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“Uirapuru”, de Villa-Lobos: algumas considerações no centenário da obra (12/4/2017)
Por Camila Frésca

Na última semana de março a Osesp apresentou em sua programação o Uirapuru, de Villa-Lobos. Enquanto esperava e lia as notas do programa me dei conta de que este ano marca o centenário de composição da peça. Na verdade, como várias outras obras de Villa-Lobos, a datação exata não é uma questão simples. Ele podia “antecipar” a data de composição de uma obra no intuito de mostrar que a havia feito antes de conhecer determinada peça ou autor. Ou simplesmente podia anotar como data de composição o momento em que desenvolvia as primeiras ideias, ao invés da elaboração final.


Heitor Villa-Lobos [Reprodução]

No caso de Uirapuru, concebido como um balé e poema sinfônico, o que está em questão é o diálogo com a obra de Stravinsky. Os emblemáticos balés O pássaro de fogo, Petrushka e sobretudo A sagração da primavera (todos compostos para os Balés Russos de Serge Diaguilev) estrearam, respectivamente, em 1910, 1911 e 1913. Tendo Uirapuru sido composto em 1917, portanto antes das viagens de Villa-Lobos à Paris, na década de 1920, estaria garantido o espírito criador visionário de seu autor, em sintonia com as vanguardas do centro cultural do mundo que era Paris à época. Na década de 1970, a pesquisadora Lisa Peppercorn procurou refutar essa tese, afirmando que as principais obras modernas do repertório dos Balés Russos, como Pássaro de Fogo, Petrushka, Sagração da Primavera e Dafnis e Cloé (de Ravel), teriam sido apresentadas por ocasião das duas excursões do grupo ao Rio de Janeiro, em 1913 e 1917. Villa-Lobos teria ouvido as obras, o que teria provocado um profundo impacto no compositor. Na verdade, pesquisas como a de Manoel Corrêa do Lago (O círculo Veloso-Guerra e Darius Milhaud no Brasil, de 2005) desmentem essa versão, mostrando que “a informação de Peppercorn é duplamente incorreta: Villa-Lobos não só não podia ter ouvido (no Rio) execuções (sinfônicas) dessas obras antes de sua ida a Paris, em 1923, como a única obra “moderna” apresentada na temporada dos Ballets Russes em 1917 foi o L’Apres-Midi d’un Faune, conhecida no Rio de Janeiro desde 1908. Por outro lado, Serge Diaguilev não acompanhou os Ballets Russes em suas duas excursões à América do Sul (1913 e 1917)”.
 
Isto não significa, no entanto, o total desconhecimento de Villa-Lobos com relação ao que de mais moderno se fazia na Europa. O mesmo trabalho de Corrêa do Lago mostra que o casal Oswaldo e Nininha Guerra possuía na década de 1910 um salão frequentado pela elite intelectual e musical do Rio de Janeiro, e que por lá circulavam partituras do que de mais recente era feito na Europa. Sabe-se que houve na casa dos Guerra audições de peças recentes de Stravinsky em versão para dois pianos ou a quatro mãos. Para se ter uma ideia de quão por dentro das novidades o casal estava, o compositor Darius Milhaud só foi conhecer a obra de seu conterrâneo Eric Satie na casa dos Guerra, nos anos em que morou no Rio de Janeiro (entre 1917 e 1919).
 
A nota de programa da Osesp, escrita por Sérgio Molina, afirma que a distância entre a composição do Uirapuru e sua primeira audição pública, em 1935, reforça a suspeita em torno da data de composição. Mais uma informação contida no fantástico estudo Manoel Corrêa do Lago nos ajuda a fazer uma ponte entre essas duas datas: em 1918, num concerto de obras orquestrais de Villa-Lobos, foi apresentada a obra Tédio da alvorada, que seria na verdade a versão primeira de Uirapuru, com pouquíssimos elementos nacionais e uma forte marca da música de Richard Strauss. Segundo Corrêa do Lago, “Luiz Fernando Vallim revelou as diferenças e adições da versão final do Uirapuru (anos 1930) em relação à sua primeira versão como Tédio da Alvorada, numa comunicação no ‘Colloques Villa-Lobos’, realizados em Paris (Institut Culturel Finlandais), em 2000”.

Portanto, o mais provável é que Villa-Lobos compôs de fato em 1917 uma versão da obra, intitulada Tédio da alvorada. Após suas viagens a Paris e o contato extenso com a música dos principais compositores em voga, com destaque para Stravinsky, retrabalhou a obra, dando-lhe inclusive um novo nome, mas mantendo a data da primeira versão. Quem foi ao concerto da Osesp pôde notar a profunda influência dos balés de Stravinsky no Uirapuru de Villa-Lobos. O canto do Uirapuru, feito pela flauta, lembra vivamente a melodia do fagote que abre a Sagração. Por outro lado, a escolha da temática remete ao Pássaro de fogo, uma vez que ambas as obras baseiam-se em lendas dos países de seus autores e referem-se a um pássaro encantado.

Ainda, e para além de todas essas considerações, trata-se de uma obra extremamente moderna (destaque-se as passagens atonais e a polirritmia) e inventiva, cuja audição é sempre uma aventura plena de descobertas. Aliás, tem sido ótimo poder reouvir Uirapuru em nossas salas de concerto ultimamente. Para quem não pode conferir ao vivo, a Osesp possui uma gravação recente da obra, feita em 2015 sob regência de Isaac Karabtchevsky.

[O CD da Osesp sob regência de Karabtchevsky com a obra Uirapuru está disponível na Loja CLÁSSICOS. Clique aqui para saber mais.]





Camila Frésca - é jornalista e doutoranda em musicologia pela ECA-USP. É autora do livro "Uma extraordinária revelação de arte: Flausino Vale e o violino brasileiro" (Annablume, 2010).

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