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Feliz Ano Novo? (23/12/2016)
Por Nelson Rubens Kunze

Uma disputa política associada a uma visão populista tosca derrubou a Oficina de Música de Curitiba. Não é qualquer festival! A Oficina acontece ininterruptamente há 35 anos e mesmo antes dela, entre 1965 e 1977, a cidade de Curitiba abrigava, neste mesmo período de janeiro, os históricos Cursos Internacionais de Música do Paraná. É mais de meio século de investimento no ensino musical, é mais de meio século de uma contribuição fundamental e determinante não só para a difusão da arte, mas sobretudo para a formação musical.

Sim, pois até nisso o prefeito eleito Rafael Greca, responsável pelo cancelamento da Oficina, foi desastrado. Como se sabe, Greca, defendendo o investimento em saúde, afirmou que “temos de escolher entre a dor do povo e o prazer de fazer música”. A Oficina não é apenas “o prazer de fazer música”. A Oficina tem um grande diferencial, que é a sua absoluta prioridade ao ensino. A Oficina é corresponsável pela formação de gerações de músicos. A sua vocação pedagógica está no próprio nome, “oficina”, que remete a um espaço de trabalho e de aprendizagem. Ao fazer a comparação demagógica do investimento em música com o investimento em saúde, Greca, por tabela, despreza a educação.


Concerto de encerramento da Oficina de Música de Curitiba [Divulgação / Alice Rodrigues]

Mas o mais aviltante na história – e o que realmente evidencia o falso dilema “cultura versus saúde” e a perversidade da postura do prefeito eleito – é a análise cristalina apresentada por Sandro Moser no jornal “Gazeta do Povo”. Ali se lê o seguinte: “De acordo com dados da SMS, o custo diário do SUS Curitiba, incluindo gasto com pessoal e equipamentos, é de R$ 4,3 milhões. Assim, o valor total da Oficina de Música (R$ 1,7 milhões) corresponderia a nove horas e meia de atendimento de saúde na cidade. O valor que a prefeitura teria de efetivamente que depositar para realizar o evento (R$ 900 mil) equivaleria a cinco horas de atendimento no SUS Curitiba”. Ora, será mesmo que a Oficina de Música – que impacta ao longo de todo mês de janeiro dezenas de milhares de pessoas – terá de ser sacrificada para cobrir cinco horas de atendimento do SUS Curitiba?

Mas, infelizmente, Curitiba não é um fato isolado. Parece que a crise econômica serviu de pretexto para abrir o saco de maldades em diversas regiões do país.

No estado de São Paulo, o governo ameaça seriamente o modelo das Organizações Sociais (OSs), um investimento de duas décadas que transformou a área de cultura paulista num exemplo na América Latina. Sucessivos cortes nos repasses acordados com as OSs comprometem o funcionamento dos órgãos culturais. Veja as ameaças de extinção que enfrentam a Banda Sinfônica e a Jazz Sinfônica do Estado. O que resta à OS Instituto Pensarte, como gestora do equipamento, se a previsão de repasse governamental é de R$ 22,4 milhões para o ano de 2017, quando o mesmo equipamento contou com uma dotação de R$ 34,2 milhões em 2014?

As OSs do estado de São Paulo são vítimas de uma política míope do governo do Estado, que colocou a cultura bem longe de qualquer prioridade. E as provas estão em dados oficiais: o orçamento estadual, que em 2014 reservava já míseros 0,57% à pasta da cultura (R$ 929 milhões), reduziu a dotação para 0,40% (R$ 826 milhões) em 2016. E para 2017, a lei orçamentária enviada para o legislativo destina ainda menos, 0,37% (R$ 762 milhões)! Estamos assistindo a uma queda livre do porcentual da Cultura no orçamento global do governo.

Mas, pelo menos em São Paulo, abre-se uma brecha de esperança. Após intensa mobilização da comunidade musical, a Assembleia Legislativa aprovou uma emenda no orçamento que prevê um repasse de R$ 5 milhões para a Banda Sinfônica. E o governador Geraldo Alckmin pessoalmente teria garantido a manutenção da Orquestra Jazz Sinfônica.

E em Curitiba? Bem, em Curitiba, salvo algum “deus ex machina” inesperado (quem sabe o espírito natalino não ilumine o prefeito eleito e ele, num rompante tipo salvador da pátria, volte atrás em sua malfadada decisão?), o ano começará triste e sem música... O cancelamento da Oficina, além de ato obscurantista, é uma ofensa ao bom senso. É a arrogância populista e demagógica atropelando a sensibilidade humana.

Mas perseveremos! E seguiremos defendendo a cultura e a educação com o mesmo ímpeto com o qual defendemos a saúde pública.

Feliz Ano Novo para todos!

(p.s. Eu mesmo fui aluno das primeiras edições da Oficina de Música de Curitiba. Em um ambiente de alta concentração pedagógica, travei contato com mestres e músicos que marcaram a minha formação. E foi em razão da Oficina de Música de Curitiba que mudei o rumo da minha vida, decidindo-me pela música.)





Nelson Rubens Kunze - é diretor-editor da Revista CONCERTO

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