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“Lo Schiavo” em Campinas: encantamento e melancolia (12/3/2018)
Por Jorge Coli

Sábado, dia 9, no Teatro Castro Mendes, começou muito bem a temporada da Orquestra Sinfônica Municipal de Campinas. O maestro Victor Hugo Toro programou uma apresentação da ópera Lo schiavo, de Carlos Gomes, em versão de concerto, com cortes e sem as partes corais.

Concentrada nos dramas e conflitos dos personagens, a obras não perdeu em intensidade, e revelou ao público seu essencial. Os dois últimos atos sofreram mais com os trechos suprimidos, o que não impediu, porém, que a expressividade dessa nobre música se revelasse.

A orquestra mostrou-se brilhante, capaz de ardentes coloridos e também de nuanças. A regência de Toro foi enérgica, contrastada, viva, concedendo verdade e eloquência às tensões dramáticas daquela trama. Mereceu muito os vivos aplausos finais – e também após uma “Alvorada” cheia de mistério e de luzes.


A Orquestra Sinfônica Municipal de Campinas [Divulgação]

O naipe de solistas escolhidos mostrou-se excelente. O que provocou em mim um sentimento de alegria, mas de melancolia também.

Elaine Morais tem um timbre luminoso, dourado, sobretudo nos médios e agudos, um magnífico domínio das nuanças, um registro que corresponde exatamente ao que pede o papel de Ilara. A romaza Come serenamente, a ária O ciel di Parahiba, tão nostálgica, foram trazidas com extrema beleza. Acrescento o sentido do teatro, dando alma arrebatada a essa figura dramática.

Joyce Lima Martins brilhou com os ornamentos escritos para o personagem de Condessa de Boissy: sua voz de soprano coloratura tem grande agilidade, timbre cristalino, acompanhada por inteligência musical e teatral.

O Iberê de Douglas Hahn emergiu, nobre, altivo, seguro, dominador, tal e qual a música requer. Aqui também, a correspondência entre intérprete e personagem funcionou de modo ótimo. Sem forçar na truculência, seu monólogo Sospettano di me teve um tom aristocrático e superior.

Grande entusiasmo saudou o Quando nascesti tu, a mais célebre ária da ópera. Enrique Bravo, tenor chileno-manauara, está no apogeu de seus meios. Timbre jovem e caloroso; agudos firmes; ímpeto associado ao sentimento musical. No papel do generoso e impulsivo Americo foi apaixonado e delicado ao mesmo tempo.

Ambos, Douglas Hahn e Enrique Bravo já haviam interpretado Carlos Gomes, sob a batuta de Toro, na Joanna de Flandres, apresentada em 2013.

Os dois papéis menores, Conde Rodrigo e Gianfera. Couberam a Saulo Javan e Vinícius Atique. Javan já camtara o mesmo conde no magnífico Schiavo, no Rio de Janeiro, em 2016. Ambos excelentes, confiantes, com presença forte.

Em suma, um regalo de concerto, um prazer enorme em ouvir a música de Gomes tão dignamente tratada.

Mas, como disse no início, esse encantamento vem acompanhado por uma nuvem de melancolia. Pelo seguinte: o concerto inaugural da Sinfônica de Campinas mostrou um sexteto de cantores cuja qualidade é indiscutível. Podem enfrentar tantas outras partituras. Quando, porém, poderemos ouvi-los novamente? Neste nosso país em que a música é tratada como irrelevante, os intérpretes brasileiros de ópera têm bem poucas ocasiões para brilharem como fizeram nesse Schiavo. As produções são rarefeitas, e sobrevivem por teimosia de alguns. É bem claro: temos o mais importante, que é a qualidade musical. Por infelicidade, isso não basta. Falta o de sempre: investimento sério do poder público na constância das produções. Campinas deu, nessa abertura de temporada, um grande exemplo. Que ele prospere e se multiplique!  





Jorge Coli - é professor de História da Arte e da Cultura na Unicamp e colunista da Revista CONCERTO.

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