área da cultura). A ópera reúne ótimos profissionais, está bem montada e prende a atenção da plateia.

Em matéria de João Luiz Sampaio na Revista CONCERTO (setembro nº 231, página 20), o diretor cênico Caetano Vilela argumenta que as grandes cenas corais de Turandot aparecem em apenas dois momentos, e que, para ele, a principal motivação para a encenação é a direção dos atores. “As motivações e os sentimentos dos personagens em momentos mais íntimos dominam totalmente a ação, e é nesses instantes que encontramos o drama, o principal motor da ópera”, diz. De fato – e em sentido oposto à suntuosidade normalmente associada a este título –, Caetano conseguiu criar cenas em escala menor e mais íntimas, sem deixar cair a tensão dramática e até realçando a narrativa.

É a cenografia (Roni Hirsch) que não se encaixa muito bem no espírito da obra. Estruturas de cores pastel claras, muitas vezes definidas por motivos geométricos (antes de se abrirem as cortinas já se vê sobre o palco um grande quebra-cabeças nesses tons), eram deslocadas sobre o palco, quase como módulos, emprestando à montagem, involuntariamente, um caráter quase lúdico e infantil. Se por um lado a ideia favoreceu o conceito mais intimista de Caetano Vilela – possibilitando boas soluções para a movimentação dos atores –, por outro divergiu dos elaborados figurinos (Adán Martinez) e criou uma atmosfera bem distante daquela que se imagina para uma gélida princesa cruel e suas cabeças decepadas... A “ingenuidade” da concepção também ficou reforçada por uma iluminação, ainda que correta, bastante convencional.

No dia 23 de setembro, a Orquestra do Theatro da Paz, bem como o coro e o coro infantil, fizeram uma performance boa, com grande sonoridade. A direção de Miguel Campos Neto foi eficiente, ainda que, em algumas passagens (especialmente nas grandes cenas coral-sinfônicas) tenha faltado um pouco de equilíbrio e comedimento sonoro.

Ponto alto do espetáculo foi o elenco, no todo bastante equilibrado. Turandot foi feito pela excelente Eliane Coelho, que magnetiza por seu carisma. O tenor Richard Bauer fez Calaf, com voz bonita e potente. Ambos construíram bem seus personagens, alcançando o dueto final com grande intensidade. Liù foi interpretada de forma correta pela soprano brasiliense Luciana Tavares. A apresentação dos três ministros Ping, Pang e Pong, feitos respectivamente por Homero Velho, Giovanni Tristacci e Antonio Wilson, foi muito convincente, assim como a de Altoum, o imperador da China, interpretado pelo tenor Mauro Wrona.

Absolutamente irrepreensível foi o Timur de Sávio Sperandio. Voz cheia, redonda e uniforme em todo registro, com vibratos cuidados e ótima projeção, Savio é sem dúvida um dos mais destacados cantores da cena lírica nacional da atualidade.

Se fazer ópera em centros como São Paulo, Rio de Janeiro ou Belo Horizonte já é difícil, só dá para dizer “parabéns!” para as iniciativa de produções líricas no Norte do país. A nova produção de Turandot, que se soma a uma série já bem expressiva de boas montagens do Festival de Ópera do Theatro da Paz, reforça e dá continuidade à grande tradição lírica da capital paraense.

[Nelson Rubens Kunze viajou a Belém e assistiu a Tudandot a convite da produção do XV Festival de Ópera do Theatro da Paz.]


Cenas da ópera Turandot [Divulgação / Salim Warris] 





Nelson Rubens Kunze - é diretor-editor da Revista CONCERTO

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