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Debate: Ópera à Brasileira (15/4/2009)
Por Nelson Rubens Kunze

No último sábado dia 11 de abril, a Loja CLÁSSICOS Sala São Paulo organizou um debate com o título “Ópera à Brasileira: desafios e perspectivas”, para marcar o lançamento do livro “Ópera à Brasileira” (Algol Editora, 2009), organizado pelo jornalista João Luiz Sampaio, repórter do jornal “O Estado de S. Paulo”. Além do próprio João Luiz, a mesa foi composta pelo maestro Roberto Duarte (membro da Academia Brasileira de Música), o jornalista Irineu Franco Perpetuo (colaborador do jornal Folha de S.Paulo e colunista do Site CONCERTO) e o maestro Jamil Maluf (diretor do Teatro Municipal de São Paulo). Ainda participaram do debate os co-autores do livro João Batista Natali, Leonardo Martinelli e Nelson Rubens Kunze, bem como a cantora lírica Celine Imbert, o maestro Benito Juarez e o produtor e diretor Cleber Papa. Leia a seguir alguns assuntos abordados.

[Na foto, da esquerda para a direita: João Batista Natali, Roberto Duarte, Jamil Maluf, Irineu Franco Perpetuo, João Luiz Sampaio e Leonardo Martinelli.]

João Luiz Sampaio: A ópera está fora das discussões, está alienada, dependendo apenas da boa vontade das pessoas. É fundamental que todo mundo se una para discutir, para arrumar a casa da ópera, e aí sairmos no mercado buscando melhores possibilidades.

Roberto Duarte: Eu comecei a reger há 42 anos, com um pequeno coro, que tinha problemas de acervo. Depois fundei uma orquestra de câmara, e lá estavam os problemas. Em 1970 estreei com ópera, dirigindo o Guarany, de Carlos Gomes, e lá constatei novamente o problema dos acervos. Era um material da década de 1880, se deteriorando. Em 1986 voltei a reger o Guarani, era a mesma partitura. Trouxeram um material novo, copiado na Argentina, mas parecia Schoenberg, de tanta nota errada. Anotei 150 erros apenas na parte da primeira trompa. Foi um inferno total para fazer a ópera, uma tragédia. A tragédia continua, mas existem iniciativas, como da Funarte. Percebi uma coisa importante: quando o material de orquestra é limpo, ou seja, bom, o rendimento da orquestra é muito melhor. Os acervos servem não só para preservação da memória, mas para a execução.

Irineu Franco Perpetuo: Queria dividir com vocês a minha sensação de impotência e perplexidade de como as coisas na nossa área são frágeis e pouco perenes. No meu artigo do livro “Ópera à Brasileira”, sobre os teatros de Belém e Manaus, passei a idéia de que está tudo consolidado. E agora, a cada dia chega uma notícia do cancelamento de uma ópera em Manaus, espero que o Festival não deixe de existir por falta de ópera. O Nelson Kunze escreveu um artigo defendendo as OSs como um super modelo de gestão. E agora, a Secretaria de Cultura do Estado está tolhendo as instituições como pode. A gente fala da atividade da ópera nas principais cidades do país, mas no Rio de Janeiro a Cidade da Música está um imbróglio, o Municipal de lá está em reforma, o Municipal daqui está em reforma. Ainda bem que chegaram as óperas do Metropolitan no cinema, que não substituem, mas agregam alguma coisa aí. Como o João Luiz Sampaio falou no início da exposição, a ópera está fora das discussões, parece que é apenas uma questão de boa vontade. Não há uma política duradoura de sustentabilidade para a ópera como fato social. Vou deixar aqui uma indagação, será que a gente pode deixar alguma coisa para a ópera ou vai ser sempre assim: a gente fica feliz quando acontece alguma coisa, mas o êxito de algumas iniciativas não são garantia de nada, por que lá na frente tudo acaba dando para trás.

