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Um Brasil diferente ainda é possível (22/2/2017)
Por João Marcos Coelho

Comecei a pensar com mais frequência em Darcy Ribeiro (1922-1997) neste início de 2017. Quando explodiram as revoltas e massacres nas prisões em vários Estados, o nome dele voltou a ser citado nos jornais e nas redes sociais. Principalmente sua frase definitiva, pronunciada em 1982, numa conferência: “Se os governantes não construírem escolas, em 20 anos faltará dinheiro para construir presídios”.

Já sabemos todos que não se fizeram escolas. E que as prisões brasileiras são piores do que qualquer masmorra medieval.

Pensei até numa frase de caráter semelhante, só que relacionada à música. O desmanche que se vem materializando em torno dos principais projetos e instituições musicais no Estado de São Paulo é algo nunca visto. E, na medida em que estes forem sendo sufocados, perdem sentido projetos de formação musical – os de inclusão social pela música, como está na moda. Formar músicos para quê? Para engrossar o bloco dos desempregados?

Falta hoje aos governantes brasileiros em todos os níveis – municipais, estaduais e federal – a chama de um Darcy Ribeiro, independente de ideologias à direita ou à esquerda. Indignado, peguei de novo um livrinho que me impactou muito quando foi lançado, a propósito dos 10 anos da morte dele. Eric Nepomuceno, jornalista e escritor que foi seu amigo de todas as horas nos últimos anos, escreve no prefácio de um livro maravilhoso, “Testemunho” (Ed. Apicuri/UnB, 2009): “Darcy Ribeiro foi um homem de seu tempo e um intelectual de permanência. Havia nele, acima de tudo, o compromisso ético de mudar a sociedade, tornar realidade o outro mundo que sabia possível, contribuir para nos transformar no que poderíamos e deveríamos ser, e para que não continuássemos a ser o que fizeram (ou que deixamos que fizessem) de nós”. Em 1961 pôs de pé um de seus sonhos: a Universidade de Brasília. Ele quis “plantar na cidade-capital a sede da consciência crítica brasileira que para lá convocasse todo o saber humano e todo o elã revolucionário, para a única missão que realmente importa ao intelectual dos povos que fracassaram na história: a de expressar suas potencialidades por uma civilização própria”.


Darcy Ribeiro (1922-1997) [Reprodução] 

Todo cidadão deveria ter este “compromisso ético”, esta vontade irreprimível de tornar realidade um outro mundo que sabemos possível. Este Darcy da chama utópica impossível de ser vergada nos ensina ainda hoje, vinte anos depois de sua morte – ele se foi em 17 de fevereiro de 1997 –, que somos um país latino-americano, que a América Latina é nosso chão. Não deveríamos papaguear tanto os cânones europeus e norte-americanos.

Darcy estudou antropologia na Escola de Sociologia e Política, ali na Vila Buarque, no centro de São Paulo. Teve como parceiro de escola Florestan Fernandes. E diz, com todas as letras, que o Gilberto Freyre de Casa Grande e Senzala foi o único intelectual brasileiro que “de fato me empolgou. Sendo o Brasil um país de paixões intelectuais desenfreadas – em que cada pensador se agarra cedo a um teórico da moda e a ele tanto se apega que converte em servidão a sua atividade criadora – foi muito bom para mim deparar com alguém com tal rechaço a pais teóricos. O que a maioria dos cientistas e dos ensaístas brasileiros faz é, no máximo, ilustrar com exemplos locais a genialidade das teses de seus mestres”.

Freyre, como Darcy, foi um dos grandes intelectuais brasileiros, na expressão do antropólogo, a prosseguirem “no esforço coletivo de ir construindo, geração após geração, cada qual como pode, o edifício do autoconhecimento nacional”.

Custamos a aprender – e a maioria se recusa a isso – a maior lição de Darcy Ribeiro. Nossa prioridade é atentar para o país e para a América Latina, onde ele se insere.

Uma derradeira dica de quem passou a vida inteira embrenhado nos confins do país e do continente. Dica sobre a qual os nossos governantes deveriam meditar. Sei lá, de repente baixa uma autocrítica neles, nunca se sabe. Se o que temos é o espaço para escrever, então faço a minha parte. Busco seguir mestre Darcy Ribeiro nesta colocação maravilhosamente atual:

“Às vezes é útil, ainda que seja sempre perigoso, falar de cultura popular e cultura erudita. Gosto de pensar que essas são as duas asas da cultura que, sem vigor em ambas, não voa belamente. É preciso reconhecer que uma não é melhor nem pior, superior ou inferior à outra. São apenas diferentes e, porque distintas, se intercambiam, abeberando-se reciprocamente”.

Na sequência, arremata: “Política cultural não pode ser mais do que o estímulo generoso do Estado para que a criatividade popular e a erudita floresçam, sem nelas jamais interferir”.

Mais do que sonhar, é preciso aprender com Darcy Ribeiro que um Brasil diferente é possível.





João Marcos Coelho - é jornalista e crítico musical, colaborador do jornal O Estado de S. Paulo e apresentador do programa "O que há de novo", da Rádio Cultura FM; é coordenador da área de música contemporânea da CPFL Cultura.

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