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Bolsa-Cultura furada! (7/4/2009)
Por João Marcos Coelho

Juro que me senti profeta, cartomante, um adivinhador do futuro enfim. Um mês atrás, aqui mesmo neste espaço, e confesso que meio irritado com a Bolsa-Habitação, resolvi lançar um apelo às “otoridades” para instituírem também um “Bolsa-Cultura” [leia aqui]. Uma semana depois o governo anunciou o lançamento de uma “Bolsa-Cultura”.

Crianças, minha primeira reação foi dizer para mim mesmo: “You’re the guy”. Será que eles leram aquela modesta pensata e decidiram finalmente fazer algo pela cultura?

Rapidamente meu ego desinchou. Nada disso. Eles inventaram outra coisa – um vale-cultura que seria dado a cada trabalhador para ele adquirir ingressos para shows, concertos, exposições, peças de teatro, cinema, etc., etc. Ou seja, mais do mesmo, na esteira do Bolsa-Família.

Mais uma esmolinha, que com certeza servirá para nossos honrados cidadãos agraciados com esta benesse oficial trocar o dinheiro – com deságio, claro – por cachaça, crack ou o que vier à cabeça.

Que chance perdida. Uma bolsa-cultura efetiva e digna deste nome provocaria uma verdadeira revolução neste país. Estou convencido (epa!) de que investimentos em educação são a meta mais importante de uma nação. E, cá pra nós, que militamos no universo da música clássica, investimentos sérios e consistentes no modo como a disciplina música será incluída nas escolas daqui para a frente podem significar que, daqui a uma ou duas gerações, brasileiros já tenham condições mínimas de conhecer não apenas as músicas que lhes empurram goela abaixo as mídias de massa – mas também, e sobretudo, aquelas que nos emocionam, nos fazem pensar e também nos levam a uma escuta ativa.

Não me iludo, porém. É impossível lutar contra este tsunami emburrecedor que nivela a música e a cultura por baixo. Outro dia fiquei sabendo, numa leitura aleatória, que é justamente pela cultura que o capitalismo pós-moderno opera o controle dos corações e mentes de nós, pobres mortais, enredados em engrenagens gigantescas, sem direito a voto ou veto, nem muito menos de assumir qualquer atitude que saia fora dos padrões atuais. Triste, não? Pior: irreversível.

Mas chega de papo-cabeça. Não quero terminar esta conversa amena sem indicar a vocês a leitura de um livro excepcional, “Frenesi Polissilábico” de Nick Hornby (Editora Rocco). Ele é demais. Escreve direto, como jamais consegui. Vai ao ponto, sem firulas. Mas jamais é tosco. O livro reúne, em 260 páginas, suas colunas mensais sobre literatura para a revista americana “The Believer”, entre 2003 e 2006. Única exigência dos editores: na Believer não se usa o espaço pra malhar ninguém.

Hornby às vezes escorrega e espinafra um ou outro, mas faz hilários contorcionismos verbais para expressar desagrado. Os textos são modelos de crítica cultural. Ele abre cada artigo com duas colunas lado a lado: na da esquerda, os livros que comprou no mês; na da direita, os livros efetivamente lidos.

Eu precisaria de uns dez artigos como este para esquadrinhar o livro como ele merece. Mas vou ficar só com uma tirada, que até tem a ver, enviesadamente, com nossa bolsa-cultura que virou um mixuruca vale-ingresso. “Se você tiver filhos, dê à sua esposa ou ao seu marido um vale-leitura no próximo Natal. Cada vale dá direito a duas horas de leitura enquanto as crianças estão acordadas. Pode parecer um presente sovina, mas os pais vão ver que na prática acaba sendo mais valioso do que um Lamborghini”.

Só não concordo quando Hornby afirma que livros são mais memoráveis do que filmes e música. Vejam o seu argumento: “Mesmo que você adore cinema e música tanto quanto adora os livros, é, em qualquer dado período de quatro semanas, muito, mas muito provável que você ache um ótimo livro que ainda não leu do que um ótimo filme que nunca viu, ou um ótimo álbum que ainda não ouviu: o consumidor assíduo mais cedo ou mais tarde acaba enjoando dos filmes ou das músicas”. Ele diz isso e dezenas de linhas adiante, na mesma crônica, confessa que ficou quinze dias sem poder pegar livro algum depois de um show marcante que assistiu. “Eu me senti parte da música, parte das pessoas que me acompanhavam”.

Puxa, música é isso mesmo. E está aí o diferencial dela em relação às demais artes.

Mas esta conversa fica para o mês que vem. O carteiro está batendo na porta – e eu vou correndo atender. Quem sabe, no meio da correspondência e dos mil e um boletos de pagamento, não está meu vale-cultura?





João Marcos Coelho - é jornalista e crítico musical, colaborador do jornal O Estado de S. Paulo e apresentador do programa "O que há de novo", da Rádio Cultura FM; é coordenador da área de música contemporânea da CPFL Cultura.

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