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Quando há ópera, não fique em casa! (18/10/2016)
Por Jorge Coli

Arte estranha, a ópera. Basta um nada, uma alteração ínfima, imperceptível por vezes, e tudo muda.

Foi o que ocorreu nas duas récitas a que pude assistir de Elektra, no Theatro Municipal de São Paulo, a primeira, no dia 13, a segunda no dia 15.

O espetáculo prometia. Catherine Foster, a protagonista, é uma cantora fora do comum, que eu já pudera ouvir como Brünnhilde suntuosa no Festival de Bayreuth.

Antes, porém, que o espetáculo iniciasse, um amargo se infiltrava no meu espírito. Sala vazia, pela metade. São Paulo apresenta uma obra-prima, cuja última encenação no Brasil ocorreu no Rio de Janeiro, em 1923 (!), com um elenco de fazer inveja a qualquer grande teatro do planeta, e não há público suficiente para preencher todos os lugares? Que lástima.


Cena da ópera Elektra [Divulgação / Arthur Costa] 

O espetáculo se inicia. O grupo das criadas é homogêno, impecável. Elektra tem voz luminosa, sem falhas. Como imaginar uma Crisótemis melhor do que Emily Magee? Natascha Petrinsky surge, chiquíssima, esbelta, como Clitemnestra. Formidável trio. Albert Dohmen, que canta Orestes, tem um timbre magnífico, embora não o physique du role: meia idade, careca, era esquisito ouvir Elektra chamá-lo de minha criança.

E no entanto, o tempo custa a passar. Tudo esplêndido, sem dúvida. Tudo vai chegar muito bem até o fim, sem tropeços. A orquestra brilha. Mas falta aquela chama superior que incendeia uma apresentação.

De vez em quando, dou uma espiada no relógio.

Só mais para o final, depois da morte de Egisto (formidavelmente cantado por Jürgen Sacher) é que a emoção me toma.

Ao longo da apresentação, maldigo a montagem. Que ideia, transformar essa tragédia decadentista, expressionista, que pede os brilhos preciosos de Gustave Moreau ou, melhor ainda, de Gustav Klimt, num drama burguês? Por que ceder às convenções acadêmicas de hoje, que transferem sistematicamente o tempo da ação para os anos de 1930 ou 40? De O barbeiro de Sevilha a Pelléas, da Bohéme ao Crepúsculo dos deuses, os diretores de cena põem tudo nesse período, ou em 90 % dos casos, pelo menos, com todo mundo usando roupas feias e tristes. Porque subdividir o palco em quatro setores, quando a obra pede concentração do espaço? Por que esquecer o poço do início, e essa água purificadora ou maculada de sangue, essencial e inútil para lavar todos aqueles crimes? Por que fazer com que Elektra, que deveria ser conduzida à morte por um frenesi nitszcheano, dionisíaco, no apogeu delirante de seu prazer vingativo, ir correndo se enforcar num fio de eletricidade? Por que aquelas projeções de vídeo, que sublinhavam as motivações mais evidentes e mais óbvias? Por que aquele efeito de dramalhão, expondo Clitemnestra morta em sua banheira? Consolava a poesia da iluminação (Caetano Vilela) e essa música, de qualquer modo tão bonita.

No sábado, eu deveria voltar ao Municipal para o segundo elenco. O que significa, para mim, sair de Campinas, enfrentar a Bandeirantes, a Marginal... Preguiça. Quase desisto. Mas, na última hora, o amor pela ópera é maior. Não sei de muita coisa, ou de muita gente, capaz de me tirar de casa naquele dia.

Instalo-me, escaldado, na minha poltrona. O público aumentou um pouco. Há lugares vazios, mas não tanto como na quinta-feira.

O maestro Eduardo Strausser ataca, e os três primeiros acordes, solenes, ameaçadores, soam diferentes. Mais vivos, mais rápidos, ou mais intensos.

Imediatamente, tudo se... eletriza, com perdão do trocadilho. As excelentes criadas (Elaine Morais, Magda Painno, Malena Dayen, Lidia Schäffer, Masami Ganev, Lina Mendes) se agitam em uma verdadeira cena de tensões. Entra Elektra, a dinamarquesa Eva Johansson. Evidentemente, não possui os mesmos recursos vocais de Catherine Foster. Agudos estrangulados, ásperos, incertos; timbre que tende a perder sua cor.

No entanto, essas fraquezas se transformam em força. Acrescentam à fragilidade do personagem. Com um formidável talento teatral, Eva Johansson emprega as falhas de sua voz para criar uma Elektra forte e vulnerável – ou vulnerada – ao mesmo tempo. Ela não canta Elektra apenas, como fizera sua ilustre colega inglesa. Ela é Elektra, encarna Elektra, tem o físico de Elektra, os gestos, a alma, de Elektra. Magnetiza o palco e atrai o olhar como um imã.

A alemã Melanie Diener impõe poderosamente sua Crisótemis. A cena em que menciona seu desejo de ser outra coisa do que uma infeliz Átrida, de ser mãe, cena que, na representação anterior fora recitada corretamente, agora é desesperadora.

Susanne Resmark tem um físico amplo, que contrasta com a magreza da Clitemnestra anterior. É tremenda, poderosa e atormentada. Johmi Steinberg corresponde melhor à figura de Orestes e sua voz se impõe com autoridade.

Strausser dirige com precisão, espírito, energia. A Orquestra Sinfônica Municipal corresponde magnificamente.

Não me importo mais com as limitações da montagem que, de qualquer forma, tem alto nível, apesar de minhas implicâncias. Sou tomado plenamente pela obra, esqueço-me de onde estou.

Em seu aplauso, o público me parece bem mais entusiasta que da primeira vez.

De uma récita a outra, mudou o Natal ou mudei eu? Talvez os dois. Moral da história: quando há uma ópera sendo apresentada, nunca fique em casa.

Adendo de 27/10/2016: Leia abaixo carta de Gustavo de Sá e resposta de Jorge Coli:

Gustavo de Sá: Gostaria de fazer uma pequena correção no artigo de Jorge Coli sobre a montagem atual de Elektra no TMSP, onde ele diz que a última montagem da ópera foi em 1923, no Rio. Na verdade, houve uma encenação mais recente da ópera em 1996, também no Municipal do Rio (incluindo a participação da grande Leonie Rysanek como Clitemnestra!), além de uma execução em concerto pela Osesp alguns anos mais tarde (creio que em 2007).

Jorge Coli: O leitor tem razão.





Jorge Coli - é professor de História da Arte e da Cultura na Unicamp e colunista da Revista CONCERTO.

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