Banner 468x60
Banner 180x60
Boa tarde.
Domingo, 22 de Outubro de 2017.
 
E-mail:  Senha:

 

 
Nome

E-mail


 
Saiba como anunciar na Revista e no Site CONCERTO.
   


 

Vitrine Musical 2016 - Clique aqui e veja detalhes dos anunciantes

 
 
 
Theatro Municipal do Rio de Janeiro festeja Carlos Gomes (26/10/2016)
Por Nelson Rubens Kunze

Lo Schiavo (O escravo) é uma das grandes óperas de Carlos Gomes, compositor que em 2016 é lembrado (e finalmente festejado!) pelos 120 anos de morte e 180 anos de nascimento. O título teve sua primeira apresentação no Imperial Theatro D. Pedro II, no Rio de Janeiro, em 1889, portanto um ano depois da abolição da escravatura e apenas algumas poucas semanas antes da proclamação a República. E o contexto político acabou interferindo na criação da obra, fazendo com que o escravo negro africano do século XIX do argumento original elaborado por Alfredo D’Escragnolle Taunay (o Visconde de Taunay) se transformasse em Iberê, índio tamoio escravizado no século XVI. A ópera foi escrita na Itália e teve longa gestação – sua ópera anterior, Maria Tudor, é de 1879. Da atribulada criação de Lo Schiavo ainda consta o desentendimento com o libretista italiano Rodolfo Paravicini, em razão da inclusão na obra de um texto escrito por um amigo milanês de Carlos Gomes para o hino no segundo ato. A querela foi parar na justiça e acabou por inviabilizar a apresentação de Lo Schiavo na Itália.

Lo Schiavo é uma ópera complexa. Longa, de grandes dimensões, com um enredo de temática indígena – confuso e um tanto quanto inverossímil –, com uma estrutura que vem da grand-opéra francesa (o título também inclui um bailado com índios!) e uma linguagem musical italiana com acentos germânicos – esses são alguns dos pontos sensíveis para a percepção contemporânea. Como contraponto, há toda a verve musical do grande mestre, uma orquestração requintada, árias inspiradas e papeis vocais de elevada carga dramática.

Dados esses desafios, é muito feliz a nova montagem do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, que tem direção cênica de Pier Francesco Maestrini e cenografia de Juan Guillermo Nova. A opção pela utilização de cenários virtuais projetados com uma técnica que resulta em imagens naturalistas muito reais (a dupla utilizou o mesmo recurso na montagem da Jupyra, do Municipal de São Paulo, em 2013) logrou vencer o perigo de uma encenação que poderia facilmente resvalar para um folclorismo piegas. A solução de figurinos (Alberto Spiazzi), com os protagonistas indígenas trajando batas, auxilia para uma concepção menos exótica do drama. Eficiente também foi a luz de Fábio Retti, que optou por uma estética na maior parte das vezes sombria. Resta o bailado, resquício do gosto da época, cuja coreografia (João Wlamir) foi bem resolvida e realizada, com a participação solista de Karen Mesquita.

Cena do Ato I da ópera Lo Schiavo [divulgação / Júlia Rónai]

Há cenas de grande beleza, incluindo bonitos efeitos de cachoeiras na floresta. No quarto ato (acampamento dos Tamoios à beira da Baía da Guanabara), uma topografia de falésias com queda d’água é uma bem-vinda mudança após 3 horas de matas e vegetação tropical [nesse sentido, talvez fosse interessante recriar, no segundo ato, algo mais próximo da residência da Condessa de Boissy (por mais absurda que seja a ideia do castelo em Niterói!), ao invés de uma clareira no meio da floresta].

Cena do Ato II da ópera Lo Schiavo [divulgação / Júlia Rónai]

A direção musical coube ao mastro Roberto Duarte, grande especialista em Carlos Gomes e responsável pela revisão e edição da partitura (a ópera foi apresentada em sua versão original, sem cortes). Duarte conduziu o espetáculo com muita propriedade, extraindo um ótimo resultado musical. A orquestra soou sonora e brilhante, em boa performance, exibindo também bonitos e competentes solos – todos conhecemos a inspirada Alvorada, mas Lo Schiavo tem muitos outros lindos trechos musicais. Se houve um problema, foi no equilíbrio da dinâmica entre palco e fosso: no local de onde assisti à ópera – centro da plateia – o encorpado som orquestral por vezes encobriu os cantores. A ópera também reserva papel importantíssimo para o coro, que, fora algumas passagens em que os fortíssimos soaram um pouco descobertos, teve muito boa atuação (preparação Jesús Figueiredo).

Um grande time de solistas brasileiros enfrentou com galhardia a exigente partitura. O bom elenco teve um desempenho bastante equilibrado. Impressionante a força e resistência tanto do Iberê de Rodolfo Giuliani quanto da Ilara de Adriane Queiroz, que fizeram um bonito par. Fernando Portari, o Américo, destacou-se pelo cuidado tímbrico e requintado fraseado de sua interpretação. Já Claudia Azevedo, como Condessa de Boissy, ainda que dona de bonita e clara voz, ficou um pouco aquém do peso que o papel exige. Saulo Javam fez um convincente Conde Rodrigo e Leonardo Páscoa impressionou pela potência vocal.