Jamil Maluf: O Teatro Municipal foi criado para ser o teatro da ópera e da dança. E para fazer um teatro de ópera e dança que não se esgote no evento em si, você tem que estruturar esse teatro. Se você for fazer óperas e não tem onde guardar essas óperas, elas se reduzem a pó. Essa é a primeira constatação. Quantas óperas eu tenho aqui? Se você for olhar, não tem nada. Todos os cenários tinham sido corroídos e destruídos, tinha um acervo de figurinos trancado em caixas, em armários, de qualquer jeito. Então a primeira providência foi fazer a central de produção. Por que sem uma central de produção o teatro não funciona. Uma central de produção propicia a redução de 30% no custo da ópera; propicia que você armazene apropriadamente os cenários e os figurinos. Só assim você pode remontar, fazer permutas. Agora já temos uma central de produção em uma sede definitiva. Esse foi o primeiro passo. O segundo passo seria constituir a temporada. No primeiro ano de nossa gestão (2006) tivemos 3 milhões para tudo no orçamento do teatro. Se você imagina que uma ópera custa de R$ 700 mil a R$ 1 milhão, não dá para fazer muito com um orçamento de 3 milhões, já que tem que servir para tudo, óperas, concertos sinfônicos, concertos de câmara, enfim, toda a atividade. O maior orçamento que eu tive foi no ano passado, R$ 7 milhões, quando a gente conseguiu fazer 9 óperas.
Uma temporada tem que se constituir de várias formas: estréias, remontagens e permutas. Desde o primeiro ano nós começamos um programa de permutas, que é pioneiro. Fizemos com Manaus, Rio de Janeiro e Belo Horizonte. O sistema de permutas tem uma vantagem muito grande, faz com que o teatro não gaste em cenários e figurinos, apenas em cachês de artistas, além de toda a parte cultural de você trazer para o público de São Paulo montagens importantes que aconteceram no Festival de Manaus, no Palácio das Artes, no Rio de janeiro. E tem outro ponto importante que é baixar o preço dos ingressos.
E a última medida, que é uma opção minha, pessoal, é incentivar o profissional brasileiro de ópera. Tem que ser dada a oportunidade para as pessoas mostrarem o que elas sabem.
O Teatro deveria se transformar em um teatro de repertório, e para isso agora já temos a central de produção. Mas para transformar o Teatro em um teatro de repertório, de forma financeiramente responsável, você tem que trabalhar com elenco fixo, que é como os teatros alemães trabalham. Essa é uma diferença muito grande entre a Alemanha e os EUA. Nos EUA existe o star system , que está levando todos à falência. Aqui, estou dando oportunidade para os cantores do Coral Lírico – como Marcelo Vanucci e Silvia Tessuto por exemplo  –, aproveitando os corpos artísticos nos papéis na ópera. E eles foram bem sucedidos e demonstraram que podemos ter um elenco fixo com convidados pontuais dentro da temporada. Tendo um elenco fixo já conseguiremos reduzir drasticamente os custos. Não há saída, não há dinheiro. A ópera é cara demais, ópera é sempre um grande espetáculo. Em uma continha simples você logo chega em R$ 700 mil reais. Não tem mágica.
O teatro tem uma limitação. Estamos falando de ópera e ópera é um espetáculo de teatro contemporâneo e assim pressupõe recursos técnicos. Agora, como reformar e modernizar um teatro que é tombado pelo patrimônio histórico federal, estadual e municipal? Essa reforma no palco que vamos fazer é o máximo possível para o Teatro Municipal.
Não temos como crescer no entorno do teatro. Manaus para fazer o ciclo de Wagner, rodeou o teatro de containers, e essa é a única maneira. Mas onde vamos colocar containers em torno do Teatro Municipal? Só se for na Casas Bahia. Nosso teatro está cercado.
Então, já falei para o Secretário e falei para o Prefeito: São Paulo precisa de um teatro de ópera, de um novo e grande teatro. Vamos continuar investindo no Municipal, mas São Paulo precisa de uma Sala São Paulo da Ópera. Várias capitais fizeram isso. Em Paris, com a Ópera de Paris que já é muito superior, do ponto de vista arquitetônica e de recursos, ao nosso teatro municipal, eles resolveram fazer a ópera da Bastilha. Em várias cidades importantes europeias reproduziu-se a mesma coisa. Então, São Paulo precisa de um novo teatro.
Nós precisamos fazer no Brasil o que a América Latina está fazendo com a OLA, Ópera Latino América, uma junção dos teatros de ópera latino-americanos. Eu acho que nós temos de fazer a tal da Ópera Brasil. Mas há uma incomunicabilidade e uma incompatibilidade de egos que atrasam a nossa vida cultural. Sou contra essas coisas de feudos. Tem muita coisa a ser mudada, é preciso ter mais solidariedade e mais união entre os teatros. Todos os teatros do mundo estão fazendo isso. Portanto, a culpa não é só do setor oficial, mas é também do extra-oficial.

