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Nasce uma estrela (11/4/2017)
Por Jorge Coli

Nasce uma estrela. Isso ocorreu no Theatro Municipal de São Paulo, durante a apresentação de Fidelio, de Beethoven, ópera dada em forma de concerto. Essa estrela se chama Marly Montoni.

Foi sua estreia naquela nobre sala, e num difícil papel, o de Leonore. Mas quando ela se levantou para sua primeira intervenção, no quarteto do ato 1, quando pronunciou as palavras “O perigo é grande” em tom de angústia melancólica, sentia-se, de imediato, que ali estava a verdade do personagem.

Marly Montoni é muito bonita, tem uma fina elegância natural, gestos nobres e expressivos, e irradia um carisma que atrai os olhares. Nesse sentido, foge das posturas convencionais tão frequentes entre os cantores de ópera e, por assim dizer, cria os seres que encarna a partir de dentro. Antes de qualquer movimento seu, eles já estão lá, em sua alma. Transparecem pelos olhos.


Apresentação de Fidelio no Theatro Municipal de São Paulo [Revista CONCERTO]

Leonore tem uma grande cena, em que canta a ária “Venha, esperança”, precedida do recitativo “Abominável!”, no qual expressa sua indignação contra o poderoso Pizarro. Marly Montoni deu a ela seu timbre aveludado e escuro, que obedece a uma gama infinita de inflexões ao criar matizes dramáticos. Sabe projetar a voz, e nenhuma das intenções musicais escapou ao público, que a saudou com um triunfo de aplausos.

Ricardo Tamura faz uma carreira internacional. Sua voz tem cores muito jovens. Interpretou Florestan: eram evidentes os sinais de cansaço vocal, de grande esforço e imprecisões nas notas altas, com tropeços de vez em quando. Não chegou a comprometer, porém, o conjunto, de qualidade bastante homogênea, com uma distinção para a deliciosa Marzelline de Caroline de Comi, voz de mel, delicada e sedutora. Giovanni Tristacci assegurou muito bem o papel de seu namorado, o ingênuo Jaquino. Carlos Eduardo Marcos impôs seu Rocco, e Douglas Hahn seu sinistro Pizarro.

O sombrio drama político e pessoal de Fidelio termina de maneira eufórica: triunfam a justiça e a razão, ou seja, o Iluminismo. Desde o início, na bela regência de Roberto Minczuk, havia uma luminosidade, um otimismo, que pareciam subjacentes mesmo nos momentos mais cruéis. Como se o maestro exaltasse antes o destino humano positivo do que suas provações desesperadas. Ao explodir o final, estávamos numa festa dionisíaca, maravilhosamente sustentada pelo coro e pela orquestra.

Isso se acentuou no bis, em que o público era convidado a tirar fotos, coisa que o próprio maestro e cantores não se privaram de fazer. A euforia aumentou, todos saíram felizes, levando Beethoven na alma.
 





Jorge Coli - é professor de História da Arte e da Cultura na Unicamp e colunista da Revista CONCERTO.

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