Este Lo Schiavo, pelo tipo de produção e qualidade de realização, se prestaria muito bem para apresentações em outros palcos brasileiros. Antes da tormenta que se abateu sobre o Municipal paulistano, havia mesmo a ideia de que, em 2017, o título fosse repetido em São Paulo (e a Fosca prevista para dezembro em Sampa fosse à Cidade Maravilhosa). Oxalá os novos ventos paulistanos assumam o espírito colaborativo que tem marcado a gestão de João Guilherme Ripper e André Cardoso no Rio de Janeiro, e possamos levar adiante essa antiquíssima (desde o milênio passado!) demanda de intercâmbios, itinerâncias e coproduções de espetáculos.

[Leia também o texto de Jorge Coli sobre a ópera Lo Schiavo.]

[Clique aqui para ler o texto de Irineu Franco Perpetuo sobre o “Colóquio Carlos Gomes 180 anos”, realização da Academia Brasileira de Música e da Fundação Theatro Municipal do Rio de Janeiro.]

[Recomendo a escuta do programa “Antonio Carlos Gomes, the Brazilian Who Conquered La Scala” (em inglês), que o violonista Fabio Zanon realizou para a rádio BBC3, da Grã Bretanha. Clique aqui para acessar.]

Cena do Ato IV da ópera Lo Schiavo, produção do Theatro Municipal do Rio de Janeiro [divulgação / Júlia Rónai]





Nelson Rubens Kunze - é diretor-editor da Revista CONCERTO

Mais Textos

Primeiras impressões sobre a temporada da Osesp Por João Marcos Coelho (29/9/2017)
“Tosca” tem montagem competente no Rio de Janeiro Por Nelson Rubens Kunze (28/9/2017)
Refinamento e inventividade em “Brazilian Landscapes” Por Camila Frésca (28/9/2017)
Um “Nabucco” problemático no Theatro Municipal de São Paulo Por João Luiz Sampaio (26/9/2017)
Na estreia com a Osesp, Leonardo Hilsdorf encanta a Sala São Paulo Por Irineu Franco Perpetuo (22/9/2017)
Festival de Ópera do Theatro da Paz faz bom “Don Giovanni” Por Nelson Rubens Kunze (19/9/2017)
Penderecki e Szymanowski: uma noite musical maior Por Jorge Coli (18/9/2017)
Novo fôlego para a ópera no RS Por Everton Cardoso (8/9/2017)
Wagner de boa qualidade, mas sem lirismo e vigor dramático Por Jorge Coli (4/9/2017)
Finalmente Dudamel “suja” mãos e batuta com a “política” Por João Marcos Coelho (24/8/2017)
Dobradinha “Pulcinella & Arlecchino” tem boa realização no Theatro São Pedro Por Nelson Rubens Kunze (23/8/2017)
O bel canto colorido e expressivo de Javier Camarena Por Irineu Franco Perpetuo (10/8/2017)
Osesp faz belo concerto com programa raro Por Jorge Coli (9/8/2017)
Terceira edição do Festival Vermelhos consolida projeto cultural em Ilhabela Por Camila Frésca (8/8/2017)
Em busca da música Por João Marcos Coelho (28/7/2017)
Neojiba: o exemplo da Bahia para o Brasil Por Irineu Franco Perpetuo (24/7/2017)
Você conhece José Vieira Brandão? Por João Marcos Coelho (12/7/2017)
Campos do Jordão, Salzburg e a economia da cultura Por Nelson Rubens Kunze (12/7/2017)
Rameau em “dreadlocks” Por Jorge Coli (11/7/2017)
Isabelle Faust, Vadim Repin e Julian Rachlin: sobre expectativas, decepções e boas surpresas Por Camila Frésca (5/7/2017)
Encomenda da Osesp mostra Mehmari maduro Por Irineu Franco Perpetuo (3/7/2017)
Fórum apresenta importantes orientações para “endowments” culturais no Brasil Por Nelson Rubens Kunze (10/6/2017)
Filme “Filhos de Bach” marca por sua sensibilidade e delicadeza Por Nelson Rubens Kunze (9/6/2017)
Transformação social e o futuro da música clássica Por Anahi Ravagnani e Leonardo Martinelli (30/5/2017)
Os extras contemporâneos de Isabelle Faust na Sala São Paulo Por João Marcos Coelho (25/5/2017)
Festival Amazonas de Ópera encena ‘Tannhäuser’ e comemora 20ª edição Por Nelson Rubens Kunze (23/5/2017)
 
Ver todos os textos anteriores
 
<< voltar

 


< Mês Anterior Outubro 2017 Próximo Mês >
D S T Q Q S S
1 2 3 4 5 6 7
8 9 10 11 12 13 14
15 16 17 18 19 20 21
22 23 24 25 26 27 28
29 30 31 1 2 3 4
 

 
São Paulo:

25/10/2017 - Percorso Ensemble

Rio de Janeiro:
26/10/2017 - XXII Bienal de Música Brasileira Contemporânea

Outras Cidades:
23/10/2017 - Curitiba, PR - III Festival de Ópera do Paraná
 




Clássicos Editorial Ltda. © 2017 - Todos os direitos reservados.

Rua João Álvares Soares, 1404
CEP 04609-003 – São Paulo, SP
Tel. (11) 3539-0045 – Fax (11) 3539-0046