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Três óperas (7/11/2017)
Por Jorge Coli

Este ano tão caótico e rarefeito para a música em São Paulo, sobretudo no que concerne às óperas, terminou fazendo com que três fossem apresentadas em dias muito aproximados.


La Traviata

A primeira que pude ver, isso no dia 1º de novembro, foi La Traviata, de Giuseppe Verdi, montada no Teatro Sérgio Cardoso por iniciativa de Paulo Ésper, cuja paixão pelo canto não o deixa quieto. Paulo Ésper não para, não descansa, atrás de financiamentos para concertos e montagens. Os títulos de entidades e associações que investiram nesse espetáculo são tantos e tão compridos que desisto de enumerar: assim, Paulo Ésper e basta. É ele a alma de tudo isso.

Fiquei muito entusiasmado com o espetáculo. Era uma versão semicênica, com orquestra reduzida ao mínimo essencial. Tudo girava à volta de um acessório cênico muito bem concebido por Georgia Massetani: um grande sofá em forma de lábios, como o do retrato de Mae West que Magritte pintou. Um longo tecido vermelho e brilhante servia de fundo e de tapete. A pequena orquestra situava-se atrás dos cantores.

Esse formato de bolso permitiu que a montagem viajasse por quatro cidades do interior, além de São Paulo. É uma excelente fórmula, que parece dar certo: as duas récitas em São Paulo estiveram lotadas. Deveria ser ampliada e repetida, permitindo que um público novo possa descobrir a ópera de maneira viva.

A Orquestra de Câmara RM Vale – Região Metropolitana do Vale do Paraíba (quando é que nossas orquestras aprenderão a encontrar bons nomes, que não sejam siglas horríveis ou longa sucessão de palavras?) foi regida por André dos Santos. Ele soube manter um equilíbrio delicado sem perder a vibração necessária que a obra exige.


Soprano Tamara Kalinkina, que fez Violetta Valery, recebe os aplausos após a apresentação de “La traviata” [arquivo Jorge Coli]

La Traviata está construída em torno de um personagem central, Violetta Valery. É um papel que exige muito do soprano. No caso, Tamara Kalinkina, vinda da Ucrânia, tem voz potente, bem timbrada e segura. Alguns ouvidos mais enjoados talvez pudessem dizer que faltaram pianíssimos. Mas, se é verdade, isso não impediu uma presença cênica fabulosa e uma energia vocal impressionante. Pudera existissem mais cantores como ela nos teatros do mundo afora. Sem contar sua beleza e graça.

Alfredo, seu namorado, foi o excelente tenor Daniel Umbelino, cuja voz parece se afirmar em cada apresentação. Ele também tem o physique du role e beleza tímbrica. Se o velho Germont de Erick Souza demonstrou algumas fragilidades vocais, isso não impediu uma interpretação coerente e empenhada. Não deixo de mencionar a Flora, de Andreia Souza, com voz bela e justa.


Os pescadores de pérolas

A segunda ópera que vi foram Os pescadores de pérolas, de Georges Bizet (espetáculo do dia 3 de novembro), retomando pela terceira vez na história do Theatro Municipal de São Paulo a montagem de Naum Alves de Souza, bonita, eficaz e levemente kitsch, sob a supervisão de João Malatian. Rigorosamente, foi retomada pela segunda vez, porque, como escreveu o maestro Jamil Maluf, os cupins roeram a primeira montagem, de 1995, e ela foi refeita em 2005. A prática de reapresentar produções é essencial para qualquer teatro no mundo: nenhum deles conseguiria manter um número razoável de apresentações sem ela. Esperemos que o Municipal siga por esse caminho.

Jamil Maluf regeu com a leveza que essa música tão bela exige, e soube levar a Orquestra Sinfônica de Repertório para além dos seus limites.


Cena da ópera Os pescadores de pérolas [Divulgação]

Os pescadores de pérolas é uma ópera que repousa de maneira essencial sobre o tripé soprano, tenor e barítono. Os três têm igual importância. Ora, no caso, o ponto fraco foi o tenor Gustavo Quaresma, no papel de Nadir. Sua voz não corresponde ao registro exigido pela partitura; o esforço para acentuar o volume, a dificuldade para conseguir os agudos necessários era evidente e constrangedora. Uma infeliz escolha, quando vários outros jovens cantores brasileiros poderiam assumir de modo mais que satisfatório o mesmo papel.

David Marcondes encarnou Zurga com voz segura e de belo colorido sombrio. Seu personagem impôs-se no palco com autoridade e foi grande prazer ouvi-lo nesse papel. Camila Titinger, com o timbre dourado que é o seu, e com sua musicalidade, ofereceu uma Leila divinamente poética. Esplêndido o Coral Paulistano, preparado por Naomi Munakata.


Don Giovanni

A terceira ópera foi Don Giovanni, de Mozart, no Teatro São Pedro, montagem trazida do festival de Belém. Sensação poderosa desde os primeiros acordes.

