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Theatro Municipal do Rio de Janeiro apresenta “Jenufa”, de Janácek (4/4/2017)
Por Nelson Rubens Kunze

Uma nova produção de Jenufa, primeira ópera da maturidade artística de Leos Janácek (1854-1928), estreou domingo, dia 2 de abril, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. O título é baseado na peça teatral A enteada dela (1890), de Gabriela Preissová, escritora que no fim do século 19 inaugurou um novo capítulo do teatro realista tcheco. Jenufa teve uma gestação de quase 10 anos, tendo sido finalizada em 1903 (estreou em Brno, cidade natal de Janácek, em 1904). A dramática e intensa partitura é uma das obras-primas do começo do século 20. Para além das grandes obras do Romantismo tardio, o titulo aponta para a modernidade. A música, inspirada, acompanha e conduz a narrativa, envolvendo o espectador nos acontecimentos (é só lembrar do tilintar do xilofone, logo no início da ópera, que já dá arrepios...).

A encenação carioca é uma montagem originalmente realizada na Argentina (por Buenos Aires Lírica), que agora é apresentada no Brasil em uma coprodução do Theatro Municipal do Rio de Janeiro com a Companhia Ópera Livre. A ópera fazia parte da temporada lírica do ano passado, mas, em razão de uma greve dos servidores do estado do Rio de Janeiro na época, acabou adiada para este mês. A concepção e direção cênica é de André Heller-Lopes, que agora também é o novo diretor artístico do teatro.

E é muito bom o resultado cênico da produção. Um amplo espaço delimitado por paredes vazadas verticalmente serve como estrutura para formar – em variadas decorações e ambientações com sugestivos efeitos de luz e de tonalidades – os cenários para os diferentes atos. As soluções cênicas são criativas e bonitas, e adequadas para uma natural e orgânica movimentação dos atores. Heller-Lopes cria cenas de lindo resultado visual – absolutamente integradas à narrativa –, como a da preparação da festa de casamento entre Jenufa e Laca ou a bela cena final, com o véu primaveril translúcido que recebe o casal no fundo do palco. (Se for para apontar algum deslize da encenação nesta récita de estreia, foi o fato de, em algumas passagens, especialmente no sombrio Ato II, os solistas terem cantado na sombra, fora da luz...)

A magistral soprano Eliane Coelho brilhou no papel de Kostelnicka. Coelho – uma das maiores cantoras brasileiras, de consagrada carreira na Europa onde pertenceu ao elenco estável da ópera de Viena – interpretou o personagem com grande entrega e expressividade, e absoluto controle vocal e cênico. O segundo ato da ópera, ponto alto do espetáculo, em que a atormentada Kostelnicka acaba por cometer o assassinato do bebê de Jenufa, mostra que a artista está no ápice desta fase de sua carreira.


Eliane Coelho como Kostelnicka, no Ato II de Jenufa  [Divulgação / Júlia Rónai]

Mas seria injusto reduzir a boa produção da ópera ao admirável desempenho de Eliane Coelho. Foram igualmente muito bons a soprano Gabriella Pace, que fez Jenufa, e o tenor Eric Herrero, o apaixonado Laca, que no primeiro ato, por ciúme desesperado, agride Jenufa com uma faca desfigurando seu belo rosto.

Gabriela Pace tem uma voz cuidada, de grande esplendor, e alcançou alto nível artístico, fazendo um ótimo par com Eliane Coelho (o titulo tem essa particularidade, de colocar lado a lado duas sopranos diferentes — uma dramática, a atormentada Kostelnicka de Coelho, e uma lírica, a jovem e apaixonada Jenufa de Pace). Herrero, por sua vez, destacou-se pelo bonito timbre e adequada emissão vocal, bem como por sua natural presença cênica. O tenor Ivan Jorgensen, que fez Steva, ficou aquém de seus colegas solistas, também em razão de uma caracterização pouco convincente do personagem. Os demais cantores – Vinicius Atique, Carolina Faria, Flávia Fernandes, Michele Menezes, Tatiana Nogueira, Beatriz Simões, Andressa Inácio e Daniela Mesquita – contribuíram para o sucesso da apresentação.


Eric Herrero, como Laca, e Gabriella Pace, como Jenufa  [Divulgação / Júlia Rónai]

Foi igualmente bom o desempenho do Coro e da Orquestra Sinfônica do TMRJ, ainda que em algumas passagens (especialmente no Ato I) a dinâmica (volume) tenha sido exagerada. A direção musical e regência coube ao maestro Marcelo de Jesus, que soube conduzir o espetáculo com todo o senso teatral necessário.

Ao contrário do que era esperado, o Theatro Municipal carioca decidiu não anunciar sua temporada antecipadamente. Assim, a programação será divulgada à medida que a realização dos títulos puder ser garantida em termos financeiros e de produção. Esperemos que o ótimo resultado desta Jenufa anime as autoridades públicas a investir na temporada lírica do mais tradicional teatro de ópera do país.

[Jenufa será reapresentada nos dias 4, 7 e 9 de abril. Clique aqui para conferir mais detalhes no Roteiro Musical.]

 

Veja outras fotos da encenação:


Cenas da ópera Jenufa [Divulgação / Júlia Rónai]





Nelson Rubens Kunze - é diretor-editor da Revista CONCERTO

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