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Femusc e a temporada de sol e música nos vales catarinenses (2/2/2009)
Por Leonardo Martinelli

Numa sala fechada e sem janelas, refrescada pela brisa artificial de um ar condicionado, nove músicos estão reunidos em semicírculo para o mais nobre dos ofícios: sem regente, juntos desbravam os caminhos de uma obra de Ludwig Spohr (Noneto). Enquanto a violinista Miriam Fried argumenta, em inglês, com o aqui oboísta Alex Klein (o regente entraria em cena algumas horas depois) sobre os andamentos da peça, em alemão o violoncelista Bernhard Loercher checa com os demais se uma nota de sua partitura está realmente certa, enquanto que, em espanhol, o trompista Ignacio Garcia tenta chegar a um consenso quanto às dinâmicas do contrabaixista Andre Cardoso de Souza, ao mesmo tempo em que Klein traduz para o português as últimas conclusões a respeito do andamento, e então - um, dois, três... - volta-se a fazer música.

Esta cena simboliza bem os ares que pairam sobre a quarta edição do Femusc (Festival de Música de Santa Catarina), que sob a direção do instrumentista e regente Alex Klein ocorre na cidade de Jaraguá do Sul, localizada no vale do rio Itapocu, ao norte do Estado.

Com um corpo docente e discente integrado por músicos de diversas nacionalidades, o clima de Babel do Femusc é completo quando se faz um passeio pelos corredores do Scar (Sociedade de Cultura Artística), onde harpistas, trombonistas, violonistas, flautistas e uma série de outros instrumentistas estudam, lado a lado, seus instrumentos, ao mesmo tempo em que nas salas do complexo várias apresentações são realizadas ao longo do dia, fazendo o prédio reverberar na mais genuína heterofonia cageana.

Pequenas jóias e grandes tesouros

Movimentar-se em um festival de música é, em si, uma aventura à parte, pois naturalmente haverá muita coisa a ser ouvida e vista. Entretanto, num festival desta natureza - que envolve tanto músicos profissionais como jovens estudantes - recomenda-se adentrar por suas espessuras da mesma maneira que se faz em um passeio pela mata: pode até ser que seu objetivo final seja uma deslumbrante cachoeira, mas até chegar lá você irá se deparar com muitas outras belezas (ainda que não da mesma envergadura).

Para este ano o Femusc programou como grande atração a Sinfonia nº 5, de Gustav Mahler, mas antes que este grande tesouro sinfônico fosse levado ao palco, a audiência foi presenteada com pequenas e inesquecíveis jóias. Tal foi o caso de duas peças de câmara executadas por grupos mistos de professores e alunos que executaram com delicadeza, equilíbrio e coesão tímbrica a Serenata em dó menor, para sopros, de Mozart. Também um outro grupo misto, um sexteto de cordas, causou furor com sua interpretação do Souvenir de Florence, de Tchaikovsky, cujo pieguismo do título esconde uma partitura complexa e instigante.

Claro que nem tudo são flores. Mas no final das contas, num evento deste porte e natureza, se nem tudo pode ser boa música, no mínimo tem seu valor didático, o que não deixa de ser menos importante em um evento auto-denominado "festival-escola".

"A Quinta"

Os festivais de música clássica estão presentes há várias décadas na cena musical brasileira, e nos últimos anos, observa-se a tendência de programar para suas "orquestras de ocasião" grandes obras que fazem botar em guarda mesmo os integrantes de orquestras tradicionais e regulares. E, certamente, a Sinfonia nº 5 de Mahler é uma dessas obras.

Nada nesta partitura é fácil ou previsível, e se a palavra desafio nem sempre é usada de forma apropriada, no contexto do Femusc ela ganhou uma dimensão ainda maior, principalmente se levarmos em conta o exíguo número de ensaios em meio ao cotidiano naturalmente vertiginoso de um festival.

Femusc

Integrada pelos professores do festival, e por alunos do programa profissional do evento, a apresentação da "Quinta", claro, teve seus pontos altos e baixos. Há de se destacar o trabalho das trompas e de seu solista, Luiz Garcia, por seu desempenho no grande solo do terceiro movimento. Importante também ressaltar o desempenho dos trombones e da percussão numa obra que, por vezes, é uma verdadeira armadilha rítmica. Aliás, armadilhas é o que não faltam, e aqui e acolá ela fez suas presas, em especial, nos solos de trompete e no difícil trabalho de afinação das cordas no célebre Adagietto.

Mas ninguém pode alegar que não houve empenho de todas as partes envolvidas, e que no final das contas, Klein e sua orquestra fizeram o "espetáculo" acontecer e, sim, valer a pena servir de exemplo aos jovens estudantes que se misturavam em meio ao auditório lotado.

A cidade e a música

No final do ano passado a região norte de Santa Catarina foi violentamente abatida por um cataclisma sem precedentes em sua história. Vizinha do palco principal desta tragédia (o Vale do Itajaí), Jaguará do Sul também sepultou suas vítimas e, em sua periferia, ainda são visíveis algumas cicatrizes da tragédia recente. Entretanto, a cidade continuou perseverante neste importante evento, com seu empresariado endossando o vital patrocínio, à parte seus próprios prejuízos. Em dias de tantas mudanças no epicentro da música clássica brasileira, o Femusc configura um dos melhores exemplos de como é possível realizar eventos regionais de relevância nacional e excelência artística, tão escassos na imensidão de nosso país.

Serviço:
Femusc 2009, de 25 de janeiro a 7 de fevereiro
Site: www.femusc.com.br
Patrocínio: Marisol, Duas Rodas Industrial, Weg, Dalila Têxtil e Lei de Incentivo à Cultura.

(Leonardo Martinelli viajou a Jaraguá do Sul a convite da organização do Femusc.)





Leonardo Martinelli - é compositor e jornalista. Foi editor-assistente da Revista CONCERTO entre 2009 e 2013, e atualmente é diretor de formação da Fundação Theatro Municipal de São Paulo.

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