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Dobradinha “Pulcinella & Arlecchino” tem boa realização no Theatro São Pedro (23/8/2017)
Por Nelson Rubens Kunze

Estreou no sábado, dia 19 de agosto, a primeira produção lírica da gestão Santa Marcelina Cultura no Theatro São Pedro: o balé Pulcinella, de Igor Stravinsky, em dobradinha com a ópera Arlecchino, de Ferrucio Busoni. É verdade que a inspiração comum na commedia dell’arte une Pulcinella e Arlecchino. Mas, ainda que elas se complementem satisfatoriamente em um único programa, os parentescos terminam aí.

Pulcinella foi uma encomenda de Diaghilev, o famoso empresário dos Ballets Russes, que queria uma obra baseada em um libreto da commedia dell’arte e em música de Pergolesi e outros compositores antigos. Stravinsky reescreveu a música para uma orquestra de câmara, soprano, tenor e barítono. Era o ano de 1920 (portanto, depois das famosas criações do mestre russo – a Sagração da primavera é de 1913), e o resultado acabou entrando para a história como a primeira obra neoclássica de Stravinsky.

Arlecchino, por outro lado, é uma pequena joia de teatro musical. Escrita em 1917, em resposta ao verismo e às tendências da época, ela é direta, inventiva, entrecortada por diálogos falados, com muitas citações e passagens irônicas, em que Busoni faz uma paródia bem-humorada da ópera e das convenções sociais da virada do século 19 para o 20. A obra foi originalmente escrita em alemão, com libreto do próprio Busoni, mas, como vimos no Theatro São Pedro, funciona muito bem também na versão em italiano – e com os diálogos em português.


Cena da ópera Arlecchino, de Busoni [Divulgação / Heloisa Bortz]

Foi muito boa a direção cênica dos espetáculos, a cargo de William Pereira, que também foi o responsável pela cenografia. Com uma concepção sóbria, clara e de linhas geométricas, William criou um espaço cênico aberto, comum às duas obras, formado por colunas retas nas laterais e no fundo, e grandes bolas-luminárias que pendiam do teto. Um dos destaques da produção são os bonitos figurinos de Fabio Namatame, que, mesmo modernizados, estabelecem a principal alusão ao universo da commedia dell’arte. A iluminação, que reforçou com discrição e bom gosto a encenação, foi de Mirella Brandi (só não gostei do momento “pisca-pisca” das luminárias...).

O balé Pulcinella foi apresentado pela São Paulo Companhia de Dança com coreografia de Giovanni de Paula, que, como consta no programa, recriou a coreografia original de Léonide Massine. Achei boa a apresentação, ainda que senti um certo estranhamento na concepção geral – da união daquela música “neobarroca” com algumas das soluções coreográficas, dentro daquele cenário iluminado.

Se houve algum porém no Pulcinella, o Arlecchino foi perfeito. Com uma excelente atuação teatral – especialmente do Arlequim de Vinicius Atique – e um bom elenco de vozes – Denise de Freitas (Colombina), Giovanni Tristacci (Leandro), Rodolfo Giugliani (Sr. Matteo), Pepes do Valle (Doutor Bombasto) e Johnny França (Abade Cospicuo) – a ópera teve uma leitura orgânica e fluente.

Cabe ainda mencionar o bom desempenho da Orquestra do Theatro São Pedro, nesta sua primeira ópera após a reorganização do teatro, bem como a competente condução do maestro norte-americano Ira Levin. (Aliás, foi Ira Levin, que foi diretor artístico do Municipal paulistano entre 2002 e 2005 e atualmente é principal maestro convidado da Ópera Nacional de Sófia, que sugeriu os títulos.)

Pulcinella & Arlecchino, pelo equilíbrio da produção, é um começo promissor para a nova fase do Theatro São Pedro. E o público respondeu bem, com casa lotada (assisti à estreia) e muitos aplausos. [Ainda haverá récitas hoje e dia 25 (às 20 horas) e domingo dia 27 (às 17 horas).]

Veja outras fotos de Pulcinella & Arlecchino:

[Fotos: Divulgação / Heloisa Bortz]





Nelson Rubens Kunze - é diretor-editor da Revista CONCERTO

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