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O bel canto colorido e expressivo de Javier Camarena (10/8/2017)
Por Irineu Franco Perpetuo

Para quem gosta de canto lírico, os concertos do Mozarteum Brasileiro estão se tornando obrigatórios. Se, no ano passado, a entidade trouxe ao Brasil Jonas Kaufmann (relembre aqui como foi), neste ano tivemos, em maio, Diana Damrau (minha resenha aqui) e, agora, Javier Camarena.

Parece que, finalmente, ficou para trás o tempo em que os grandes astros da cena operística internacional só chegavam a nosso país no crepúsculo de suas carreiras, quando os sons que saíam de suas gargantas eram meros espectros de um passado glorioso, que só nos era dado a conhecer por meio de gravações. Pois Camarena subiu ao palco da Sala São Paulo na plenitude de seus 41 anos, exibindo a mescla de vigor e maturidade que essa idade oferece.


Javier Camarena e Pretty Yende [Divulgação]

O mexicano tem registro de tenor lírico-ligeiro, e sabiamente não força a voz, cantando um repertório que não apenas lhe é adequado do ponto de vista físico, como com o qual exibe afinidade invejável. Seu recital paulistano repousou no bel canto italiano, ilustrando essa escola de forma quase didática: tivemos Rossini, Donizetti e Bellini, construindo um arco que culminaria em Verdi.

Camarena possui uma técnica irrepreensível, desincumbindo-se das coloraturas da escrita altamente ornamentada desses compositores com extrema desenvoltura (como se fez ver, por exemplo, em , ritrovarla io giuro, de La Cenerentola, de Rossini). Os agudos parecem inverossímeis, de tão fáceis: dá vontade de acreditar que o tenor possui algo como um botão interno, que o faz alcançar (e sustentar) os sobreagudos quando lhe dá na telha. Nesse aspecto, o mais impressionante foi sua performance de Pour mon âme, de La Fille du Régiment, de Donizetti (não por acaso, um de seus itens mais acessados no YouTube). Não bastava Camarena ter deixado o item para o bis, depois de ter cantado todo um recital. Não lhe bastava cantar os nove dós. Não. Para se assegurar de que toda a Sala São Paulo ouviria seus agudos privilegiados, cantou o último dó girando sobre o próprio eixo, de modo que tanto quem estava nos lugares do coro, como nos camarotes laterais, pôde ouvi-lo de frente.

Contudo, não são nem essas pirotecnias, nem o timbre de voz o que mais conquista em Camarena. O que faz dele um artista de primeira grandeza é a expressividade, a busca de coloridos, os recursos de fraseados. Aproveitando-se do fato de cantar com acompanhamento de um piano, e não ter que competir com uma orquestra, Camarena enriqueceu suas interpretações com uma série de efeitos mezza voce, atacando frases em piano e buscando pianíssimos em finais de frase. Talvez o ponto mais encantador da noite tenha sido Fra poco a me ricovero, da Lucia di Lammermoor, de Donizetti, em que o tenor realmente encarnou o personagem de Edgardo, e transportou cada espectador do concerto às penumbras da Escócia mitológica de Sir Walter Scott. Camarena encarou o recitativo não como um mal necessário, uma inconveniência a ser despachada, mas como parte orgânica da obra, e moldou-o com minúcias de joalheiro. Não houve nenhum malabarismo vocal, mas assim mesmo (ou talvez, por causa disso), foi de arrepiar.

É preciso que se diga que Camarena não cantou sozinho, e dividiu o concerto em partes escrupulosamente iguais (incluindo nada menos que três duetos, como o do primeiro ato do Rigoletto, de Verdi, que fechou a apresentação) com a jovem soprano sul-africana Pretty Yende, de 32 anos. Alguns espectadores do recital de terça-feira, dia 8, queixaram-se da atuação de Yende. Fico feliz, assim, de ter ido ao concerto do dia seguinte, no qual ela demonstrou uma voz possante, inteiriça e vigorosa, que talvez, lá na frente, possa habilitá-la a ser protagonista de Norma, de Bellini. Yende também está plenamente à vontade no universo do bel canto, com toda a agilidade requerida por suas coloraturas – o que demonstrou, por exemplo, em sua floreadíssima execução de Una voce poco fa, do Barbeiro de Sevilha, de Rossini – como parece ter não apenas facilidade, como paixão pelos sobreagudos, que ataca com extrema segurança. O único item decepcionante foi Je veux vivre, de Romeu e Julieta, de Gounod, em que a afinação falhou. Mas isso já era um bis, e ela se reabilitou fazendo um afago ao público brasileiro, cantando Azulão (ou Azulay, em sua pronúncia), de Jayme Ovalle, esforçando-se de modo comovente para pronunciar os fonemas de nosso idioma (ingratos para uma anglófona), que lia em seu tablet.

Por fim, o acompanhamento pianístico é uma grande comodidade para os cantores, mas não o é para o próprio pianista. Músicos de orquestra costumam se aborrecer ao executar obras do bel canto: a linguagem harmônica é elementar, e todo interesse parece residir na escrita das vozes. Ao serem, porém, “reduzidos” para o teclado, esses acompanhamentos se transformam numa cascata diabólica de notas curtas, difíceis de serem executadas sem que haja quedas ou oscilações no andamento. Cubano radicado no México, Ángel Rodríguez não apenas soube se adaptar às mudanças súbitas de humor e tempo que parecem caracterizar todo cantor lírico, acompanhando-os à perfeição, como ainda, ocasionalmente, conseguiu, com vigor e temperamento, contribuir para a caracterização do clima de cada cena – isso quando não domou os aplausos fora de hora do público, como ocorreu entre a ária (Ah, non credea mirarti) e a cabaletta (Ah, non giunge) de Amina, da ópera La sonnambula, de Bellini.

Mal posso esperar para ver quem o Mozarteum vai trazer ao Brasil em 2018!





Irineu Franco Perpetuo - é jornalista, colaborador do jornal Folha de S. Paulo e correspondente no Brasil da revista Ópera Actual (Barcelona).

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