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Uma tarde no palácio da razão: Potsdam, São Paulo e o sacrifício de Bach (30/3/2009)
Por Leonardo Martinelli

Johann Sebastian Bach (1685-1750) foi tanto um homem à frente como atrás de seu tempo. A partir de sua perícia como instrumentista, Bach construiu uma linguagem musical que, muito tempo depois, seria ainda tomada como referência por compositores tão diversos como Beethoven, Mahler e Webern, e, em pleno século XXI, sua obra é ainda estudada com vivo interesse por aqueles que trilham o caminho para a música nova.

Porém, em sua época, não foram poucos que viram sua criação com um certo desdém: música difícil e com um estilo ultrapassado, Bach em absoluto estava em consonância com os ideais do Iluminismo que fervilhava e de sua fiel representante musical, isto é, o Classicismo que nos legaria Haydn, Mozart e Beethoven.

O choque de gerações era inevitável, e ele ocorreu quando Bach, chegando à cidade alemã de Potsdam para uma visita ao filho Carl Philipp Emanuel, é imediatamente convocado a se apresentar diante de Frederico II, “o Grande”, rei da Prússia. O monarca iluminista, amigo de Voltaire e ele mesmo músico e amante da nova música clássica, não consegue conter a ansiedade de se embater com este ícone da antiga música barroca, e o desafia propondo que Bach improvise uma fuga a seis vozes sob o seguinte tema [clique aqui para ouvir]:

O tema é tão malignamente anti-contrapontístico ao ponto do compositor Arnold Schönberg conjecturar que Frederico II não teria capacidade de concebê-lo, e que somente alguém muito próximo ao velho Bach tivesse tal habilidade. Teria ele sido composto por ninguém menos que seu filho, Carl Philipp?

São Paulo, tarde de 28 de março de 2009

Na Sala do Coro, temporariamente convertida em salão de música de câmara, o cravista Alessandro Santoro inicia a apresentação da “Oferenda Musical”, de J. S. Bach, com as mesmas notas que há mais de dois séculos e meio Frederico II lhe oferecia. A sala, em meia luz, respira em silêncio enquanto a teia contrapontística do “Ricercare”, que abre a Oferenda, preenche compasso a compasso o vazio que precede a música, e silencia os ruídos que reverberam no lado de fora da Sampa desvairada em dia de chuva.

Na interpretação a cargo de instrumentistas da Osesp, o violoncelo de Marialbi Trisolio evocará a sonoridade de seu ancestral, a viola da gamba, e o corne inglês de Peter Apps os ecos perdidos de um oboé d’amore, avis rara em meio a estas paragens. Junto com os violinistas Matthew Thorpe e Simona Cavuoto, o flautista José Ananias e o fagote de Francisco Formiga, os primeiros cânones são um a um desbravados. Música para se ver, calcular e refletir, a dimensão sonora desses cânones reserva uma grata surpresa para a audiência, ao mesmo tempo em que armadilhas técnicas se revelam aos intérpretes, que aqui e acolá se deixaram desequilibrar por elas.

Na medida em que se optou por realizar música de câmara de forma genuína – isto é, não no palco de um teatro, mas em um salão – pergunta-se por que manter velhos hábitos, como simular um palco e uma platéia, fazendo com que apenas as três primeiras fileiras tenham uma boa visão, e não fazer com que a audiência circundasse os músicos (o que era a forma mais habitual de ser fazer este tipo de música séculos atrás). Por mais que José Ananias tenha feito às vezes de anfitrião – realizando um brevíssima explanação sobre a obra –  a existência de notas do programa para a platéia teria feito diferença para compreensão de uma obra tão singular como a “Oferenda”.

Potsdam, noite de 7 de maio de 1747

O velho Bach havia chegado pouco antes do cair da noite na cidade onde Frederico II habitava e onde, naquele momento, estava prestes a concluir seu retiro pessoal, isto é, o palácio de Sans Souci (em francês, “sem preocupação”). Rei que mal se comunicava em alemão e que divergira frontalmente do pai, um homem da mesma geração e valores de Johann Sebastian. Este, mesmo cansado da longa viagem, não ousou recusar uma ordem proferida pelo monarca em pessoa. Religiosidade versus razão, disciplina versus hedonismo, contraponto versus melodia acompanhada: eis as fichas que estavam em jogo na referida noite e que o jornalista James R. Gaines desbrava em seu livro “Uma noite no palácio da razão”. Obra ambiciosa, mas ao mesmo tempo acessível ao grande público, Gaine mergulha na biografia dessas duas figuras históricas, tecendo uma elaborada teia contrapontística que tem seu ponto culminante na fatídica noite de maio de 1747.

Bach não consegue realizar de improviso a fuga com as características que Frederico II pede, mas, em resposta, envia-lhe, meses depois, um maço de papel no qual o thema regium (ou tema real, como ficou conhecido) é desenvolvido à exaustão por meio de uma série de cânones, fugas e uma sonata. Na capa consta o nome da obra: “Das Musikalische Opfer”, sendo a palavra “opfer” na época utilizada não apenas como “oferenda”, mas também “oferta” e “sacrifício”...

Um sacrifício a se consumar

O cânone, gênero contrapontístico por natureza, é o principal recurso utilizado por Bach na “Oferenda Musical”. Entretanto, abre-se uma janela para uma “Sonata a 3” para flauta, violino e baixo contínuo que, a sua maneira, é também impregnado de puro contrapontismo. Momento especialmente delicado da partitura, foi também o momento de maior fragilidade da apresentação paulistana: se de uma forma geral os movimentos lentos da sonata (largo e andante) foram concluídos apenas a contento, nos dois allegros ficou patente que o delicado artesanato da música de câmara ainda tinha muito o que ser apurado, ou no espírito da peça, faltou sacrifício. A redenção da performance ficou mesmo para o movimento final, o “Ricercare a 6”, onde um a um os instrumentos apresentam o tema real até a entrada majestosa do violoncelo.

Quando o concerto acaba, paradoxalmente, a “música para se ver, calcular e refletir” continua reverberando em nossas almas, e por alguns minutos, a garoa paulistana toma odores da atmosfera úmida de Potsdam.

Sans musique

É muito provável que Frederico II nunca tenha escutado a oferenda de Bach, e que mesmo o compositor também não tenha tido oportunidade de ver tomado em corpo sonoro esta partitura que, mais do que uma mera música, estava para Bach quase que como uma profissão de fé. Por isso, executada ou não, a “oferenda” se basta porque, enquanto sacrifício, apenas a sua existência assegurará, para sempre, sua majestade.





Leonardo Martinelli - é compositor e jornalista. Foi editor-assistente da Revista CONCERTO entre 2009 e 2013, e atualmente é diretor de formação da Fundação Theatro Municipal de São Paulo.

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