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“Fosca”, de Carlos Gomes, ganha enfim uma estupenda apresentação contemporânea (14/12/2016)
Por Jorge Coli

Todos nós temos nossos pecados, e o maestro Eduardo Strausser deve ter lá os dele. Mas sejam quais forem, seu lugar já está reservado no céu dos músicos por sua interpretação da Fosca de Carlos Gomes, última ópera na temporada do Theatro Municipal de São Paulo este ano.

A inteligência musical, o gosto seguro, os matizes cuidados, a atenção aos detalhes, o controle da orquestra, tudo contribuiu para que Strausser revelasse a grandeza e a profundidade dessa música. Estive em duas apresentações, com dois elencos diferentes, nos dias 8 e 10. Na segunda, houve alguns deslizes menores, aqui e ali, por parte de alguns músicos; a primeira foi impecável, e talvez com um mordente mais intenso. O espírito dos espetáculos sempre varia de récita em récita, e isso é verdade em qualquer teatro: às vezes mais intenso, às vezes mais relaxado, às vezes mais animado, outras não. São variações pequenas, mas suficientes para tornar fascinantes cada uma delas.

Isso me faz pensar nos esnobismos daqueles que preferem noites de estreia e elencos com nomes de estrelas. É uma atitude bem comum: tenho ouvido uma expressão que anda circulando entre esse tipo de esnobe: “esquecível”, tradução pernóstica do inglês “forgettable” – tal cantora é esquecível, tal apresentação é esquecível. Alejo Carpentier fulminou contra essas presunções que excluem o prazer de verdadeiramente ouvir, substituindo-o pela sensação superior de julgar e condenar. O que faz um espetáculo permanecer na memória nem sempre é a qualidade alta. Essa memória pode vir de tanta coisa diversa: é o que torna tão apaixonante descobrir maiores e menores. Que tantas vezes não são nem tão maiores, nem tão menores.

Enfim, seja como for, Eduardo Strausser mostrou a que alturas vertiginosas a criação musical de Carlos Gomes pôde atingir.

A montagem, propriamente estupenda, completou a qualidade musical. Stefano Poda intuiu os sentidos mais complexos da obra. Não partiu de nenhum “conceito” arbitrário ou superficial, mas leu a partitura com evidentes respeito e interesse. Poda possui uma poética que lhe é própria, e que projeta as obras num mundo incertamente onírico. Digo incertamente, porque esse onirismo não parece intencional e prévio, mas consequência de suas escolhas cênicas e de seu trabalho muito concreto no palco. Fica numa fronteira entre a coerência das tramas e um mundo mítico.

Sua cenografia estendeu um piso negro e brilhante, que podia evocar as superfícies aquáticas de Veneza. Sobre ele, eram postas e retiradas passarelas, como aquelas que os venezianos enfileiram na Praça São Marcos e em outros lugares nos momentos de “acqua alta” para que se possa atravessar. Paolo, Delia, Gajolo, quando prisioneiros, ficavam encerrados numa espécie de esfera armilar, que pendia como uma gaiola.

No alto, suspensa, enorme plataforma com maquetes de uma Veneza imprecisa, em suas duas faces, uma diurna, outra noturna, subia e descia, levantava e baixava. Sobre as passarelas, na borda da plataforma, sobre as paredes, a inscrição repetida e incontável: “Pax tibi Marce, evangelista meus”, “Que a paz esteja contigo, Marcos, meu evangelista”. É a frase latina que aparece no brasão de Veneza.

Frase de utopia desesperada, diante do que Fosca encerra como visão de mundo. Os românticos assinalaram de modo decisivo a percepção da loucura coletiva e de seus conflitos, e a fatalidade do homem como órfão solitário nesse caos (“Pazza”, louca, diz a multidão para Fosca. “Orfana e sola”, órfã e solitária, declara-se Delia). Em Milão, na segunda metade do século 19, esse romantismo desesperado criou um movimento autointitulado Scapigliatura, descabelamento, do qual Gomes foi próximo. E seu libretista Ghislanzoni levou Fosca a um paroxismo scapigliato e desesperado. O “selvagem” Gomes teceu então sua música do mais intenso expressionismo romântico.

Esses excessos são traduzidos em situações complicadas que ferem o espírito racionalista de hoje. Com as reviravoltas dos sentimentos no personagem central, com os raptos e devoluções sucessivas, com as idas e vindas de Piran a Veneza e vice-versa, Fosca põe à prova o diretor de cena contemporâneo.

