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Penderecki e Szymanowski: uma noite musical maior (18/9/2017)
Por Jorge Coli

Mas o que está acontecendo com o público da Osesp? A cada vez parece que diminui. Quinta-feira, dia 14, a casa mal e mal atingia a metade da ocupação. No entanto, estava lá a figura mítica de Krzysztof Penderecki – ele tem mesmo um asteroide batizado com seu nome! – regendo um programa com duas de suas obras, além do primeiro concerto para violino de Szymanowski.

Faltou conhecimento sobre a grandeza desse compositor? Foi medo da música contemporânea?

Se a causa é a última, os medrosos se enganaram. Nos anos de 1960 e 1970, Penderecki manifestava espírito de revolta e de vanguarda, querendo “libertar o som para além de toda tradição”. Suas obras eram intensas, exasperadas, terríveis e frequentemente barulhentas.


Krzysztof Penderecki em ensaio com a Osesp [Divulgação]

Com o tempo, com a idade, Penderecki voltou-se para as tradições. Suas composições, de umas três décadas para cá, nada têm de “experimentais” ou “ousadas”. As que ouvimos na Sala São Paulo poderiam ter sido apresentadas há 100 anos, e não causariam espanto. Não pareciam mais modernas do que o concerto de Szymanowski, tocado entre as duas, e que data de 1916.

Para além das questões de forma, do antes ou do agora, a força que reside na obra de Penderecki sempre se nutre de forte poder teatral. Sua ópera, Os diabos de Loudun, constitui um marco poderoso na produção do século XX e funciona maravilhosamente no palco. O compositor, num grande número de criações, apoia-se sobre a expressividade dos textos.

O programa se abriu com seu Hino a São Daniel, de 1997. Inicia-se de modo discreto, com um longo percurso do coro a capella, que teve magnífica interpretação pelas forças vocais da Osesp. Aos poucos, encaminha-se para uma apoteose, em que metais, madeiras, contrabaixos, percussões explodem. Penderecki é profundamente católico; foi próximo de João Paulo II, o Papa polonês. Seu misticismo, nesta obra, remete às grandes solenidades religiosas do período barroco: fé eloquente, expansiva e altamente dramática.

O princípio fecundante do teatro em sua música desenvolve-se graças a um impressionante poder narrativo. Não é à toa que tantos cineastas – citando ao acaso: William Friedkin, Stanley Kubrick, David Lynch, Martin Scorcese, Andrzej Wajda – fizeram apelo às suas obras. A Sinfonia nº 4, 1984, que encerrou o programa, composta em homenagem à Revolução Francesa de 1789, tem um único movimento, um adagio de meia-hora. Antes do que uma sinfonia, em sentido estrutural, ela se aparenta a um poema sinfônico, multiplicando episódios, criando expectativas, inventando novidades e twists. Ouvindo-a, pensei que poderia ter sido uma genial trilha sonora para um filme do não menos genial Jack Arnold.

Entre essas duas obras veementes brotou a eloquência tão diversa de Szymanowski, tecida por fios delicados, aéreos, colorida por requintes e cintilações, sublinhando o registro mais agudo do instrumento. Sua leveza contínua, já que os movimentos não se isolam em unidades, faz dele um poema feérico e quase orientalista, cujo decadentismo se expandiria pouco depois em sua ópera O rei Roger.

Paul Kochanski, grande violinista, aconselhou Szymanowski na composição desse concerto, e escreveu a bela cadência que conduz ao final. Kochanski morreu em 1934, deixando algumas ótimas gravações, entre as quais a Sonata nº 3 para violino e piano, de Brahms, interpretada ao lado de Arthur Rubinstein: é um monumento na história do disco. O som que produz tem cor de mel, pleno de sensualidade luminosa, e suas interpretações, com os portamenti que infelizmente não se usa mais fazer, com o fraseado que respira de modo tão amplo, sugerem que o Concerto de Szymanowski deve ter soado bem diferente do que ouvimos na Sala São Paulo. O violino de Isabelle Faust é cristalino e etéreo. Deu a essa obra tão admirável, um tom angélico impregnado de mistério.

Foi, sem dúvida, uma noite musical maior.





Jorge Coli - é professor de História da Arte e da Cultura na Unicamp e colunista da Revista CONCERTO.

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