Banner 180x60
Boa tarde.
Sexta-Feira, 17 de Novembro de 2017.
 
E-mail:  Senha:

 

 
Nome

E-mail


 
Saiba como anunciar na Revista e no Site CONCERTO.
   


 

Vitrine Musical 2016 - Clique aqui e veja detalhes dos anunciantes

 
 
 
O valor da música (e a responsabilidade do Estado) (5/3/2017)
Por Nelson Rubens Kunze

O meio musical clássico brasileiro sofreu severos cortes financeiros nos últimos meses. Entre os principais afetados, ganharam notícia o cancelamento da Oficina de Música de Curitiba e o fim da Orquestra Sinfônica de São José dos Campos. A mais recente vítima foi a Banda Sinfônica do Estado de São Paulo, grupo mantido pelo poder público que, após mais de 25 anos de atividades ininterruptas, foi sumariamente extinto.

Em São Paulo, o governo vem sistematicamente reduzindo o percentual do repasse destinado à cultura. Os dados estão no site da transparência da secretaria de Cultura e são claros: em 2010, primeiro ano disponível para consulta, o índice do percentual previsto para a cultura, em relação ao orçamento governamental total, era de 0,71% – ou seja, de cada R$ 100 reais do orçamento, R$ 0,71 (setenta e um centavos) eram destinados à cultura. O que já era pouco, só fez diminuir: no ano passado, esse mesmo índice caiu para 0,4%. E parece que ainda não chegamos ao fundo do poço, já que, para 2017, o governo aprovou um inacreditável repasse de apenas 0,37% do orçamento. Tudo somado e subtraído, isso significa que, em 2017, a secretaria de Cultura terá de trabalhar com praticamente metade dos recursos de que dispunha há apenas sete anos (e pode ser ainda pior, se sofrer cortes adicionais em razão dos “contingenciamentos”). Perverso...

Essa política do governo ameaça uma das maiores conquistas da gestão cultural pública de nossa geração, que é o modelo das Organizações Sociais (OSs). Esse modelo revolucionou a realidade da cultura no estado de São Paulo ao possibilitar a consolidação de instituições em um padrão profissional até então inexistente no país, com qualidade, alto rendimento e a melhor relação custo-benefício já alcançada (vide Osesp, Pinacoteca, Emesp, Theatro São Pedro e muitas outras).

Com metade do orçamento de alguns anos atrás, sobrou para a secretaria de Cultura, incumbida de fazer a distribuição dos recursos (ou seria a não-distribuição dos recursos?) o papel de estrategista do dano mínimo. Mas os danos mínimos são cruéis. As sucessivas reduções nos repasses às OSs – afrontando contratos acordados e assinados – comprometem as funções intrínsecas desses órgãos, levando ao cancelamento de temporadas, à supressão de vagas de ensino, à demissão de artistas e professores, à deterioração das condições de trabalho ou mesmo à extinção de grupos, como vimos com a Banda Sinfônica.

Analisando o novo edital para a gestão do Theatro São Pedro e de seus equipamentos, descobrimos qual é a solução que a secretaria de Cultura enxerga nesse contexto: ela quer que as OSs “captem recursos” no mercado para compensar os fundos públicos que lhe são subtraídos. A secretaria chama isso de “diversificação das fontes de recursos”. No edital lê-se o seguinte: “Serão consideradas mais vantajosas as propostas que diminuírem anualmente a participação proporcional do Estado no montante de recursos envolvidos na consecução das metas”.

A “diversificação das fontes de recursos” que a secretaria incentiva, é a captação de dinheiro por meio de patrocínios do setor privado, que são feitos via lei Rouanet, que são isenções de impostos, ou seja, que seguem sendo recursos públicos. Com essa ideia, o governo do estado simplesmente transfere a responsabilidade de manutenção dos órgãos culturais para a União e lava as mãos. Salve-se quem puder.

Não há, em lugar nenhum do planeta, atividade de música clássica e ópera que não seja sustentada pelo poder público, seja por recursos diretos, como é comum na Europa central, seja por mecanismos de incentivos fiscais, como nos Estados Unidos.

A importância da música como ferramenta educacional e de agregação social é largamente conhecida e comprovada. Iniciativas como o paradigmático El Sistema venezuelano inspiram projetos de integração por meio da música no mundo inteiro. Consolida-se a saudável ideia de que a música, para além da difusão do grande patrimônio clássico universal, carrega uma responsabilidade social como polo gerador de cultura e como impulsionadora de projetos educacionais, de formação de plateia e de promoção social.

