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“Risco” é vibrante imagem artística da cidade de São Paulo (29/3/2017)
Por Jorge Coli

O Theatro Municipal de São Paulo abriu sua temporada de dança com um programa que retomou, na primeira parte, Adastra, balé apresentado nesse mesmo palco no ano passado e, na segunda parte, trazendo uma novidade: a estreia de Risco.

Adastra, de Cayetano Soto, se insere no academismo abstrato tão frequente no balé contemporâneo. Cenários negros, figurinos estritos e monocrômicos, sucessão de belas poses sem coerência, sem narração ou poesia. É a redução da dança a figuras atléticas. O é processo repetitivo e tedioso, nessa aridez austera.

A segunda parte, Risco, foi o exato oposto. A autoria é de Sérgio Ferrara. Ao invés daquele simplismo severo, uma imaginação que parecia não se esgotar. O tema era a grande metrópole, São Paulo; eram também os grafites; era a arte deles derivada, com forte referência a Baskiat.

Falar em homenagem seria banalizar o espetáculo. Risco foi mais do que isso, muito mais: brotou inspirado no que a cidade tem de forte – São Paulo pode ser tudo, menos “cidade linda” –, é poderosa, enérgica, elétrica, vibrando na sua imundície, na sua desordem tão agitada. Esse espírito, visceral e trash, foi trazido pelos bailarinos, pelos vídeos, que constituíram um vertiginoso e poético cenário.

A relação entre os vídeos e a dança era de osmose. Tudo se integrava perfeitamente e produzia beleza, inquietante, angustiante, beleza.

A música começou com “Marte”, de Os planetas, composto por Gustav Holst, funcionando como prólogo. Depois, foram as mais longas Festas romanas, de Ottorino Respighi. A escolha desses títulos mostra que o diretor não foi levado por qualquer pedantismo intelectual, mas buscou, de modo direto, aqueles que lhe pareceram adequadas para dar vida ao espetáculo.

Tudo se desenrolou admiravelmente, desde o início, com corpos deitados no chão, progressivamente animados por tremores epiléticos, até o momento final, com os bailarinos suspensos por cabos e, numa vasca transparente, como que um batismo realizado em águas turvas.

Havia uma poderosa sintonia entre o balé e o espírito paulistano. Antes de chegar ao teatro, passei por sem-tetos, mendigos, bêbados, skatistas fazendo manobras alucinadas (um deles, na calçada lateral do teatro, lado do Anhangabaú, em roller skates, de óculos escuros, dava um espetáculo para si mesmo, dançando e rodopiando). Riscos retomou e reelaborou esse clima maravilhosamente.

Outro ponto: enquanto Adastra é dançado ao som de música gravada, foi a Orquestra Municipal que se associou a Riscos. O que muda tudo. A interpretação ao vivo trouxe uma intensidade calorosa, humana e direta. Sob a regência de Luis Gustavo Petri, os músicos deram prova de excelência, formando um fluxo plástico de sons.

Assinalo a altíssima qualidade dos bailarinos que formam o Balé da Cidade de São Paulo.

Se continuarem belas realizações como esta, teremos uma excelente temporada em 2017.


Cenas de Risco, do Balé da Cidade de São Paulo [Divulgação / Arthur Costa]

Serviço:
O espetáculo “Adastra / Risco”, do Balé da Cidade de São Paulo, ainda será apresentado nos seguintes dias e horários:
Hoje, dia 29, às 16 horas
Quinta, dia 30, às 20 horas
Sexta, dia 31, às 20 horas
Sábado, dia 01/04, às 20 horas

[Leia mais detalhes no Roteiro Musical]





Jorge Coli - é professor de História da Arte e da Cultura na Unicamp e colunista da Revista CONCERTO.

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