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Quanto custa uma orquestra sinfônica? (28/3/2017)
Por Nelson Rubens Kunze

A Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo acaba de lançar um programa de apoio a 13 orquestras sinfônicas profissionais do interior do estado, o projeto “Toca Aqui” [clique aqui para ler a notícia]. Por meio de um convênio com as respectivas prefeituras, serão destinados R$ 80 mil para cada grupo, totalizando um total de R$ 1,04 milhão. Os municípios contemplados são Barretos, Campinas, Guarulhos, Jundiaí, Limeira, Piracicaba, Registro, Ribeirão Preto, Santo André, Santos, São Caetano do Sul, São Carlos e Sorocaba. Não restam dúvidas de que é uma iniciativa auspiciosa e muito bem-vinda.

Em outubro de 2014, a Revista CONCERTO publicou, em sua matéria de capa, uma reportagem de João Luiz Sampaio sobre o panorama das orquestras sinfônicas no estado. A matéria identificou 9 orquestras razoavelmente organizadas, que tinham uma programação regular ao longo do ano, mas com realidades institucionais e financeiras muito distintas umas das outras: havia orquestras públicas financiadas pelo município e havia associações privadas sem fins lucrativos; os orçamentos anuais variavam de R$ 400 mil (Filarmônica de São Caetano do Sul) a R$ 10 milhões (Sinfônica de Campinas); o número de músicos de cada grupo ia de 29 (Sinfônica de Jundiaí) a 82 (Santo André e Campinas); e assim também variavam os números de apresentações anuais, de 6 (Jundiaí) a 70 (Campinas). Transparecia na matéria o fato de haver uma elevada demanda por música clássica em geral, como sintetizou o violinista Emmanuele Baldini, um dos entrevistados: “Afinal, em todas as minhas viagens, há uma constante: a fome de música e cultura de um público que sente a falta de oportunidades para se enriquecer pela música”.

A reportagem da Revista CONCERTO deixa claro que ainda estamos em um momento estruturante da música orquestral no interior e, salvo talvez a Sinfônica de Campinas, muito longe de ter grupos consolidados. Grande parte das orquestras funciona como projetos avulsos, em que os músicos são contratados por cachê apenas para determinadas apresentações. Claro que são iniciativas importantíssimas e merecedoras de todo o apoio. Mas creio que o “Toca Aqui” da Secretaria de Cultura, como política pública de estímulo à música clássica, é tímido, deveria ir muito além e estar de fato comprometido com a consolidação de instituições mais sólidas. Ainda que insuficiente, o projeto tem um grande mérito: o de chamar a atenção para a importância da descentralização da atividade musical pelo interior do estado.

Mas quanto, afinal, custaria a manutenção de uma orquestra sinfônica? Tomemos uma pequena orquestra clássica, com 42 músicos, um maestro, um gestor e um assistente, ou seja, 45 profissionais. Um grupo com essas características poderia realizar uma temporada de 2 concertos a cada 15 dias, de fevereiro a dezembro, totalizando cerca de 44 apresentações. Além disso, a orquestra desenvolveria um programa de difusão e educação musical junto às escolas do município, que resultaria em pelo menos mais uma apresentação semanal.

Considerando o trabalho dos 45 profissionais, cada um recebendo um salário médio de R$ 4 mil/mês, isso somaria um total anual de R$ 2,16 milhões. Como esses músicos seriam contratados, para que se garantisse a perenidade e solidez da iniciativa, é preciso somar os tributos e os encargos trabalhistas (digamos mais 50% do valor acima), o que daria um total de R$ 3,24 milhões. A esse montante, seria necessário acrescentar ainda uma verba para solistas e maestros convidados, recursos para comunicação como assessoria de imprensa, anúncios e programas impressos, além de verba para aluguel de partituras e direitos autorais, no valor total de mais R$ 260 mil. Vamos supor, ainda, que a orquestra estabelecesse uma parceria com a Prefeitura e pudesse usar o teatro municipal da cidade como sede, local de ensaios e apresentações. Nesse caso, portanto, não recairiam sobre a orquestra os custos de manutenção do teatro. Com tudo isso, podemos concluir que uma pequena orquestra sinfônica profissional custaria algo em torno de R$ 3,5 milhões por ano.

É muito dinheiro? Sem dúvida, é muito dinheiro! Mas nem tanto, se levarmos em conta que o governo paulista “deve” à área da cultura algo em torno de R$ 600 milhões (!). É esse o valor – já com o desconto imposto pela crise econômica – que teria de ser acrescido à pasta da cultura neste ano de 2017, se o governo tivesse mantido o índice de repasse que utilizou em 2010, ou seja, 0,71% do orçamento governamental total (e não menos de 0,4%, conforme dados obtidos do Portal da Transparência da Secretaria da Cultura).

Portanto, se houvesse uma política pública verdadeiramente atenta aos interesses da cultura e da música clássica em São Paulo, seria possível aportar não apenas R$ 80 mil reais para cada uma das 13 orquestras selecionadas, mas sim patrociná-las com um orçamento de R$ 3,5 milhões por ano, o que resultaria em um investimento total de R$ 45,5 milhões para as 13 orquestras. Com todo esse patrocínio, não gastaríamos nem sequer 10% do valor que o governo “deve” à área da Cultura. Ou seja, ainda sobraria dinheiro para ressuscitar a Banda Sinfônica e para recompor os combalidos cofres do Theatro São Pedro, da Emesp, da Osesp, do Conservatório de Tatuí e das demais 20 organizações sociais – de todas as áreas culturais – que hoje lutam por sua sobrevivência.

Imaginem só o que seria de São Paulo se tivéssemos 13 orquestras organizadas no estado, com temporadas regulares e consistentes programas de educação musical e formação de plateias, dirigidas por esses mesmos competentes maestros que hoje estão aí lutando para manter a duras penas seus programas? Imaginem só o que significaria essas orquestras trabalhando integradas em rede, dinamizando e alimentando mutuamente as temporadas?

Aí sim teríamos um programa efetivo de apoio à música clássica no interior do estado, de desenvolvimento e promoção social, de um inédito impacto social e econômico. Esperemos que o “Toca Aqui” possa ser o embrião de uma nova era para a música sinfônica em São Paulo.





Nelson Rubens Kunze - é diretor-editor da Revista CONCERTO

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