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Ópera do século XVII, espetáculo contemporâneo (15/12/2008)
Por Nelson Rubens Kunze

O Teatro Municipal de São Paulo inaugurou em setembro passado a sua nova Central de Produção, que leva o nome de um dos importantes cenotécnicos que já trabalharam na casa, o falecido Chico Giacchieri. Segundo o maestro Jamil Maluf, diretor artístico da casa e principal responsável pela concretização da idéia, é a central de produção que possibilitará o aumento e diversificação dos títulos apresentados no teatro (segundo Jamil, já foi a central que viabilizou a rica temporada lírica deste ano, com 9 títulos entre remontagens e encenações originais).

Para marcar a inauguração da Central de Produção Chico Giacchieri, o Teatro Municipal produziu, ali mesmo, em um de seus amplos galpões, uma encenação de Dido e Enéas, ópera de Henry Purcell. O espetáculo, reprisado em 3 récitas no início de dezembro, foi apresentado por uma camerata barroca formada basicamente por músicos da Orquestra Experimental de Repertório, o Coral Paulistano e pelo Teatro da Vertigem, grupo premiado por sua originalidade em encenar peças em espaços inusitados, como hospitais, igrejas e presídios, incorporando essa circunstância em sua proposta artística. A direção cênica coube a Antônio Araújo, diretor do Teatro da Vertigem, que teve assim a sua primeira experiência com ópera. Segundo Araújo, no entanto, a concepção cênica da montagem tem relação direta com a de outros espetáculos do grupo: "Como nas peças que fizemos em hospitais ou presídios, nossa intenção é estabelecer um diálogo entre a história que estamos contando e o espaço da apresentação". Tiago Pinheiro, que é o regente titular do Coral Paulistano, respondeu pela direção musical e pela regência, e os solistas foram Luisa Francesconi (Dido), Leonardo Neiva (Enéas), Rosemeire Moreira (Belinda) e Silvia Tessuto (como a feiticeira).

Única ópera do compositor Henry Purcell (1658-1695), Dido e Enéas foi também a primeira obra do gênero escrita na Inglaterra. Conforme o material de divulgação, "a ópera estreou em 1689, em uma representação privada feita por alunas da Boarding School for Girls, em Chelsea. Sua primeira apresentação profissional aconteceu após a morte de Purcell, em 1700, no Lincoln Inn's Field Theatre, em Londres. O libreto foi escrito pelo poeta inglês Nahum Tate (1652-1715) com base na Eneida, poema épico do romano Virgílio (70-19 a.C.) que narra os acontecimentos anteriores à fundação da cidade de Roma."

Foi excelente e emocionante a nova encenação de Dido e Enéas produzida na Central de Produção do Teatro Municipal, sem dúvida um dos pontos altos da temporada musical do ano. Afastado de seu contexto original, o drama ganhou uma nova e rica dimensão interpretativa, aproximando-o de maneira muito feliz do dia a dia do mundo contemporâneo. Isso em nada comprometeu o rigor da interpretação musical, conduzida com muita competência por Tiago Pinheiro e feita de acordo com o estilo e práticas da época, inclusive com a utilização do cravo e chitarrone.

Fundamental para o sucesso da montagem, foi o ótimo rendimento vocal dos quatro solistas principais. Apoiados pela direção de cena, cada um deles pode desenvolver com muita propriedade o seu papel, criando momentos eletrizantes. Marcante foi a aparição da feiticeira no início do segundo ato, caminhando para o centro da cena durante o prelúdio; ou a famosa lamentação de Dido, em interpretação tocante de Luisa Francesconi. Esse Dido e Enéas é daqueles espetáculos que a gente quer recomendar para todo mundo.





Nelson Rubens Kunze - é diretor-editor da Revista CONCERTO

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