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Elliott Carter: As aventuras da composição aos 100 anos de idade (13/12/2008)
Por João Marcos Coelho

Nesta quinta-feira, dia 11 de dezembro, o compositor norte-americano Elliott Carter completa cem anos de idade. E, a julgar por um CD+DVD lançado no último dia 28 de novembro no mercado internacional pela Naxos, ele continua em forma. Numa conversa de 22 minutos com Robert Aitken, flautista e regente do New Music Concerts Ensemble de Toronto, Carter esbanja vitalidade. Diz que começa sempre uma nova composição andando pelas ruas de Manhattan... andando aos 100 anos de idade, imaginem. E olhem que ele tem escrito música em grande quantidade na última década.

Por exemplo, este ótimo CD da Naxos lançado para comemorar o centésimo aniversário de Carter. Dos 63 minutos de música, mais da metade foi composta de 2004 para cá. Ou seja, a partir dos 96 aninhos. Aliás, as duas peças mais importantes são justamente as mais recentes: "Dialogues", de 2004, para piano e 18 instrumentos; e "Mosaic", de 2005, para harpa e sete instrumentos.

"Cada composição é uma nova aventura para mim", diz Carter. "Não penso em estruturas, mas fragmentadamente." Outra frase pinçada da conversa com Aitken: "Escrevo música que propicie prazer aos músicos."

Não pensem, porém, que Carter faz música fácil ou banal. Longe disso. Sua música tem atributos que em definitivo o afastam da tradição musical norte-americana no século 20. Mas, lá pela quinta ou sexta audição, sua música nos revela um aroma original. Dez entre dez compositores contemporâneos raciocinaram e/ou raciocinam entre uma cartilha mais preocupada em comunicar-se com o público (atitude de Adams, Reich, Glass e outros); ou então rezam pela cartilha radical de Boulez, por sua vez originária da revolução serial empreendida por Schoenberg no início do século passado. A música norte-americana contemporânea viveu quase sempre entre o radicalismo de um John Cage, por exemplo, ou o neoclassicismo injetado pela mestra Nadia Boulanger em 300 dos 300 compositores dos EUA que com ela estudaram por meio século.

Pois Carter se dá ao luxo de ser rigoroso sem cair em nenhuma destas armadilhas. Cada obra nova, de fato, é uma nova aventura. "Mosaic", por exemplo, é incrivelmente lírica (mas não tonal, esclareça-se). A harpa dialoga em espelho ou contraste com os demais instrumentos (flauta, oboé, clarineta, violino, viola, violoncelo e contrabaixo). Há lirismo nos fragmentos.

Já "Dialogues", de 2004, opta por uma música mais arisca - talvez devido ao caráter percussivo do piano, que Carter enfatiza. O fato é que vale a pena aventurar-se no universo deste compositor tão firme em suas convicções. Ele estudou com Boulanger, mas tornou-se amigo e parceiro de Pierre Boulez.

Agora, cá entre nós, Carter parece uísque: fica melhor a cada ano que passa. Tem escrito muito nos últimos 20 anos, bem mais do que em períodos anteriores. Mas há muitas outras peças interessantes neste CD recentíssimo da Naxos. "Scrivo in vento", de 1991, para flauta solo, usa um verso do poeta italiano Petrarca, do Trecento. "Figment no. 2 (Remembering Mr. Ives)", de 2001, para violoncelo solo, reutiliza fragmentos da imensa sonata Concord de Charles Ives, "meu grande amigo, cuja música conheço e amo desde 1924".

"GRA" em polonês quer dizer "tocar'. Carter escreveu "GRA" em 1993 para clarineta solo, em tributo aos 80 anos do compositor Witold Lutoslawski.

As execuções do New Music Concerts Ensemble regido por Robert Aitken são excelentes. As duas mais ambiciosas, "Mosaic" e "Dialogues", foram gravadas no mítico estúdio do pianista Glenn Gould, em Toronto, em maio de 2006. Não parece coincidência, portanto, a qualidade da música produzida: quem sabe o espírito de Gould, rigoroso e aventureiro como ele só, tenha baixado em seu estúdio, só para deixar Elliott Carter ainda mais contente. Dá até arrepio assistir à gravação das duas peças no estúdio de Gould no DVD bônus.

Feliz aniversário, Mr. Elliott Carter. E que o senhor continue transformando esta formidável vitalidade em novas obras musicais. Como o senhor mesmo respondeu, dias atrás, a um repórter que lhe disse que parece que as pessoas estão começando a gostar de sua música: "Claro. Afinal, tenho 100 anos. Já era tempo".





João Marcos Coelho - é jornalista e crítico musical, colaborador do jornal O Estado de S. Paulo e apresentador do programa "O que há de novo", da Rádio Cultura FM; é coordenador da área de música contemporânea da CPFL Cultura.

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