Banner 468x60
Banner 180x60
Boa tarde.
Terça-Feira, 19 de Junho de 2018.
 
E-mail:  Senha:

 

 
Nome

E-mail


 
Saiba como anunciar na Revista e no Site CONCERTO.
   


Vitrine Musical 2016 - Clique aqui e veja detalhes dos anunciantes

 

 
 
 
Cristian, Jamil e OER empolgam o Municipal lotado (30/4/2018)
Por Irineu Franco Perpetuo

Na música clássica, como na vida, as melhores ideias não são necessariamente as mais mirabolantes. Enquanto a direção arrogante de orquestras endinheiradas faz o público fugir de suas séries “brilhantes” como o diabo da cruz, Jamil Maluf, há décadas, enche teatros com a Orquestra Experimental de Repertório com uma fórmula aparentemente simples: programas bem escolhidos, tocados por uma orquestra realmente dedicada, comandada por um regente 100% envolvido e comprometido com o trabalho.

Claro que ajuda bastante ter o bom senso de convidar um solista com o carisma e talento exuberante de Cristian Budu. Assim, no meio do feriado prolongado, no domingo, dia 29 de abril, ao meio-dia, o Teatro Municipal de São Paulo estava absolutamente lotado para ouvir um repertório de música russa do século XX.


Cristian Budu [Foto: Céline Michel / Divulgação]

Maluf abriu o programa com a Nona Sinfonia, aquela que talvez seja, dentre as obras do gênero de Dmítri Chostakóvitch (1906-1975), a mais adequada a ser tocada por uma orquestra de jovens como a OER. Não, obviamente, por causa da questão técnica, mas sim do caráter espevitado e jovial.

Como se sabe, a Nona é de 1945, ano em que a URSS venceu a Grande Guerra Patriótica (como os russos chamam a II Guerra Mundial). Tendo em vista não apenas a solenidade da ocasião, como a monumentalidade de suas sinfonias anteriores, a Sétima (apelidada de Leningrado) e a Oitava, e a sombra que a Nona de Beethoven projeta sobre todas as 'Nonas' de compositores posteriores, esperava-se uma obra gigantesca e catártica, retratando o conflito recém-encerrado e o triunfo soviético de forma bombástica.

Porém, em vez de um mastodonte pós-mahleriano, Chostakóvitch driblou as expectativas oficiais, com uma obra de ironia e textura haydniana, em que ouvem-se mais polcas do que alusões bélicas, retomando, de forma surpreendente e inusitada, a mordacidade de sua primeira sinfonia. A OER não teve medo de se expor em meio a uma escrita tão transparente; os diversos solos da sinfonia acabaram servindo como belo veículo para a excelência de seus vários naipes, tendo sido tocados com verve e brio, e Jamil soube transmitir o sabor da peça e manter a coesão do conjunto.

Do neoclassicismo serelepe de Chostakóvitch, pulamos, sem intervalo, para o neorromantismo sentido de Serguei Rachmaninov (1873-1973), com o emblemático Concerto n. 2 para piano e orquestra. Ouvi Cristian Budu tocar o terceiro movimento dessa obra na final do concurso Prelúdio, da TV Cultura, em 2007 – quando ele foi o vencedor –, e nunca mais depois. Estava, dessa forma, curioso para verificar o quanto sua interpretação do concerto amadureceu ao longo dessa década – com a vitória no Concurso Clara Haskil (2013) no meio do caminho.

Como o próprio Rachmaninov já demonstrava em sua pioneira gravação da peça – dando uma lição que diversos intérpretes posteriores preferiram esquecer –, não é necessário enfiar sentimentalismo “extra” em uma obra já intrinsecamente sentimental. A  exemplo do que fizera em sua leitura do Concerto n. 1, de Tchaikóvski, Budu manteve-se fiel ao espírito da obra e do compositor, porém descartando excessos em prol de uma abordagem mais “objetiva” da partitura.

Soube, ainda, trazer para Rachmaninov uma característica sua ao tocar com orquestra – e que se evidencia especialmente em sua interpretação do concerto para piano de Schumann: a vontade de fazer música de câmara. Vemos, assim, o solista buscando contato visual com a orquestra o tempo todo, replicando seus fraseados, dialogando com cada um dos solos e fundindo sua sonoridade ao conjunto, buscando não o destaque solitário, mas a construção de uma sonoridade comum. O resultado foi uma leitura aprofundada e amadurecida, um Rachmaninov que parece antes egresso dos refinamentos da Era de Prata da arte russa da virada do século XIX para o XX do que do kitsch hollywoodiano em que alguns se esforçam por convertê-lo.

