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Um retrato do Painel Funarte de Ensino Coletivo (19/12/2016)
Por Camila Frésca

Fala-se muito dos projetos de inclusão social por meio da música (ainda que pouco se estude o quanto eles alteraram o perfil da música clássica no Brasil). Um aspecto central e comum a todos é o uso do ensino coletivo de instrumentos. Discutir as diferentes aplicações e resultados dessa pedagogia foi o foco do Painel Funarte de Ensino Coletivo, que aconteceu entre os dias 6 a 8 de dezembro no Rio de Janeiro. Organizado pelo Centro de Música da Funarte, o evento teve coordenação de Simone dos Santos, ao lado de Flávio Silva, coordenador de música erudita da Funarte.


Flávio Silva, Renata e Marcelo Jaffé durante o debate [Divulgação]

Durante três dias, uma série de palestras, aulas práticas e debates reuniu especialistas de norte a sul do país. A primeira mesa lembrou o projeto de educação musical que Alberto Jaffé implantou no Ceará. Seus filhos Renata e Marcelo Jaffé rememoraram o legado do pai. Na década de 1970, o professor e violinista Alberto Jaffé desenvolveu uma metodologia de ensino própria que é até hoje aplicada por sua filha e por escolas norte-americanas. Em 1977, com apoio da Funarte, foi criado em Fortaleza o Projeto Espiral, que se expandiu com a implantação de núcleos em Belém, Natal, João Pessoa, Recife, Brasília, Rio de Janeiro, Florianópolis e Porto Alegre. Renata e Marcelo destacaram que não havia uma preocupação social no projeto de Jaffé, mas sim a de suprir a falta de músicos para as orquestras e, num segundo momento, criar mais orquestras. Flávio Silva resgatou no Arquivo Nacional vídeos raros que mostram Jaffé em atuação à época.

Benefícios que vão muito além do econômico

Se o motivo inicial de se implantar o ensino coletivo nos projetos foi o econômico – dar aulas para vários alunos de uma vez só é evidentemente mais barato do que implantar aulas individuais a centenas de crianças e jovens – os benefícios vão muito além, como ficou patente durante o painel. Visto com desconfiança no início, o ensino coletivo é hoje reconhecido como uma das formas mais eficazes de iniciação musical, mesmo em contextos alheios aos projetos sociais. A experiência coletiva, para uma criança, é mais lúdica e proveitosa do que passar horas estudando sozinha. Além disso, é mais fácil de se obter os primeiros resultados tocando junto aos colegas.

Estiveram presentes no Painel da Funarte representantes pedagógicos do Instituto Baccarelli, da Orquestra Criança Cidadã, do grupo carioca Grota do Surucucu, do Neojibá e da Camerata Laranjeiras, entre outros. A violinista Carla Rincón fez um discurso politizado e engajado e mostrou seu trabalho com o grupo Bem me quer Paquetá. Glória Caputo, da Fundação Amazônica de Música, mostrou os surpreendentes resultados de seu trabalho na palestra “A orquestra e o social”. Flávia Cruvinel, da Universidade Federal de Goiás, falou sobre ensino coletivo e transformação social; Enaldo Oliveira, da Federal Tecnológica do Paraná, fez um histórico do ensino coletivo. A violinista Liu Man Ying falou sobre “Metodologias de ensino coletivo de cordas friccionadas no Brasil e as diretrizes para a construção de um possível currículo brasileiro”. Também esteve presente Shinobu Saito, da Suzuki Association, que falou das possibilidades e limites do método Suzuki – que, a despeito de não ser a rigor um método de ensino coletivo, é ao que parece o mais utilizado nos diferentes projetos ali presentes. Houve ainda outros palestrantes e participantes, e um dos elementos mais interessantes da estrutura do Painel Funarte foi a organização de diversas aulas práticas, demonstrando como o ensino coletivo é aplicado nos diferentes projetos.

Ficou evidente que área de ensino coletivo no Brasil cresceu muito nas últimas décadas e conta com especialistas bem preparados e que já dialogam entre si em encontros específicos. A Funarte, ao abrir mais um espaço para esse diálogo, coloca-o ao alcance de um público mais amplo e contribui para o enriquecimento do debate. Foi um encontro ótimo para se informar sobre o andamento e os resultados (desiguais) de muitos dos projetos que estão espalhados por este enorme Brasil, e dos quais muitas vezes temos notícia, mas poucos detalhes sabemos sobre seu funcionamento e resultados.





Camila Frésca - é jornalista e doutoranda em musicologia pela ECA-USP. É autora do livro "Uma extraordinária revelação de arte: Flausino Vale e o violino brasileiro" (Annablume, 2010).

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