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Relativizações, realidades e transformações: um olhar sobre “A flauta mágica” do Theatro Municipal (23/12/2017)
Por João Luiz Sampaio

O diretor André Heller-Lopes propôs-se, na montagem de A flauta mágica apresentada ao longo da última semana no Theatro Municipal de São Paulo, a rever os possíveis significados, não apenas da ópera e seu enredo, mas também das próprias ideias de Mozart – ou melhor, das ideias, associadas ao Iluminismo, que costumamos acoplar ao seu trabalho, em especial àquele destinado ao palco de ópera.

Em uma leitura convencional, acredita o diretor, A flauta mágica trata do embate entre o bem e o mal, encarnados respectivamente em Sarastro, líder da ordem dos iniciados, a quem cabe algum tipo de verdade suprema, e na Rainha da noite, por sua vez símbolo do desejo de vingança motivado pela busca mesquinha de poder.

Mas Sarastro e seus seguidores são profundamente misóginos, e ao preconceito contra à mulher soma-se no libreto de Emanuel Schikaneder também o racial. Mas não são eles os mocinhos da história? Aceitá-los como tal não seria subscrever essas ideias? Da mesma forma, à Rainha da noite não caberia um julgamento diferente? Ela busca retomar de Sarastro o que lhe caberia como herança caso seu marido não a julgasse, como a todas as mulheres, inferior e incapaz de cuidar. E, claro, Pamina havia sido sequestrada: como julgar as atitudes de uma mãe em busca da filha?

Para traduzir essas ideias, Heller-Lopes recorre aos cenários de Renato Theobaldo, em um artifício simples e hábil. O mundo da Rainha da noite (a explosiva soprano argentina Oriana Favaro) é o mundo dos bastidores do teatro, um mundo real, com todas as suas contradições; o de Sarastro é um mundo idealizado, e portanto falso, encarnado nos cenários de corte barroco. Além disso, na fala e no gestual, o diretor oferece dimensões mais amplas à Rainha da noite, enquanto faz de Sarastro um líder autoritário, ideia bem recriada pelo baixo Sávio Sperandio.

Apesar da reviravolta final, com Pamina (Gabriella Pace, em desempenho pautado pela elegância no fraseado e pela musicalidade) abandonando Tamino (Luciano Botelho, em uma leitura um pouco pálida, ainda que irrepreensível tecnicamente) e se juntando à mãe, há uma consequência direta desse arcabouço conceitual, que é o esvaziamento do drama dos dois jovens, personagens que afinal representam a busca de um norte, de um caminho claro, algo pouco importante em uma produção que se constrói a partir da relativização de conceitos e noções de conduta.

Não por acaso, é Papageno (o ótimo Michel de Souza, desenvolto cenicamente, jamais histriônico, e dono de um timbre especial, que sabe utilizar com inteligência) que acaba por ganhar protagonismo (ainda mais tendo ao seu lado a Papagena da mezzo Luisa Francesconi, em participação mais do que especial). Se, na representação de Sarastro como ilusão e na da Rainha da noite como oposição a preconceitos arraigados, a ideia do embate entre o bem e o mal não é abandonada mas apenas invertida, o homem-pássaro é aquele que encarna a relativização extrema, preocupado só com seu próprio destino, mudando de direção e de opinião como lhe convém, quando lhe convém.

Abandona-se assim o território do Iluminismo setecentista em direção à realpolitik do século XIX. Até porque, se a montagem coloca no palco o próprio mundo do teatro, é justo entender que é dele também que estamos falando. Nesse sentido, Heller-Lopes pede, em seu texto no programa, que “repensemos a nossa relação com a dura realidade, talvez mais importante do que a (falsa) beleza de uma linda cena, um lindo discurso ou o esplendor dourado do barroco”. A ópera no Brasil vive, de fato, há muito tempo, mais de discurso do que de prática. Mas aceitar a dura realidade não pode significar normatizá-la, aceitar o descaso e a incompreensão de governantes e gestores com relação, não só ao gênero, mas à cultura como fundamentais em uma sociedade, legitimando, com o trabalho daqueles que se dedicam à arte, a ausência de políticas claras e de longo prazo para o setor, realidade que se tornou ainda mais evidente nos últimos anos, potencializadas pela crise econômica. É, em geral, o que vem acontecendo.

Seja como for, após duas produções irregulares, de Nabucco e Os pescadores de pérolas, o Theatro Municipal consegue, com o nível de realização de A flauta mágica, ao menos sinalizar a retomada de um outro caminho, ainda que seja cedo, muito cedo, para saber quais rumos o Instituto Odeon dará para a instituição. Entre os trabalhos desenvolvidos ao longo do ano com óperas, esse foi o melhor desempenho do maestro Roberto Minczuk à frente da Orquestra Sinfônica Municipal de São Paulo, mais à vontade com o discurso teatral e pontuando a história com maior sensibilidade, sem se sobrepor aos cantores, ainda que faltem aqui e ali nuances importantes.

Uma pequena observação: é bom ver o mundo da ópera levando para o palco questões atuais e urgentes, como a dos direitos da mulher (alguém, por sinal, leu a cartilha daquela rede de supermercados, divulgada esta semana nas redes sociais?). Mas seria interessante que essa preocupação fosse levada também para os bastidores: nas mais de duzentas apresentações que o Theatro Municipal fez ao longo deste ano, apenas duas tiveram uma mulher como responsável (a maestrina Ligia Amadio, em concertos com a Sinfônica Municipal). Mais uma realidade a ser reconhecida – e transformada.

[Clique aqui para ler o comentário de Nelson Rubens Kunze sobre A flauta mágica.]





João Luiz Sampaio - é editor executivo da Revista CONCERTO e colaborador do jornal O Estado de S. Paulo

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