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Julia Lezhneva: Triunfo barroco na Sala São Paulo (12/6/2018)
Por Irineu Franco Perpetuo

Se, na Copa do Mundo que sediará em breve, a seleção russa de futebol anuncia uma campanha entre melancólica e vexatória, na música de concerto seu time continua dentre os mais fortes do planeta. Na última segunda-feira, dia 11 de junho, na série da Sociedade de Cultura Artística, a Sala São Paulo curvou-se ao talento da soprano Julia Lezhneva (pronuncia-se Iúlia Léjneva).

Léjneva demonstrou excelência em uma área na qual os russos, historicamente, não costumavam se destacar: a música barroca. Tal déficit se deve a razões históricas. A vida cultural da URSS estava isolada do Ocidente e, assim, toda a escola de interpretação “historicamente informada” de música antiga, que se desenvolveu na Europa, no pós-guerra, era por lá ignorada.


Les Violons du Roy e Julia Julia Lezhneva [Divulgação / Heloisa Bortz]

Só que Léjneva nasceu em 1989, durante a glasnost e a perestroika de Mikhail Gorbatchov, tendo crescido na Rússia pós-soviética. Natural de Sacalina – a ilha ao Norte do Japão que inspirou um dos escritos mais importantes de Anton Tchékhov (1860-1904) o autobiográfico A Ilha de Sacalina –, ela logo se tornou uma estrela internacional, colocando seu belo timbre escuro a serviço do repertório de soprano e mezzo-soprano coloratura do século XVIII.

Conhecer ao vivo alguém que só se ouviu em gravação pode ser uma experiência frustrante, mas, no caso de Léjneva, foi transformador. Não, suas proezas de virtuosismo não são fruto de engenharia de som. Ela realmente é capaz de toda aquela perfeição no palco. Árias ultra-virtuosísticas como Da tempeste il legno infranto, Rejoice greatly e Brilla nell'alma, de Händel, e Agitata da due venti, de Vivaldi, não apenas parecem de fácil execução, como soam como se tivessem sido expressamente escritas para sua voz e capacidades.

O Brasil não padeceu do isolamento internacional da Rússia, mas por aqui a interpretação do repertório barroco também se encontra em estado incipiente. Não é raro ouvir cantores que trapaceiam nas coloraturas, cantando-as como se fossem glissandos. Desse ponto de vista, a clareza de articulação de Léjneva, seu bom gosto na ornamentação, a capacidade inacreditável de respiração, o conhecimento da arte de frasear e a pura agilidade foram inspiradores e reveladores – e muito bem respondidos por Les Violons du Roy, a orquestra canadense dirigida por Mathieu Lussier que está tão dentro do espírito da interpretação “de época” que quase dá para se esquecer de que seus músicos, na verdade, estão tocando instrumentos de fabricação moderna, embora com arcos e técnicas advindo da escola “antiga”.

A perfeição de Léjneva é tamanha que dá vontade de dizer que ela é uma máquina de cantar. Só que, se máquina for, é uma máquina dotada de sentimento, capaz de comover e mobilizar o mais profundo dos afetos. Como se verificou, por exemplo, na parte central de Un pensiero nemico di pace (que ela aqui canta com os Solistas de Trondheim), do oratório Il trionfo del tempo e del disinganno, de Händel e, sobretudo, em Lascia la spina, do mesmo oratório, que os calorosos aplausos do público fizeram-na reprisar, no bis (para quem sentiu falta de ouvi-la cantando a versão mais conhecida da mesma ária, Lascia ch'io pianga, da ópera Rinaldo, segue aqui uma gravação).

No fim do concerto, alguém se lembrou de que Léjneva veio ao Brasil como substituta, no lugar de Magdalena Kozená, que cancelou sua vinda ao país em cima da hora. Cancelamentos são sempre desagradáveis, e torcemos para que a mezzo-soprano tcheca possa mostrar sua arte no Brasil. Mas torcemos ainda, com maior intensidade, para que Léjneva volte a vir para cá inúmeras vezes, nas décadas de carreira de sucesso que ainda tem pela frente.





Irineu Franco Perpetuo - é jornalista, colaborador do jornal Folha de S. Paulo e correspondente no Brasil da revista Ópera Actual (Barcelona).

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