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Sarau e livro recuperam a obra do violinista catarinense Adolpho Mello (23/1/2017)
Por Camila Frésca

Um dos últimos concertos a que assisti em 2016 foi uma feliz descoberta. No dia 11 de dezembro, o Museu Histórico de Santa Catarina, no centro de Florianópolis, apresentou o “Sarau Adolpho Mello”. Foi um momento importante de recuperação do legado do compositor e violinista catarinense Adolpho Ferreira de Mello (1861-1926). Adolpho Mello nasceu em São José da Terra Firme (atual São José), que hoje integra a região metropolitana de Florianópolis. Pouco se sabe sobre sua formação musical, mas ficaram os registros das turnês e apresentações que ele empreendia pelas cidades catarinenses, tocando suas composições e arrancando elogios por suas interpretações. Ficaram também os manuscritos de suas obras, majoritariamente escritas para violino e piano, e um livro editado em 1901: Pequena arte da expressão do violino ou nuanças que fazem a beleza da execução.

A ocasião marcou também o lançamento do livro Adolpho Mello, Legado Catarinense [capa à esquerda] escrito por Mônica Cristina Corrêa e idealizado pela sobrinha-bisneta do artista, Sandra Ferreira de Mello, que há mais de dez anos buscava meios de editar a obra. O livro reuniu dados biográficos e iconográficos, bem como obras de Mello editadas por André de Moura, professor da Udesc. Algumas dessas peças formaram o repertório da noite, interpretadas pelo pianista Pablo Rossi e seu irmão, o ótimo violinista Juan Rossi.

Fiquei surpresa com a qualidade musical e o conhecimento sobre os aspectos técnicos do violino presentes na obra de Adolpho Mello. O evento e o livro foram um primeiro esforço no sentido de investigar mais a fundo a trajetória e a obra desse artista catarinense. Ficou claro, no entanto, que a obra de Adolpho Mello vem se somar a uma rede de instrumentistas que teve uma relevante atuação entre o final do século XIX e a primeira metade do século XX. Ela se encaixa, mais especificamente, numa categoria específica, que foi muito popular na Europa ao longo do século XIX e que teve representantes respeitáveis por aqui também: a dos instrumentistas compositores, violinistas virtuoses que compunham quase que exclusivamente para seu instrumento, e cuja obra nasce diretamente de sua relação prática com o violino. Todos eles possuíam suas ambições estéticas, é verdade. Mas, por outro lado, atuavam também para atender à grande demanda por música de salão, que ficava entre os exageros virtuosísticos dos profissionais e a música possível de se executar por amadores; entre a seriedade da música de concerto e a ligeireza das reuniões sociais.

Se estes músicos compuseram dentro de um âmbito restrito – escreveram obras para violino solo, violino e piano e peças do gênero –, o alcance de sua atuação não pode ser menosprezado. Foram artistas que se tornaram figuras-chave nos ambientes nos quais circularam, já que não apenas trabalharam na composição como também deram aulas, escreveram sobre música e produziram obras didáticas, nas quais demonstraram seu sólido conhecimento da literatura violinística. Dessa forma, foram fundamentais para o desenvolvimento musical das comunidades em que viveram, seja atualizando e difundindo conhecimento, seja incrementando o repertório para seu instrumento.

Juan e Pablo Rossi (segundo e quarto da esq. para a dir., respectivamente) posam entre os organizadores do “Sarau Adolpho Mello” em frente ao violino que pertenceu ao compositor [Foto: divulgação]

Juan e Pablo Rossi se preparam agora para gravar um disco com as peças de Adolpho Mello, o que aumentará significativamente o poder de disseminação de sua obra. Clique neste link para ir ao vídeo com a íntegra da apresentação do dia 11 de dezembro. Quem não puder assistir todo o recital, recomendo correr aos 30’ para conferir uma das peças do compositor, Rapsódia
 





Camila Frésca - é jornalista e doutoranda em musicologia pela ECA-USP. É autora do livro "Uma extraordinária revelação de arte: Flausino Vale e o violino brasileiro" (Annablume, 2010).

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