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Arrebatadora “Elektra” estreia no Theatro Municipal de São Paulo (12/10/2016)
Por Nelson Rubens Kunze

Elektra, de Richard Strauss, nova produção do Theatro Municipal de São Paulo, é programa obrigatório para quem curte ópera. Não, não só para quem curte ópera. Mas para todos que se interessam por cultura e pelas questões mais profundas da condição existencial humana.

Inspirada na mitologia grega, a ópera conta a história do assassinato de Clitemnestra e de seu amante Egisto, cometido pelo filho dela, Orestes, por sua vez encorajado por sua obcecada irmã Elektra. É uma vingança contra a mãe, que antes assassinara seu pai, Agamêmnon. Na Antiguidade, a história de Elektra foi contada por diversos escritores, como Ésquilo, Eurípedes e Sófocles, este último tendo servido de base para a peça homônima escrita pelo austríaco Hugo von Hofmannsthal. Strauss, que assistira à estreia da peça de Hofmannsthal em Berlim, em 1903, pediu ao autor que elaborasse o libreto para sua nova ópera. Elektra, cujo fio condutor é o desejo de vingança contra a mãe pelo assassinato do pai, estreou em 1909, em Dresden, na Alemanha. Se no original de Sófocles a peça trata da tragédia em sua relação com o poder e mistério divinos, Hofmannsthal se atém à perspectiva humana, espelhando o sentimento e a atmosfera de um tempo de grandes modificações e da descoberta do inconsciente.

Cenário de Elektra, de Strauss, em cartaz no Theatro Municipal de São Paulo [foto: divulgação / Arthur Costa]

É excelente a encenação concebida por Livia Sabag para o Theatro Municipal de São Paulo. Um amplo cenário ocupa toda a boca de cena, com quatro ambientes em dois níveis, possibilitando ótimos recursos para uma narrativa dinâmica e de grande dramaticidade. Além da beleza plástica (cenários de Nicolas Boni; iluminação de Caetano Vilela; figurinos de Fábio Namatame), a estrutura remete a uma intimidade doméstica, que reforça uma leitura mais direta dos conflitos familiares. Em algumas passagens, a encenação é pontuada por eficientes e sugestivas projeções de vídeo. Assim, a diretora cênica logrou o que pretendeu como exposto no programa da ópera, onde diz: “Procurei destacar os laços familiares e as relações complexas e problemáticas entre os personagens. As demonstrações de afetos e de ódio, os ataques verbais e físicos, as dificuldades de diálogo, os comportamentos viciados”. Igualmente feliz foi a movimentação de atores, que, em criativas soluções cênicas, proporcionaram uma narrativa orgânica e de grande intensidade. O final da ópera escancara, com honestidade e coragem, a falência da família e o poder que o ser humano tem de se destruir a si mesmo...

Mas, para além da ótima montagem em si, é na qualidade do elenco que Elektra se alinha entre as melhores produções do ano (assisti à récita da estreia, dia 9/10). Realmente admirável foi a performance de Catherine Foster como Elektra. Cantora consagrada internacionalmente após fazer Brünnhilde no Anel de Wagner no Festival de Bayreuth, Foster, com potente voz e grande teatralidade, conduziu a trama com singular personalidade artística. Igualmente excelentes foram Natasha Petrinsky (Clitemnestra), Albert Dohmen (Orestes), Emily Magee (Crisótemis) e Jürgen Sacher (Egisto). Em perfeito equilíbrio, os cantores brasileiros Elaine Morais (governanta), Magda Painno, Malena Dayen, Lidia Schäffer, Masami Ganev, Lina Mendes, Elayne Caser, Camila Rabelo, Carlos Eduardo Marcos, Miguel Geraldi e Matheus França completaram o ótimo time.

A Orquestra Sinfônica Municipal, em grande noite, foi conduzida com competência pelo maestro residente Eduardo Strausser.

Concebida ainda pelo ex diretor artístico John Neschling, essa Elektra, em sua ambição e qualidade, com certeza se enquadra naquele projeto do grande teatro de ópera por ele idealizado. Se, no bojo do escândalo fraudulento descoberto em fins do ano passado, o projeto não vingou, a ópera com certeza demonstra o nível artístico e a capacidade de produção que o teatro alcançou nos últimos anos.

[Elektra ainda terá récitas nos dias 12, 13, 15, 16, 18 e 20 de outubro. Consulte detalhes no Roteiro Musical.]





Nelson Rubens Kunze - é diretor-editor da Revista CONCERTO

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