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Ótima "Traviata" estreia em Belo Horizonte (27/4/2018)
Por Nelson Rubens Kunze

Imagine uma montagem bem acabada, com cenários caprichados, luxuosos figurinos e cantores do primeiro time, dirigida cênica e musicalmente por especialistas — essa é a receita que resultou na ótima La Traviata, nova produção do Palácio das Artes de Belo Horizonte. Para além da música, é uma encenação de encher os olhos, como raras vezes se vê em palcos brasileiros.

Uma das óperas mais populares da história, La Traviata estreou em 1853 e pertence à fase intermediária de criação de Giuseppe Verdi (1813-1901), que Lauro Machado Coelho classifica como "período da plenitude romântica". Baseada em "Dama das camélias" de Alexandre Dumas filho, a ópera narra o infeliz destino de uma cortesã, que enfrenta as convenções e moralismos da sociedade patriarcal da época. Além da música primorosa, o sucesso da obra sem dúvida se deve também à eficiente construção da narrativa dramática, que no ato derradeiro reúne os protagonistas em uma dilacerante cena de arrependimento e comunhão.


Cena da ópera “La Traviata” [Divulgação / Paulo Lacerda]

E tudo funcionou muito bem na récita de ontem, 26 de abril. A concepção e a direção cênica são de Jorge Takla, que escreve no programa: "tento contar essa história no contexto 'da época', sem que se torne peça de museu, velha e mofada. Gostaria de manter seu frescor e vigor". Conseguiu! E com razão divide a conquista com Nicolas Boni, responsável pelos belos cenários, o figurinista Cássio Brasil (300 figurinos que "seguem as linhas e o luxo da época, mantendo um olhar contemporâneo quanto as cores e materiais usados") e o iluminador Fabio Retti.

Mas ópera se faz com cantores — e aqui tivemos grandes cantores! Fernando Portari, que fez Alfredo Germont, e Paulo Szot, que fez o pai, Giorgio Germont, pertencem à seleção brasileira e deram show. Portari é um cantor sofisticado, de amplos recursos e voz de ricos matizes. E Szot é um artista consagrado no mundo. Natural, portanto, que a expectativa recaísse sobre a Violetta, interpretada pela argentina Jaquelina Livieri (clique aqui para ouvi-la interpretar Violetta). E ela não decepcionou em um dos papéis que, em razão da tessitura, é um dos mais desafiadores do repertório: tem voz clara, de bonito timbre e maleável, e também boa presença em cena. Algumas poucas instabilidades nos agudos não comprometeram uma atuação muito convincente. E foi muito feliz — do ponto de vista de fraseados, vibratos e dinâmicas — a combinação e o equilíbrio das três vozes.

Mas também o elenco de apoio foi bem, com destaque para as excelentes Juliana Taino (Flora) e Fabíola Protzner (Annina). Foi boa também a performance do Coral Lírico de Minas Gerais e da Cia. de Dança Palácio das Artes. A Sinfônica de Minas Gerais não comprometeu, mas ficou aquém do elevado nível artístico da apresentação. A ópera foi dirigida com propriedade pelo maestro Silvio Viegas, que vem se consolidando como um dos principais regentes líricos do país.

(Apenas um porém: na cena do Ato I que segue o brinde, quando Violetta e Alfredo se encontram a sós, o som da orquestra quase sumiu. De meu lugar, na parte de trás da plateia, o dueto foi quase a cappella...)

Foi um prazer assistir a essa Traviata, e fiquei feliz em ver o grande Palácio das Artes praticamente lotado. Ainda haverá uma récita em Belo Horizonte, amanhã, dia 28. E nós, paulistas, teremos a sorte de assistir a essa produção na abertura da temporada Iírica do Theatro Municipal, a partir de 12 de maio, com dois elencos (Portari, Szot e Livieri também estarão lá). Fica a dica. E preparem os lenços — mas dessa vez não será para chorar de raiva...





Nelson Rubens Kunze - é diretor-editor da Revista CONCERTO

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