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Perdas e danos (Santa Marcelina incorpora Theatro São Pedro) (9/5/2017)
Por Nelson Rubens Kunze

O governo do estado de São Paulo vem promovendo cortes inaceitáveis na área cultural, absolutamente aquém do que a crise impõe. Conforme dados oficiais publicados no Portal da Transparência da Secretaria da Cultura, o índice do repasse governamental total para a área cultural caiu de 0,71% em 2010 para 0,40% em 2016. Dados preliminares indicam que em 2017 o índice recuará ainda mais, para 0,37%. Se o governo tivesse mantido o índice de 0,71% de 2010, a Secretaria disporia hoje de um orçamento de cerca de R$ 1,4 bilhão, e não os cerca de R$ 800 milhões da lei orçamentária; ou seja, a Secretaria poderia contar com R$ 600 milhões a mais! Não sei qual é a responsabilidade dos secretários Andrea Matarazzo (2010 a 2011), Marcelo Araújo (2012 a 2015) e por último José Roberto Sadek (2016) para termos alcançado essa situação, mas é fácil imaginar o problema que esse déficit causa para a consecução da política pública de cultura, e como essa realidade impacta as mais de 20 organizações sociais do estado.

Em realidade, não é possível falar em “política pública de cultura” nesse contexto. A premência financeira é tão avassaladora – faltam R$ 600 milhões! –, que todos os esforços são direcionados para a minimização dos danos. E é dentro desse quadro que se dá o reposicionamento do Theatro São Pedro, que, após mais de 10 anos investindo na sua vocação de teatro de ópera, agora é incorporado à Santa Marcelina Cultura e servirá de suporte para o trabalho de formação e educação musical da Emesp, Escola de Música do Estado de São Paulo (trabalho ótimo!, diga-se de passagem).

O reposicionamento do Theatro São Pedro não é uma decisão que brota da reflexão sobre o papel do teatro de ópera e de sua importância ou função na sociedade. Não é uma decisão pensada, debatida e destilada na experiência da atividade lírica desenvolvida no teatro. Não é política cultural! É uma decisão pragmática que evita o pior: a total parada das atividades do teatro. [Quanto a isso, o secretário adjunto Romildo Campello foi claro em sua entrevista; havia três opções: 1) parar as atividades; 2) prorrogar o contrato com o Instituto Pensarte – opção impedida pela Procuradoria; 3) reposicionar o Theatro São Pedro e transferi-lo, como equipamento de formação, para a Santa Marcelina Cultura.]

Se houvesse de fato uma reflexão sobre a política pública de cultura, a Secretaria certamente reconheceria o valor e a qualidade do trabalho realizado no Theatro São Pedro nos últimos anos. A gestão do Instituto Pensarte – profissional, competente, aberta e colaborativa – trouxe para o teatro uma das maiores personalidades do universo brasileiro da ópera, o maestro Luiz Fernando Malheiro, criou um modelo novo, com a Academia e um elenco estável de solistas, e logrou colocar o Theatro São Pedro na ponta da produção lírica nacional, em um trabalho pautado por um ideal de excelência artística.

A grande sacada do modelo das Organizações Sociais (OSs) é a de conseguir unir as políticas públicas da cultura – responsabilidades do estado – com a gestão moderna e eficiente de entidades privadas sem fins lucrativos. No modelo, portanto, é o estado, em última instância, que define a existência (ou não) de teatros, orquestras, escolas, temporadas e outros bens públicos. Infelizmente, contudo, virou rotina nos últimos anos a Secretaria aditar os contratos de gestão assinados com as Organizações Sociais, para diminuir o valor dos repasses e, consequentemente, as metas a serem cumpridas.

Assim, não foi o Instituto Pensarte o culpado pelo fim da Banda Sinfônica, como também não foi ele o culpado pelo cancelamento de óperas e pela desestruturação da temporada do ano passado. O Instituto Pensarte reagiu às decisões da Secretaria, que é quem define a política pública e quem aditou o contrato de gestão suprimindo os recursos destinados à temporada e à Banda. Do mesmo modo, não é, agora, a Santa Marcelina Cultura a grande vilã especialista em acabar com orquestras. Não! Novamente, quem está induzindo a solução de orquestra mista, com profissionais e bolsistas, é a Secretaria, por conta do orçamento reduzido que disponibiliza para a Santa Marcelina Cultura. As OSs, com raras exceções, têm demonstrado capacidade e competência técnica para, a despeito dos sucessivos cortes, potencializar ao máximo a equação custo/benefício. Foi assim com o Instituto Pensarte, está sendo assim com a Santa Marcelina Cultura: gestão responsável, equipes profissionalizadas, metas claras e resultados altamente positivos.

Não há milagres! Se finalmente a Emesp ganha um belo teatro para o apoio de suas atividades educacionais, isso se dá pela perda do Theatro São Pedro como polo gerador da arte e cultura lírica. Pode ser que seja a única solução na situação em que nós nos encontramos. Mas não era isso que estava planejado...





Nelson Rubens Kunze - é diretor-editor da Revista CONCERTO

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