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Em Porto Alegre, uma “Carmina Burana” para lembrar (15/12/2016)
Por Everton Cardoso

A arte é um exercício de resistência. Primeiro, porque fazê-la, em suas mais diversas formas, é complexo e exige investimento. Além disso, demanda que o sujeito artista tenha independência e ao mesmo tempo suporte suficientes para que suas escolhas sejam fundamentalmente estéticas. É nesse sentido que é um ato de heroísmo o que fizeram a Orquestra Sinfônica de Porto Alegre (Ospa) e a Cia. Municipal de Dança na capital gaúcha neste mês de dezembro: levaram ao palco do Auditório Araújo Vianna uma monumental montagem da cantata cênica Carmina Burana, composta por Carl Orff. Isso se torna ainda mais significativo num momento tão crítico para a cultura brasileira e sul-riograndense – o governo estadual, por exemplo, anunciou que a Secretaria Estadual da Cultura vai incorporar as pastas de Turismo e Esporte. Nesse sentido, juntar mais de 220 pessoas no palco, entre conjunto orquestral, coro sinfônico, coro infantil, dançarinos e cantores solistas, é algo para ficar na memória da cidade e de quem teve a oportunidade de estar lá.

A participação da Cia. Municipal de Dança merece destaque: ainda há incertezas no que se refere à continuidade do trabalho do conjunto em 2017, apesar de sua importante atuação tanto na montagem de espetáculos quanto na formação de bailarinos na cidade. Nesse sentido, ganha amplitude o trabalho deles nesta produção. A coreografia de Ivan Motta, na maior parte do tempo, foge dos lugares comuns narrativos ou mais figurativos; ampara-se em movimentos corporais abstratos – mas de impacto – que acompanham de forma bastante harmônica a movimentação musical. Oscilando entre momentos dramáticos, delicados, jocosos ou triunfantes, a dança corresponde às variações propostas pelo compositor e que a orquestração e o canto enfatizam muito bem. Foi, portanto, uma performance de qualidade – exceto por uns raros e quase imperceptíveis momentos de desarmonia grupal e por algumas imprecisões de passos pelos dançarinos.

Os figurinos de Antônio Rabadan seguiram a mesma linha da concepção coreográfica: eram sintéticos e serviam bem à movimentação; inclusive, davam mais leveza e amplitude ao bailar. Restou-me apenas uma pergunta – não exatamente no sentido de uma crítica, mas de indagação mesmo: por que, sendo o vestuário do corpo de baile tão contemporâneo, manter uma linguagem arraigada no gênero, com homens de calça e mulheres de vestido?

A escolha de peças em tom cinza claro sobrepostas a outras de renda vermelha para todos, no entanto, foi bastante acertada. Dava conta das camadas de personalidades com as quais nos movemos pelo mundo e por meio das quais nos relacionamos com a humanidade: há uma diferença significativa entre o que temos no cerne e como nos apresentamos na superfície. Aliás, estes sentidos aparecem em vários momentos, quando dançarinos e solistas se despem da cobertura e ficam apenas com as peças vermelhas, isso tudo mais ao final da obra. Esse movimento, inclusive, enfatiza um sentido “de fora para dentro” que Carl Orff propõe em sua composição: inicia tratando daquilo que, no mundo, escapa ao nosso controle – a sorte e a primavera –, depois passa pela socialização – a taberna – e chega às relações humanas – o amor.

Um telão, ao fundo, tinha projeções em movimento praticamente o tempo todo. Alternavam-se imagens que faziam referências à roda da fortuna – ideia presente no movimento que abre e encerra a peça –, elementos da natureza e algumas formas geométricas. Destoava do conjunto e, em muitos momentos, chegou a ofuscar a dança. Isso se acentuou ainda mais com a escolha de uma iluminação excessivamente dinâmica e que parecia ter vida própria. Não há nada de ruim no uso de elementos de cena em movimento; mas são os bailarinos que têm de ganhar relevo, ainda mais para valorizar uma boa coreografia como esta. Menos luminosidade, menos alternância de imagens, menos movimento talvez tivessem sido opções mais acertadas. Isso tudo porque há, na ação do corpo, uma beleza que lhe é única e que pode reforçar o aspecto humano presente na cantata, sobretudo na alternância entre o que nos é essencial, apesar de nossa transitoriedade.

Sob a regência do maestro Evandro Matté, instrumentistas e cantores executaram a peça de Orff com competência – ainda que em algumas poucas ocasiões o canto do coro perdesse um pouco de sua força. O tenor Flávio Leite, no inusitado papel de um cisne assado que canta sobre si mesmo, conseguiu interpretar muito bem o tom engraçado do movimento musical. A coreografia feita pelos bailarinos atrás dele, inclusive, serve muito bem para reforçar esse caráter. Também a soprano Gabriella Pace e o barítono Homero Velho fizeram ótimas apresentações, com destaque para a parte final da obra: transcenderam o canto e atuaram de forma convincente, dando o tom romântico que o trecho demanda. Ver este trio de nomes importantes da cena lírica nacional por aqui é um privilégio.

Não resta a menor dúvida de que este é um ótimo produto de cooperação entre importantes instituições públicas locais e artistas. Foi, por isso, um deleite para os porto-alegrenses. Quantas são as oportunidades de vermos um belo espetáculo de dança executado em conjunto com orquestra e coro na cidade? Tomara que, em 2017, Carmina Burana volte aos palcos; oxalá, também, a ópera Don Pasquale, apresentada em agosto deste ano, tenha novas apresentações; esperamos, ainda, que haja montagens de novas obras. Ganhamos nós, público que tem lotado as plateias; ganham os artistas; ganha a cultura. E tomara que possamos seguir vendo a Cia. Municipal de Dança em ação e em sua plenitude. Com apenas dois anos de existência e um repertório que já inclui cinco espetáculos, o grupo já mantém cinco escolas de formação para crianças na cidade e mais um elenco estável jovem, que neste ano montou seu primeiro espetáculo. E tudo isso mesmo tendo seus salários atrasados há meses.

Ainda, apesar do grande mérito da montagem de Carmina Burana encabeçada pela Ospa, resta a certeza de que o Araújo Vianna, nosso maior espaço para apresentações, não esteve à altura do espetáculo: tem uma acústica inadequada, o que obriga orquestra, coro e solistas a usar microfones. A música, assim, fica mais agressiva aos ouvidos, com nuances menos sutis e com um chiado constante. Em tempo: o Theatro São Pedro, localizado na parte central de Porto Alegre e inaugurado em 1858, historicamente recebia espetáculos como este, mas isso se tornou inviável desde a obra de restauro executada nos anos 1970. Na época, uma parede não estrutural foi posta no fosso onde ficam os músicos. Até quando esperaremos para ver, de novo, montagens cênico-musicais com orquestra na mais bonita e mais acusticamente adequada casa da capital gaúcha?





Everton Cardoso - é jornalista, pesquisador e professor universitário. Atua como crítico de ópera no programa Nota Musical, da Rádio da Universidade (UFRGS, Porto Alegre - RS)

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