Assim como uma oferta de educação de qualidade não é “elitista”, também não o é a apresentação de um madrigal de Monteverdi, de uma sinfonia de Beethoven ou de A sagração da primavera, quiçá os mais verdadeiros “documentos” históricos de que dispõe a humanidade. O patrimônio cultural de séculos está condensado na música, nas salas de concertos e nos teatros de ópera.

É necessário que o governo compreenda a importância do investimento em cultura integrado a várias outras áreas cruciais, como educação e promoção social. O governo deveria reconsiderar, a partir de uma perspectiva mais ampla, os cortes que afetam um dos setores mais organizados da gestão pública, que são as Organizações Sociais da cultura. O governo não pode abrir mão de sua responsabilidade e deveria rever decisões equivocadas que ameaçam as atividades dos principais órgãos culturais do estado.

[Texto publicado originalmente na Revista CONCERTO, edição de março 2017 (nº 236), página 20.]





Nelson Rubens Kunze - é diretor-editor da Revista CONCERTO

Mais Textos

Budu e Hilsdorf: nasce um duo Por Irineu Franco Perpetuo (14/11/2017)
Três óperas Por Jorge Coli (7/11/2017)
Convocação de OSs para Emesp, Guri e Conservatório de Tatuí reforça torniquete financeiro do governo Por Nelson Rubens Kunze (3/11/2017)
Para onde nos levará a onda de censura no país? Por João Marcos Coelho (31/10/2017)
Os quartetos de cordas e a reavaliação da obra de Villa-Lobos Por Camila Frésca (30/10/2017)
O Brahms profundo e espontâneo de Nelson Freire Por Irineu Franco Perpetuo (25/10/2017)
Primeiras impressões sobre a temporada da Osesp Por João Marcos Coelho (29/9/2017)
“Tosca” tem montagem competente no Rio de Janeiro Por Nelson Rubens Kunze (28/9/2017)
Refinamento e inventividade em “Brazilian Landscapes” Por Camila Frésca (28/9/2017)
Um “Nabucco” problemático no Theatro Municipal de São Paulo Por João Luiz Sampaio (26/9/2017)
Na estreia com a Osesp, Leonardo Hilsdorf encanta a Sala São Paulo Por Irineu Franco Perpetuo (22/9/2017)
Festival de Ópera do Theatro da Paz faz bom “Don Giovanni” Por Nelson Rubens Kunze (19/9/2017)
Penderecki e Szymanowski: uma noite musical maior Por Jorge Coli (18/9/2017)
Novo fôlego para a ópera no RS Por Everton Cardoso (8/9/2017)
Wagner de boa qualidade, mas sem lirismo e vigor dramático Por Jorge Coli (4/9/2017)
Finalmente Dudamel “suja” mãos e batuta com a “política” Por João Marcos Coelho (24/8/2017)
Dobradinha “Pulcinella & Arlecchino” tem boa realização no Theatro São Pedro Por Nelson Rubens Kunze (23/8/2017)
O bel canto colorido e expressivo de Javier Camarena Por Irineu Franco Perpetuo (10/8/2017)
Osesp faz belo concerto com programa raro Por Jorge Coli (9/8/2017)
Terceira edição do Festival Vermelhos consolida projeto cultural em Ilhabela Por Camila Frésca (8/8/2017)
Em busca da música Por João Marcos Coelho (28/7/2017)
Neojiba: o exemplo da Bahia para o Brasil Por Irineu Franco Perpetuo (24/7/2017)
Você conhece José Vieira Brandão? Por João Marcos Coelho (12/7/2017)
Campos do Jordão, Salzburg e a economia da cultura Por Nelson Rubens Kunze (12/7/2017)
Rameau em “dreadlocks” Por Jorge Coli (11/7/2017)
Isabelle Faust, Vadim Repin e Julian Rachlin: sobre expectativas, decepções e boas surpresas Por Camila Frésca (5/7/2017)
 
Ver todos os textos anteriores
 
<< voltar

 


< Mês Anterior Novembro 2017 Próximo Mês >
D S T Q Q S S
29 30 31 1 2 3 4
5 6 7 8 9 10 11
12 13 14 15 16 17 18
19 20 21 22 23 24 25
26 27 28 29 30 1 2
 

 
São Paulo:

18/11/2017 - Orquestra Filarmônica Jovem de Israel

Rio de Janeiro:
23/11/2017 - Clea Galhano - flauta doce e Rosana Lanzelotte - órgão e cravo

Outras Cidades:
18/11/2017 - Bertioga, SP - Camerata Fukuda
 




Clássicos Editorial Ltda. © 2017 - Todos os direitos reservados.

Rua João Álvares Soares, 1404
CEP 04609-003 – São Paulo, SP
Tel. (11) 3539-0045 – Fax (11) 3539-0046