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Olivier Toni (20/4/2017)
Por João Marcos Coelho

Foi-se o inventor de orquestras e escolas, responsável por ações decisivas nas duas pontas do processo da vida musical de um país: de um lado, a formação, com a Escola Municipal de Música; de outro, o estímulo à convivência de um punhado de compositores decisivos de nosso tempo, no departamento de música da Universidade de São Paulo, que ele criou. Cabeças privilegiadas como as de Gilberto Mendes, Aylton Escobar, Willy Corrêa de Oliveira. Quando se fala em orquestras, a lista também é importante: a Orquestra Jovem Municipal, que depois virou Orquestra Experimental de Repertório, e a Orquestra da USP e a de câmara, do departamento de música.

Não houve músico que tenha modificado de maneira tão radical a fisionomia da vida musical em São Paulo. Foram dois os motivos dessa característica essencial de Olivier Toni, que morreu no final de março: em primeiro lugar, a paixão desmedida pela música; em segundo lugar, o empenho e a determinação dos que não se contentam em sonhar, mas trabalham duro para realizá-las. Ou, ao menos, chegar perto disso.

Num Brasil como o de hoje – em que tudo é dividido, rachado entre mortadelas & coxinhas –, é quase impossível entender como um homem de esquerda, comunista convicto, conseguiu dialogar e obter grandes conquistas como a criação de escolas e de orquestras junto a prepostos da ditadura. Só com argumentos, nada mais. Argumentos e a teimosia regada à indignação dos justos, que não se conformam com a primeira recusa. Um leitor do Estadão resumiu como ele fez suas revoluções musicais: “Fez acontecer sem pedir nada em troca”.

A música viva, contemporânea, aquela que traduz em sons os estilhaços de nossa realidade conturbada, malfadada, deve muito ou quase tudo a Toni. E – querem saber? – também nosso passado musical. Por quase quarenta anos, Toni levou anualmente à pequenina cidade de Prados um evento alternativo, um modelo utópico de festival que se entrelaçava com o dia a dia dos pradenses. Essas imersões fizeram dele também um campeão da pesquisa pela música colonial brasileira.


Olivier Toni [Divulgação / Lydia Abud]

Nos últimos anos, tive o privilégio de conversar bastante com ele durante cafezinhos na Livraria Cultura do Conjunto Nacional. Siamo due fessi [“somos dois tolos, cretinos”] – esse era seu cumprimento toda vez que nos encontrávamos. Ele queria dizer com isso que insistíamos em dar murros em ponta de faca. “Os músicos, que lástima, não gostam mais de falar de música”, me dizia. “Todo mundo sai correndo dos ensaios, vejo isso nas orquestras, como se saíssem de uma repartição pública.” Cadê a paixão, onde está o amor à música? “Os músicos hoje não gostam de falar de música.”

Aí ríamos, nos lembrando de um personagem do Luis Fernando Veríssimo, muito atual em 2017, o QueroMeu, “corrupião corrupto”. Ninguém se importa mais com a vida musical ou com a cultura. O desmanche atual deve-se à previsível inconsciência dos dirigentes políticos, sim. De outro lado, os músicos só se mexem quando os cortes lhes batem às portas. Enquanto os vizinhos sofrem, quem consegue nadar acima d’água não está nem aí. Quem representa os músicos? A Ordem dos Músicos? Sério?

Voltemos ao que interessa. Nos últimos anos, Toni dedicou-se basicamente à composição. A Orquestra Jovem do Estado de São Paulo, regida por um de seus mais queridos alunos, Cláudio Cruz, estreou sua cantata Navio negreiro em concerto na Sala São Paulo no dia 20 de março. Ele não pôde assistir. Obra curta, de menos de dez minutos, mas intensa, de enorme riqueza musical, aliada a uma escolha aguda dos versos cantados pela soprano Caroline de Comi. Como sempre, há recados diretos. Toni usa versos do poema de Castro Alves, escrito em 1868, mas também de outro Navio negreiro, do poeta alemão Heinrich Heine, de 1853/54, que sua filha Flávia mostrou-lhe assim que soube que o pai trabalhava no poema de Castro Alves.

Quando conversamos sobre a peça, Toni me mostrou a partitura manuscrita e falou da força do poema de Castro Alves, de versos como estes, que sem querer aplicam-se à realidade atual: Dizei-me vós, senhor Deus! / Se é loucura... se é verdade / Tanto horror perante os céus?! / Ó mar, por que não apagas Co’a esponja de tuas vagas / De teu manto este borrão?...

Nada disse sobre Heine. Talvez ainda não o tivesse visto. O fato é que busquei na web o poema. Ele conta o transporte sangrento de uma carga de escravos para o Rio de Janeiro. A certa altura, o traficante de escravos pergunta ao médico a bordo como evitar tantas mortes entre os negros africanos: Responde o doutor: Natural / É a causa; os negros encerrados, / A catinga, a inhaca, o bodum / Deixam os ares empestados. // Muitos, além disso, definham / De banzo ou de melancolia; / São males que talvez se curem / Com dança, música e folia.” (...) Música! Música! A negrada / Suba logo para o convés! / Por gosto ou ao som da chibata / Batucará no bate-pés!

E os tubarões, que refestelaram com os cadáveres dos mortos nas semanas anteriores, voltam a rondar o navio, agora cheio de música e dança. Logo se desinteressam e se afastam ao perceber que “o desjejum longe está”. Completa o poeta:

Eles não querem saber de música / Como outros do mesmo jaez. / “Desconfia de quem não gosta / De música”, disse o poeta inglês.

Qualquer semelhança com a realidade brasileira não é coincidência.





João Marcos Coelho - é jornalista e crítico musical, colaborador do jornal O Estado de S. Paulo e apresentador do programa "O que há de novo", da Rádio Cultura FM; é coordenador da área de música contemporânea da CPFL Cultura.

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