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Quem não trafega nas redes sociais se trumbica (24/11/2017)
Por João Marcos Coelho

Assisti ao recital da pianista ucraniana Valentina Lisitsa no último dia 21, no Teatro Alfa em São Paulo. Desde o burburinho na entrada e no café do teatro, o clima era diferente. Pessoas que normalmente não se vê nos concertos e recitais na Sala São Paulo ou Theatro Municipal.

De fato, o teatro não lotou, mas o que mais me impressionou aconteceria a seguir, no extenso recital de Valentina. Ela tocou por mais de duas horas, se incluirmos os muitos extras. E um repertório que combinou peças mais acessíveis, como a Sonata ao luar e noturnos de Chopin, a dois monumentos da literatura pianística: Gaspard de la Nuit, de Maurice Ravel; e Quadros de uma exposição, de Modest Mussorgsky.

Se acompanhou pacientemente as peças mais extensas, demonstrando respeito pela opção da pianista, o público comportou-se como tiete nas peças mais conhecidas. Nos extras, então, dezenas de celulares foram sacados e filmaram Valentina se derramando em Chopin e no repertório romântico.


Valentina Lisitsa [Divulgação / Gilbert Francois]

Ora, o público de Valentina é antes de mais nada cúmplice dela. Acompanha-a diariamente no seu canal no youtube e no facebook. Sente-se íntimo da pianista. As reportagens na mídia ressaltaram o fato de que ela tem mais de 155 milhões de visualizações em seu canal no youtube.

Os músicos brasileiros talvez ainda não tenham se dado conta das armas poderosas que têm à disposição nas redes sociais e no youtube para alavancar suas carreiras. Quando gravou um vídeo mambembe, em 2007, até a proposta que Valentina fez de um recital num asilo foi educadamente recusada. Era o fundo do poço, diz ela.

Aquele vídeo amador mudou sua vida. Claro, vocês podem dizer, Valentina chegou primeiro, há dez anos. Quem se aventurar agora não terá o mesmo resultado. Concordo. Mas quando vejo o modo como um músico multitalentoso como André Mehmari utiliza com eficiência as redes para divulgar seu trabalho, noto que ele é exceção. Outra pianista, Karin Fernandes, também usa muito as redes, porém com um viés mais militante do ponto de vista político (o que é superlegítimo).

Precisamos – nós todos que militamos no universo da música de concerto neste país esfrangalhado, com cortes absurdos de verbas para a cultura – adotar uma estratégia mais proativa em relação ao público. Não é ele que deve chegar aonde estamos. Nós é que devemos ir aonde ele está. Se está nas redes sociais, ocupemos as redes. Não deve haver mais o sentimento de posse da performance gravada em áudio ou vídeo – mas antes a consciência de que é fundamental levar o trabalho artístico ao público.

Claro que este é um trabalho de formiguinha, no dia-a-dia, difícil e árduo. Mas não existem atalhos. Um deles é apontado pelo exemplo desta pianista ucraniana. Valentina apoiou em 2015 a invasão pela Rússia de Putin da Crimeia ucraniana, região onde nasceu, aliás. Ela é de etnia russa. Foi boicotada por algumas semanas. Cancelaram dois ou três concertos com orquestra que ela tinha programado, incluindo um em Calgary, no Canadá, onde Roberto Minczuk foi maestro.

Os protestos silenciaram rapidamente. E Valentina segue seu caminho vitorioso. Ela não é a melhor pianista do mundo. Mas tem talento. E cavoucou um espaço próprio para conquistar o planeta. Que tal atentar mais de perto para as estratégias digitais?





João Marcos Coelho - é jornalista e crítico musical, colaborador do jornal O Estado de S. Paulo e apresentador do programa "O que há de novo", da Rádio Cultura FM; é coordenador da área de música contemporânea da CPFL Cultura.

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