Poda não negou nada da história. Ao contrário, foi ao fundo de cada situação no que elas têm de mais essencial. Os figurinos, muito belos e expressivos, eram de uma época imaginária, sideral. Evitavam o pitoresco e adquiriam força simbólica.

Desse modo, explodiram no palco do Municipal as pulsões essenciais de amor e de ódio, de ambição e violência, de crueldade e generosidade. O mundo desencadeou-se como um pesadelo. Violência entre os piratas e os venezianos, violência entre os próprios piratas pelo poder, violência de Fosca com seus sentimentos interiores, imensos, tremendos. Para ela, a paz anunciada a São Marcos só podia ser a da morte.

Era a própria violência que estava posta em cena, não os episódios. Os prisioneiros dos piratas, e os prisioneiros dos venezianos se equivaliam, mostrando-se objetos da mesma crueldade. Nus e martirizados, eles formaram uma humanidade de mártires, e se regruparam magnificamente em conjuntos que a iluminação transfigurava. Remetiam à grande pintura e escultura épica do romantismo: Géricault, Carpeaux, Rodin.

Houve uma alteração no final de uma récita para outra. Chiara Taigi, a protagonista do segundo elenco, recusou-se a mostrar os seios; Nadja Michael não se incomodou com isso. Não foi um detalhe. Nem a intenção era erótica, bem ao contrário. A nudez, sobre a qual escorria uma tinta muito escura, evocando o sangue e todo o peso do desespero de Fosca, expunha, frágil e vítima, o personagem na conclusão de sua trajetória. É humano e compreensível o pudor de Chiara Taigi, mas não o é do ponto de vista da obra e de sua encenação.

Os intérpretes estiveram à altura da execução musical e cênica. A começar por Nadja Michael, soprano de estatura internacional, presente em todos os grandes teatros do mundo. Ela já cantara aqui uma Salomé de grande qualidade. Sua Fosca mostrou a voz potente, os graves arrebatadores, os agudos implacáveis: foi prodigioso. Chiara Taigi possui recursos vocais menores, mas era belo vê-la, guerreira, lutando com as dificuldades do papel. Sung Kiu Park, o Paolo Giotta do segundo elenco, possui belo timbre, sem arestas, facilidade evidente apesar de um vibrato que as vezes tenta fugir ao controle. Não tem exatamente o physique du role, mas compensou por uma postura nobre e hierática. Ao contrário, Thiago Arancam, no primeiro elenco, é jovem e tem encanto pessoal. Resta saber se sua voz é adequada ao papel. Era evidente seu esforço para ampliar o volume e para afirmar os agudos. Ao lado de uma Fosca leonina, com voz de bronze, ele parecia um carneirinho a ser estraçalhado com duas patadas.

Ambas as Delias, Lina Mendes e Masami Ganev, angelicais e líricas, fizeram belo contraposto à selvajaria de Fosca. Marco Vratogna compôs um Cambro mefistofélico, diferente de Leonardo Neiva, que fez do personagem um ser mais vulnerável. Nos dois dias, Luiz-Ottavio Faria deu a Gajolo um caráter monumental e magnífico. Assinalo ainda a participação do violista Alexandre de León, que tocou o prelúdio do último quadro no palco, como um personagem puramente musical. Tive a impressão que aquela música triste desenhava sonoramente o cenário do penhasco desértico e solitário.

Fosca desse modo encontrou uma estupenda apresentação contemporânea, digna da grande obra que é. E aqui fica uma observação melancólica, que vale também para Lo Schiavo. Se essas duas produções fossem apresentadas em teatros europeus, com a qualidade tão grande que atingiram, cênica e musicalmente, e sendo elas muito raras, teriam sem dúvida sido filmadas profissionalmente e distribuídas em DVD. Estou seguro de que o custo dessas filmagens, em comparação com os orçamentos do espetáculo, não deva constituir um peso considerável. Em compensação, teriam um efeito enorme sobre a divulgação de Carlos Gomes no mundo. Ninguém fez isso. Mas quem sabe algum teatro estrangeiro não levará essas excelentes produções para o exterior. Quem sabe, então, esses filmes serão feitos. Quem sabe...





Jorge Coli - é professor de História da Arte e da Cultura na Unicamp e colunista da Revista CONCERTO.

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