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Diana Damrau, uma artista de mais de 50 tons (2/5/2017)
Por Irineu Franco Perpetuo

Se o cenário operístico em São Paulo anda, na melhor das hipóteses, incerto, o canto lírico vive dias gloriosos na cidade. Cantores das mais diversas gerações e registros apinharam a Sala São Paulo no feriado de 1º de maio para conferir, ao vivo, os predicados múltiplos e variegados da diva germânica Diana Damrau, em apresentação promovida pelo Mozarteum Brasileiro.

Às vésperas de completar 46 anos, Damrau chegou com todas as credenciais de uma das maiores sopranos da atualidade. E passou muito longe de decepcionar nem um pouco: trocando de idioma com a mesma facilidade com que mudava de vestido (foi quase um modelito por ária, de corte e coloração distinta), mostrava-se tão à vontade em todos eles que nem precisou cantar em sua língua materna – o alemão.

Mais do que pelos tons do vestuário, Damrau encantou pelos múltiplos coloridos da voz. Sua fama e fortuna devem-se sobretudo aos agudos, que estavam lá, brilhantes, seguros, jamais gritados ou estridentes. Em sua totalidade, porém, a voz possui um corpo robusto, com um centro grave sólido, e a maneira habilidosa com que a diva mistura os diversos registros fazem com que ela soe sempre homogênea.

Some-se a isso uma capacidade de entrega superlativa, um senso de estilo dos mais apurados e uma musicalidade de extremo bom gosto, que lapida cada frase como a mais preciosa das pérolas, e temos uma artista completa. Que, ademais, foge das zonas de conforto e segurança, cantando cada ária no fio da navalha e conferindo a elas, dessa forma, a dose extra de adrenalina proporcionada pelos riscos.


Diana Damrau com a Orquestra Acadêmica do Mozarteum Brasileiro [Divulgação]

Damrau construiu seu programa de modo a demonstrar os diversos aspectos de seu multifacetado talento. Para meu gosto (sim, críticos são pessoas insuportáveis e fastidiosas), ela poderia ter deixado no camarim boa parte dos trejeitos cênicos com que adornou Una voce poco fa, do Barbeiro de Sevilha, de Rossini, e Nobles seigneurs, dos Huguenotes, de Meyerbeer; sua vocalidade, por si, já era expressiva o suficiente para transmitir e valorizar o que havia de melhor em cada uma das árias. Assim, o ponto alto da primeira parte do concerto foi o que ela escolheu para encerrá-la: a Julieta, de Gounod. Mas não a (embora encantadora) batidíssima Je veux vivre, e sim a intensa Amour, ranime mon courage, em que Damrau mobilizou matizes mais escuros e afetos mais dramáticos para encarnar uma heroína disposta a morrer pelo amado.

Depois do intervalo, veio o virtuosismo supremo de Ombre légère, da ópera Dinorah, de Meyerbeer, que funcionou como uma espécie de master class sobre a arte da coloratura; e o melhor item da noite, a grande cena de Elvira no segundo ato de I Puritani, de Bellini: Qui la voce/vien diletto, que ofereceu uma ampla gama de possibilidades amplamente exploradas pelo talento inefável de Damrau. Foi o momento de entender porque existe a expressão bel canto, porque a música de Bellini fascinava tanto Chopin e porque pessoas que parecem elegantes e sóbrias nos corredores da Sala São Paulo são levadas a aplaudir e berrar com tanta ênfase dentro do teatro, como se suas vidas dependessem daquilo: na verdade, quando Damrau abre a boca, parece que nossas existências estão, sim, pendentes daquela voz.

A soprano alemã tem um marido, chamado Nicolas Testé, com o qual dividiu, em rigoroso pé de igualdade, a apresentação. É possível que ninguém tenha saído de casa para ouvi-lo, mas Testé não desapontou. Obviamente, seria despropositado cobrar dele uma riqueza de colorido e uma versatilidade similares à da esposa. Contudo, revelou um timbre sólido de baixo-barítono, dominado de forma segura – e maior sobriedade cênica do que a esposa. Teve a cortesia de nos brindar com um item de Carlos Gomes (Di sposo, di padre, de Salvator Rosa, defendido com carinho e dignidade), e atingiu o ponto alto com uma nobre encarnação de Felipe II em Elle ne m'aime pas, do Don Carlos, de Verdi. Seu momento mais fraco foi, curiosamente, o que parecia mais simples: o dueto Bess, you is my woman now, de Porgy and Bess, de Gershwin, no qual soou algo desconfortável e fora de estilo.

Uma grata surpresa foi o desempenho da Orquestra Acadêmica Mozarteum Brasileiro, conduzida com elegância por Carlos Moreno. Sim, a orquestra começou hesitante na abertura do Barbeiro de Sevilha, de Rossini, e por vezes parecia querer cobrir Testé. Porém, seus jovens músicos foram ganhando confiança ao longo da apresentação, e alguns naipes funcionaram com especial coesão. Vale destacar o belo desempenho dos metais no Balé da Rainha, do terceiro ato do Don Carlos, de Verdi, e os elegantes solos do líder dos violoncelos, Rafael Cesário. É bem possível que, em um futuro não muito distante, vejamos vários dos integrantes do grupo brilhando em orquestras profissionais – desde que nossos políticos suspendam a guerra sem quartel que vêm travando contra a música de concerto, e que continuem existindo orquestras para recebê-los...





Irineu Franco Perpetuo - é jornalista, colaborador do jornal Folha de S. Paulo e correspondente no Brasil da revista Ópera Actual (Barcelona).

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