A orquestra não conseguiu reverter o baque sofrido com a malsinada reforma pela qual passou no primeiro semestre. Mas a regência de Cláudio Cruz, com intuição musical firme, grande sentido da urgência e do drama, demonstrava interpretação de alta voltagem. Quando apareceu Leporello com seu Notte e giorno, era como se a ideal encarnação do personagem estivesse ali: voz rica de sons harmônicos e dons histriônicos irresistíveis. Qualidades que permaneceram até o final, e que provocaram uma torrente de aplausos para esse artista. Donna Anna de Rosana Lamosa também foi notável: a voz, que a cada apresentação parece desabrochar mais rubra e bela, a presença cênica comovente e complexa, compartilhava, com Leonardo Neiva, no papel de Don Giovanni, sedutor e grande intérprete, o patamar muito elevado em que se situava a apresentação. Don Ottavio, cantado pelo jovem Caio Duran, não mostrou nem a experiência vocal, nem o traquejo cênico de seus colegas, mas assegurou sua parte dignamente. Donna Elvira, a impressionante Luciana Bueno, entrou como uma fúria: mais uma perfeita em sem papel. Tudo prometia, portanto, uma noitada excelente.


Ensaio da ópera Don Giovanni no Theatro São Pedro [Divulgação / Heloísa Bortz]

Essa excelência teve, porém, um bemol, quando surgiu a Zerlina de Carla Cottini. Não lhe falta nem musicalidade, nem técnica, nem presença cênica. Mas ela tem um timbre espevitado e ácido, de soubrette, que convém à Despina de Cosi, à Serpina, de La serva padrona. Zerlina é outra coisa, precisa de mel na voz para exercer sua sedução.

Entenda-se: esses senões não comprometeram, de modo algum, a récita. Apenas o quarteto Leporello/Donna Anna/Don Giovanni/Donna Elvira era tão alto que solicitavam, para Don Ottavio e Zerlina, a mesma adequação.

Completaram o elenco Gustavo Larssen, como Masetto e Anderson Barbosa, no papel do Comendador, ambos belas promessas para futuras carreiras.

Mauro Wrona, como é seu costume, não foi procurar chifre em cabeça de burro em sua montagem. Felizmente. Ao contrário, sempre atento às nuanças da música e do libreto, deu a cada gesto, a cada deslocamento no palco, sentido justo, teatralmente preciso. Grande alegria em sentir que partitura e texto foram apreendidos com tanta inteligência e justeza. (Apenas, para não conter uma implicância pessoal minha, ínfima, transformou os “candidi pennacchi”, os penachos brancos do chapéu de Don Giovanni, em plumas negras. Mas o que é esse minúsculo detalhe diante de tantas barbaridades cometidas por encenadores “espertos”?)

O final escolhido para a ópera foi o assim chamado “de Viena”, que corta a cena derradeira, em que os personagens, marcados em seus destinos pela energia maléfica de Don Giovanni, contam o que farão dali por diante, depois que o grande sedutor foi levado para o mundo subterrâneo. Era a versão preferida do século XIX: os românticos gostavam de terminar com o impacto causado pelo desafio do libertino às punições do outro mundo (embora um ultrarromântico como E. T. A Hoffmann não pudesse levar a cabo sua admirável análise sem esse quadro final suprimido).

Com isso, era legítimo pressupor que a concepção do Teatro São Pedro fosse trágica. Explico-me. Don Giovanni, como diz o original, é um “dramma giocoso”, um drama jocoso, intermediário entre a opera seria e a opera buffa, cômico e dramático ao mesmo tempo.

É possível conceber essa obra tanto insistindo no trágico quanto no cômico. Um excelente exemplo da primeira maneira, preferida pelos românticos, é o filme de Paul Czinner (1955), regido por Furtwängler e protagonizado por Cesare Siepi.

A escolha do final “de Viena”, mais os cenários, belos, discretos, ágeis, e baseados nos tremendos pesadelos de Francisco Goya, sugeria um Don Giovanni que se inclinava para a tragédia.

Dois fatos, porém, opuseram-se ao tom funesto. O primeiro foi, para o júbilo de todos, os poderes histriônicos de Saulo Javan e seu Leporello, mais ruivo que uma abóbora, ou que Donald Trump. Era impossível resistir ao turbilhão cômico que ele soube criar.

O segundo foi a iluminação sutil e delicada de Caetano Vilela. Don Giovanni é uma ópera noturna, cheia de equívocos provocados pela escuridão. Ao invés de claros-escuros contrastados que exprimissem noites de pesadelos, as escolhas luminosas pendiam antes para a clareza. A tal ponto que talvez a cena menos convincente tenha sido a da descida aos infernos.

Compreende-se que estas observações que alinhei em nada empanam as grandes qualidades do espetáculo. Foi, sem dúvida, um belo Don Giovanni.





Jorge Coli - é professor de História da Arte e da Cultura na Unicamp e colunista da Revista CONCERTO.

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