Depois de falar russo sem nenhum sotaque, Cristian rematou a apresentação com um de seus bis favoritos: a Valsa de Esquina n. 5, de Francisco Mignone, aliando o espírito brejeiro do compositor brasileiro ao apuro e refinamento das mazurcas de Chopin. Fica a torcida para que ele um dia se anime a gravar as Valsas de Esquina, e deixe cristalizada sua leitura tão apurada e matizada da música de Mignone.





Irineu Franco Perpetuo - é jornalista, colaborador do jornal Folha de S. Paulo e correspondente no Brasil da revista Ópera Actual (Barcelona).

Mais Textos

Julia Lezhneva: Triunfo barroco na Sala São Paulo Por Irineu Franco Perpetuo (12/6/2018)
Movimento Violão, 15 anos de atividades eternizadas num lançamento de fôlego Por Camila Frésca (4/6/2018)
Dois elencos, duas Traviatas Por Jorge Coli (28/5/2018)
Uma grande surpresa e um grande concerto para piano Por João Marcos Coelho (25/5/2018)
Suisse Romande: Master class na Sala São Paulo Por Irineu Franco Perpetuo (15/5/2018)
Um matrimônio espirituoso, vivo e musical Por Jorge Coli (8/5/2018)
“Fausto” é novo marco artístico do Festival Amazonas de Ópera Por Nelson Rubens Kunze (7/5/2018)
Clássico em terreno popular: o encantador recital de Cristian Budu na série “Tupinambach” Por Camila Frésca (3/5/2018)
Um "Faust" digno dos grandes teatros internacionais Por Jorge Coli (2/5/2018)
Verdi futurista aterrissa no Theatro Municipal do Rio Por Nelson Rubens Kunze (30/4/2018)
Ótima "Traviata" estreia em Belo Horizonte Por Nelson Rubens Kunze (27/4/2018)
A Camerata Romeu e a reinvenção da música Por João Marcos Coelho (26/4/2018)
Primeira escuta: Ronaldo Miranda estreia obra com a Osesp Por Nelson Rubens Kunze (25/4/2018)
Oito olhos azuis e muita música Por Jorge Coli (19/4/2018)
‘Missa’ de Bernstein é destaque no Theatro Municipal de São Paulo Por Nelson Rubens Kunze (10/4/2018)
“O Corego” e os primórdios da representação operística Por Camila Frésca (6/4/2018)
Natalie Dessay: uma expressão que transcende as palavras Por Irineu Franco Perpetuo (5/4/2018)
Os Músicos de Capella fazem primorosa ‘Paixão’ de Bach Por Nelson Rubens Kunze (29/3/2018)
A música não mente Por João Marcos Coelho (27/3/2018)
Enfim, uma sede para a Ospa! Por Nelson Rubens Kunze (26/3/2018)
A Osesp, Villa-Lobos e o “voo de galinha” Por João Marcos Coelho (23/3/2018)
Jan Lisiecki: para uma temporada de austeridade, um pianista nada austero Por Irineu Franco Perpetuo (14/3/2018)
“Lo Schiavo” em Campinas: encantamento e melancolia Por Jorge Coli (12/3/2018)
Villa-Lobos, a Semana de Arte Moderna e o Brasil Por Camila Frésca (8/3/2018)
“Sexta” de Mahler coroa trabalho artístico do Instituto Baccarelli Por Nelson Rubens Kunze (5/3/2018)
 
Ver todos os textos anteriores
 
<< voltar

 


< Mês Anterior Junho 2018 Próximo Mês >
D S T Q Q S S
27 28 29 30 31 1 2
3 4 5 6 7 8 9
10 11 12 13 14 15 16
17 18 19 20 21 22 23
24 25 26 27 28 29 30
 

 
São Paulo:

19/6/2018 - Trio Musikar

Rio de Janeiro:
19/6/2018 - Maur Trio

Outras Cidades:
20/6/2018 - Natal, RN - Orquestra Sinfônica do Rio Grande do Norte
 




Clássicos Editorial Ltda. © 2018 - Todos os direitos reservados.

Rua João Álvares Soares, 1404
CEP 04609-003 – São Paulo, SP
Tel. (11) 3539-0045 – Fax (11) 3539-0046