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Theatro Municipal do Rio de Janeiro festeja Carlos Gomes (26/10/2016)
Por Nelson Rubens Kunze

Lo Schiavo (O escravo) é uma das grandes óperas de Carlos Gomes, compositor que em 2016 é lembrado (e finalmente festejado!) pelos 120 anos de morte e 180 anos de nascimento. O título teve sua primeira apresentação no Imperial Theatro D. Pedro II, no Rio de Janeiro, em 1889, portanto um ano depois da abolição da escravatura e apenas algumas poucas semanas antes da proclamação a República. E o contexto político acabou interferindo na criação da obra, fazendo com que o escravo negro africano do século XIX do argumento original elaborado por Alfredo D’Escragnolle Taunay (o Visconde de Taunay) se transformasse em Iberê, índio tamoio escravizado no século XVI. A ópera foi escrita na Itália e teve longa gestação – sua ópera anterior, Maria Tudor, é de 1879. Da atribulada criação de Lo Schiavo ainda consta o desentendimento com o libretista italiano Rodolfo Paravicini, em razão da inclusão na obra de um texto escrito por um amigo milanês de Carlos Gomes para o hino no segundo ato. A querela foi parar na justiça e acabou por inviabilizar a apresentação de Lo Schiavo na Itália.

Lo Schiavo é uma ópera complexa. Longa, de grandes dimensões, com um enredo de temática indígena – confuso e um tanto quanto inverossímil –, com uma estrutura que vem da grand-opéra francesa (o título também inclui um bailado com índios!) e uma linguagem musical italiana com acentos germânicos – esses são alguns dos pontos sensíveis para a percepção contemporânea. Como contraponto, há toda a verve musical do grande mestre, uma orquestração requintada, árias inspiradas e papeis vocais de elevada carga dramática.

Dados esses desafios, é muito feliz a nova montagem do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, que tem direção cênica de Pier Francesco Maestrini e cenografia de Juan Guillermo Nova. A opção pela utilização de cenários virtuais projetados com uma técnica que resulta em imagens naturalistas muito reais (a dupla utilizou o mesmo recurso na montagem da Jupyra, do Municipal de São Paulo, em 2013) logrou vencer o perigo de uma encenação que poderia facilmente resvalar para um folclorismo piegas. A solução de figurinos (Alberto Spiazzi), com os protagonistas indígenas trajando batas, auxilia para uma concepção menos exótica do drama. Eficiente também foi a luz de Fábio Retti, que optou por uma estética na maior parte das vezes sombria. Resta o bailado, resquício do gosto da época, cuja coreografia (João Wlamir) foi bem resolvida e realizada, com a participação solista de Karen Mesquita.

Cena do Ato I da ópera Lo Schiavo [divulgação / Júlia Rónai]

Há cenas de grande beleza, incluindo bonitos efeitos de cachoeiras na floresta. No quarto ato (acampamento dos Tamoios à beira da Baía da Guanabara), uma topografia de falésias com queda d’água é uma bem-vinda mudança após 3 horas de matas e vegetação tropical [nesse sentido, talvez fosse interessante recriar, no segundo ato, algo mais próximo da residência da Condessa de Boissy (por mais absurda que seja a ideia do castelo em Niterói!), ao invés de uma clareira no meio da floresta].

Cena do Ato II da ópera Lo Schiavo [divulgação / Júlia Rónai]

A direção musical coube ao mastro Roberto Duarte, grande especialista em Carlos Gomes e responsável pela revisão e edição da partitura (a ópera foi apresentada em sua versão original, sem cortes). Duarte conduziu o espetáculo com muita propriedade, extraindo um ótimo resultado musical. A orquestra soou sonora e brilhante, em boa performance, exibindo também bonitos e competentes solos – todos conhecemos a inspirada Alvorada, mas Lo Schiavo tem muitos outros lindos trechos musicais. Se houve um problema, foi no equilíbrio da dinâmica entre palco e fosso: no local de onde assisti à ópera – centro da plateia – o encorpado som orquestral por vezes encobriu os cantores. A ópera também reserva papel importantíssimo para o coro, que, fora algumas passagens em que os fortíssimos soaram um pouco descobertos, teve muito boa atuação (preparação Jesús Figueiredo).

Um grande time de solistas brasileiros enfrentou com galhardia a exigente partitura. O bom elenco teve um desempenho bastante equilibrado. Impressionante a força e resistência tanto do Iberê de Rodolfo Giuliani quanto da Ilara de Adriane Queiroz, que fizeram um bonito par. Fernando Portari, o Américo, destacou-se pelo cuidado tímbrico e requintado fraseado de sua interpretação. Já Claudia Azevedo, como Condessa de Boissy, ainda que dona de bonita e clara voz, ficou um pouco aquém do peso que o papel exige. Saulo Javam fez um convincente Conde Rodrigo e Leonardo Páscoa impressionou pela potência vocal.

Este Lo Schiavo, pelo tipo de produção e qualidade de realização, se prestaria muito bem para apresentações em outros palcos brasileiros. Antes da tormenta que se abateu sobre o Municipal paulistano, havia mesmo a ideia de que, em 2017, o título fosse repetido em São Paulo (e a Fosca prevista para dezembro em Sampa fosse à Cidade Maravilhosa). Oxalá os novos ventos paulistanos assumam o espírito colaborativo que tem marcado a gestão de João Guilherme Ripper e André Cardoso no Rio de Janeiro, e possamos levar adiante essa antiquíssima (desde o milênio passado!) demanda de intercâmbios, itinerâncias e coproduções de espetáculos.

[Leia também o texto de Jorge Coli sobre a ópera Lo Schiavo.]

[Clique aqui para ler o texto de Irineu Franco Perpetuo sobre o “Colóquio Carlos Gomes 180 anos”, realização da Academia Brasileira de Música e da Fundação Theatro Municipal do Rio de Janeiro.]

[Recomendo a escuta do programa “Antonio Carlos Gomes, the Brazilian Who Conquered La Scala” (em inglês), que o violonista Fabio Zanon realizou para a rádio BBC3, da Grã Bretanha. Clique aqui para acessar.]

Cena do Ato IV da ópera Lo Schiavo, produção do Theatro Municipal do Rio de Janeiro [divulgação / Júlia Rónai]





Nelson Rubens Kunze - é diretor-editor da Revista CONCERTO

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