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Um “Nabucco” problemático no Theatro Municipal de São Paulo (26/9/2017)
Por João Luiz Sampaio

A gênese de grandes obras de arte costuma estar rodeada de lendas – e não haveria de ser diferente justamente com a ópera. O caso de Nabucco é representativo. Giuseppe Verdi, em um dos momentos mais difíceis de sua vida, após perder a mulher e seus dois filhos, atira sobre a mesa um libreto que o empresário Merelli havia lhe entregue há pouco, em um encontro por acaso nas ruas de Milão. A música não interessa mais ao compositor, é uma memória esfumaçada, dolorida. Mas o libreto, ao cair sobre a mesa, se abre na página em que é descrita a cena na qual o coro dos hebreus fala da de sua pátria, “tão bela e abandonada”. O impacto provocado no compositor pelas palavras é imediato. E Verdi sente que precisa transformá-las em música.

Essa é a versão mais celebrada – e, até onde se pode saber, a menos provável ou real. Mas é fato que Nabucco, seja lá por que Verdi resolveu escrevê-lo, tem um significado especial em sua trajetória. Mais do que isso: não se trata apenas de um retorno do compositor à música, mas de um retorno repleto de energia, com grandes melodias se sucedendo quadro a quadro, pautadas pela força teatral que, mais tarde, faria dele o responsável por redefinir a ideia de drama musical na Itália, fazendo da ópera, uma vez mais, teatro. E fato também é que o coro Va Pensiero tornaria-se uma de suas passagens mais famosas – e, no contexto de Nabucco, seria símbolo da importância que o compositor daria ao coro dentro do discurso narrativo.

Rodolfo Giugliani em cena do Nabucco, produção do Theatro Municipal de São Paulo [divulgação / Lotus Fotografia / Clarissa Lambert]

Nabucco é uma ópera coral. No texto de programa da nova produção estreada neste fim de semana no Theatro Municipal de São Paulo, o jornalista e crítico musical Irineu Franco Perpetuo cita dois dos principais especialistas na obra de Verdi para tratar da questão. Massimo Mila, ele nos lembra, escreveu que a ação da ópera “não se centra tanto em paixões e indivíduos como em povos e crenças”, de onde se conclui que “Nabucco não é um drama que está construído em função de personagens, mas sim um afresco coral estático, no qual, sem dúvidas de nenhum gênero, o mais alto nível de vida em cena, e de essência lírica, se logra através da massa do povo judeu”. Já Julian Budden, também citado por Perpetuo, fala do senso de engajamento de Verdi. “Rossini e os da sua geração se afastam da ação que retratam; Verdi é um participante. Com Nabucco, uma nação oprimida encontrou a sua voz.”

Seja pelo envolvimento evidente de Verdi com a história que narra (à luz dos paralelos possíveis com o momento do Rissorgimento italiano), seja pela diversidade dos interesses e motivações dos personagens que dão forma aos corais, a escrita de Verdi para o coro é rica, repleta de matizes, coloridos. Na récita de domingo, a leitura sensível do Coral Lírico Municipal para Va Pensiero deu amostras das múltiplas possibilidades expressivas do conjunto que, no entanto, faltaram em sua outras intervenções, onde a força mascarou sutilezas onde elas existem. E, ao tom monocromático da leitura somou-se a presença de cenários incapazes de evocar efetivamente diferentes ambientes e, mais grave, uma movimentação cênica pouco inspirada e um desenho de figurinos que confundia hebreus, assírios e solistas, tornando difícil até mesmo acompanhar, no segundo ato, o desenrolar da trama.

Talvez uma explicação pudesse ser a tentativa de sugerir – já que, em entrevista o diretor cênico Cleber Papa defende a relação com o outro como um dos temas da ópera – que por trás das brigas entre inimigos há um elemento comum que, se ressaltado, favoreceria o diálogo em vez da rivalidade ou do ódio. Mas esse possível desejo de aproximação iria, então, de encontro com o tratamento dado pelo diretor para os protagonistas solistas, em que a diferença é ressaltada, não necessariamente à luz das crenças políticas ou religiosas, mas de motivações interiores. É interessante a ideia de explorar a loucura, ou o estado de exceção, de maneiras distintas: a selvageria de Nabucco e Abigaile, de um lado, e a transcendência de Zaccaria de outro. Dessa investigação saem, afinal, os principais achados da produção: fazer de Zaccaria um homem cego; dar forma física ao enfrentamento entre Fenena e Abigaile, no primeiro ato; retratar Nabucco como alguém que, com um riso irônico, julga-se acima de todos, apenas para descobrir, mais tarde, sua própria fragilidade. O problema é que esses aspectos, à medida em que a ópera se desenrola, se diluem por conta de um gestual amaneirado, exagerado, pouco orgânico, artificial, quase caricato.

Seja por estar perto da influência direta do bel canto, seja porque a voz, na ópera italiana (e em Verdi em especial), será sempre o ponto de partida para o desenvolvimento da expressão teatral, a escrita de Nabucco exige do intérprete que saiba atuar/cantando, ou cantar/atuando. Nesse sentido, estiveram bem o tenor Marcelo Vanucci e a mezzo Lidia Schäfer, como Ismael e Fenena, mas foi particularmente especial a leitura de Carlos Eduardo Marcos para Zaccaria e a de Rodolfo Giugliani para Nabucco – o barítono não tem apenas o timbre verdiano, mas a cada ópera tem demonstrado maior sabedoria ao utilizá-lo. O papel de Abigaile é um caso à parte. Marly Montoni é uma das vozes mais interessantes a surgir recentemente no cenário nacional. Mas o papel, com sua linha de canto que vai a todo instante do grave ao agudo, coloca desafios enormes. É visível o esforço da soprano para extrair desses contrastes a dimensão trágica da personagem – mas ela talvez deva prestar atenção aos riscos de, tão cedo na carreira, enfrentar partituras como essa.

A regência de Roberto Minczuk, à frente da Orquestra Sinfônica Municipal, tem momentos especiais, é capaz de iluminar contrastes como o da introdução ao Va Pensiero, entre sombras e lirismo, ou então de criar atmosferas, como na urgência da abertura do quarto ato. Mas é uma leitura que se faz de momentos isolados, sem um senso teatral que crie um arco dramático mais amplo – e à qual falta, em alguns momentos, a habilidade de manter o ritmo do espetáculo e, ainda assim, dar liberdade aos cantores, com uma mão menos rígida e mais adaptável ao calor do drama.

Somando tudo isso, este Nabucco é uma produção que, no todo, em seus aspectos musicais e cênicos, não decola, é incapaz de propor uma narrativa consistente, contexto no qual se tornam mais evidentes os seus muitos problemas.

[João Luiz Sampaio assistiu à récita do dia 24 de setembro; haverá apresentações de Nabucco ainda nos dias 26, 27, 28, 29 e 30 de setembro, sempre às 20 horas.]

Veja abaixo outras fotos da produção [divulgação / Lotus Fotografia / Clarissa Lambert]


Marcelo Vanucci, como Ismael, e Marly Montoni, Abigaile


Marly Montoni





João Luiz Sampaio - é editor executivo da Revista CONCERTO e colaborador do jornal O Estado de S. Paulo

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