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Projeto Carlos Gomes: um site para o compositor (25/10/2016)
Por Irineu Franco Perpetuo

Na matéria de capa da Revista CONCERTO de outubro, João Luiz Sampaio demonstra o quanto do trabalho de Carlos Gomes ainda é desconhecido, e que “ainda está por surgir um retrato mais sóbrio e menos apaixonado de sua trajetória”. Sampaio destaca ainda a importância, justamente para traçar esse retrato mais objetivo do compositor, do Projeto Carlos Gomes, cujo lançamento aconteceu no Rio de Janeiro, na última sexta-feira, 21 de outubro, com o Colóquio Carlos Gomes 180 Anos, realizado pela Academia Brasileira de Música e Fundação Teatro Municipal do Rio de Janeiro, com apoio do CNPq.

Ocorrido na Sala Mário Tavares do Teatro Municipal, o colóquio foi aberto pelo maestro e musicólogo André Cardoso, presidente da Academia Brasileira de Música, que apresentou o projeto. Ele consiste, basicamente, em um site, contendo o tão aguardado e necessário catálogo de obras de Carlos Gomes, além linha do tempo, imagens, gravações e referências bibliográficas.


Carlos Gomes [Reprodução]

Em seguida, Cardoso foi o moderador de uma mesa com a presença de Lutero Rodrigues, Marcos Virmond e Maria Alice Volpe. Autor do livro Carlos Gomes: um tema em questão, o maestro Lutero Rodrigues abordou a evolução estética do compositor entre as óperas Il Guarany e Fosca. Ele partiu de três textos sobre Fosca: uma crítica de época, de Oscar Guanabarino, que tenta negar o caráter supostamente wagneriano da partitura; o célebre ensaio de Mário de Andrade sobre a ópera, que identifica seus diversos motivos condutores; e a avaliação do italiano Marcello Conati, que julga que a criação de Gomes antecipa La Gioconda, de Ponchielli. Rodrigues vê um notável progresso na linguagem de Carlos Gomes na Fosca ao se afastar do modelo de grand-opéra francesa do Guarany, e chega a uma conclusão original: justamente por esse afastamento, a Fosca acabou saindo como uma ópera mais italiana do que Il Guarany.

Já o musicólogo e professor da USC de Bauru Marcos Virmond ressaltou que a equipe que produziu o site reviu, limpou e depurou o que foi escrito sobre Carlos Gomes, buscando estabelecer a verdade factual. Ele citou como exemplo a passagem do compositor por Lisboa, de volta ao Brasil: diferentemente do que já foi repetido em vários lugares, Gomes não regeu Il Guarany na época, tampouco foi condecorado pelo rei de Portugal.

Em sua fala, Virmond fez um paralelo entre as óperas Lo Schiavo e Morena – essa última, deixada incompleta. Ele demonstrou que, embora Gomes tivesse entrado em derrocada pessoal a partir de 1879, com o fiasco da ópera Maria Tudor, isso em nada diminuiu seu vigor criativo, trabalhado ao mesmo tempo em ambas as partituras. Enquanto Lo Schiavo foi concluída, Morena (uma história de ciganos ambientada na Espanha do século XVI) ficou em extensos rascunhos de três atos, cuja música parece de alguma forma se refletir na ópera final do compositor, Condor.

Já a musicóloga Maria Alice Volpe, da Academia Brasileira de Música, trouxe uma sofisticada reflexão multidisciplinar problematizando o nacionalismo musical no Brasil e a posição de Carlos Gomes dentro dele. Partindo dos conceitos do que seria nacional na literatura e nas artes plásticas brasileiras do século XIX, Volpe afirmou: “Carlos Gomes estabeleceu os primeiros elementos para a construção de convenções musicais nacionalistas que representam uma paisagem localizada e temporalizada, intimamente associada à expressão de sentimentos nacionais”. E o exemplo musical citado foi a Alvorada, da ópera Lo Schiavo, levando o coordenador de música erudita da Funarte Flávio Silva, que estava na plateia, a observar que Villa-Lobos aprendeu a descrever as matas brasileiras com Carlos Gomes – comentário bastante aplaudido.

Volpe coordenou, em seguida, uma segunda mesa, em que Mário Alexandre Dantas Barbosa, da UFRJ, falou dos concertos em comemoração ao passamento de Carlos Gomes em Belém do Pará, na virada do século XIX para o XX. Em seguida, Lenita Waldige Nogueira, da Unicamp e Museu Carlos Gomes de Campinas, fez uma descrição da segunda ópera de Carlos Gomes em português, Joanna de Flandres, mostrando como ela consiste em avanço representativo com relação à anterior, A Noite do Castelo. O colóquio foi encerrado por Maurício Vicente Ferreira Júnior, do Museu Imperial de Petrópolis, que falou da candidatura da Coleção Carlos Gomes (com acervo de oito instituições brasileiras, e também do Teatro alla Scala, de Milão) ao programa Memória do Mundo, da Unesco, equivalente ao título de Patrimônio da Humanidade concedido a obras arquitetônicas. O resultado sai em julho de 2017.

O jornalista Irineu Franco Perpetuo viajou ao Rio de Janeiro a convite da Academia Brasileira de Música.





Irineu Franco Perpetuo - é jornalista, colaborador do jornal Folha de S. Paulo e correspondente no Brasil da revista Ópera Actual (Barcelona).

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