Leonardo Martinelli: Fundamental para a manutenção da ópera é a criação de novos projetos de composição. Com todos os problemas que a recepção da música contemporânea possa ter, sem exceção, nenhuma das últimas estreias de óperas brasileiras foi marcada pelas palavras insucesso ou fracasso. Todas foram muito bem aceitas com grande afluência do público. É preciso chamar compositores para escrever óperas e montar óperas que estão escondidas.

João Batista Natali: Existe uma coisa consensual: é a profunda ignorância de nossos governantes com relação à importância do repertório lírico, de execuções líricas. O denominador comum de nossas autoridades é a ignorância, mas é a ignorância que não sabe que ela existe, que é muito mais daninha, pois ela não faz nada para melhorar. Os governantes são o nó podre de um ciclo vicioso, no qual não existe divulgação. Estamos sentados em cima de um grande tesouro, que não é conhecido de nossos governantes, que nem ao menos conhecem o repertório batido, eles não sabem o que é a Traviata, o que é o Rigoletto, o que é o Guarani. Então, nós temos de catequizá-los. Enquanto ficarmos na defensiva, eles, que tem o talão de cheques nas mãos, vão continuar tendo uma ideia de cultura que vai destruir o espetáculo lírico.

Nelson Rubens Kunze: Em meu texto no livro “Ópera à Brasileira” faço uma defesa das organizações sociais da cultura. Escrevi o texto em maio do ano passado. Desde então muita coisa aconteceu, mas acho que o texto contempla as dificuldades que esse novo modelo apresenta. Sendo uma questão de política pública, é uma questão complexa mesmo, são melhorias de gestão que vão demandar mais tempo do que a gente gostaria. Eu acho fundamental que a gente consiga se desvencilhar da burocracia do Estado, que é tão limitante para as ações de produção. Ao mesmo tempo, eu reconheço que a gente tem que ter o cuidado de preservar o interesse público. E esse é o grande dilema nessa história, isso que faz com que as coisas vão e voltem, vão e voltem. Mas eu acho que a gente deu passos importantes, e isso tudo faz parte do processo de amadurecimento.

Benito Juarez: A gente não tem memória no Brasil, e a gente tem pouca informação. É quase uma marginalidade. Existe mesmo uma grande ignorância. Não adianta a gente transferir os nossos problemas. Cantor de ópera é profissional e a gente tem que investir nesta perspectiva. Precisamos olhar de frente essa situação. O cantor de ópera é fundamental. Não é questão de escola, nós já temos solistas de ponta. Temos de parar de chorar.

Celine Imbert: Por uma graça que eu tive na vida, quando eu apareci no Brasil com a ópera Carmen em 1987, no Rio de Janeiro, eu tive a felicidade de ter uma mídia avassaladora, foi isso que me fez conhecida no Brasil. De uma cantora paulista eu passei a ser uma cantora brasileira. Existe um grande preconceito em relação à música erudita e especialmente á ópera produzida no Brasil. E esse preconceito vem dos nossos governantes, que são ignorantes e arrogantes, e da mídia também. Digo da mídia de uma forma generalizada. A ópera precisa de ícones, precisa de ídolos. E os ídolos da ópera são, em primeiro lugar, os cantores. Nós temos cantores maravilhosos, que mereceriam gravar CDs, ter suas fotografias estampadas no jornal, ter entrevistas. Precisamos dos ídolos, eles são âncoras. O cantor precisa aparecer, é ele que leva as pessoas ao teatro, é ele que faz as pessoas chorarem.

Cleber Papa: Nós estamos vivendo um problema em que nós temos de exercitar a nossa força política e a nossa condição de modificar o status quo. É inconcebível que o Teatro Municipal de São Paulo – e aqui não é uma crítica ao gestor, todos nós conhecemos o largo espectro de capacidade do maestro Jamil Maluf e as imensas dificuldades que ele deve estar vivendo nesses anos todos em que lá está – comece uma gestão com R$ 3 milhões, então, além de maestro, o diretor tem que ser mágico. Nós temos de discutir essas questões, por exemplo os rumos nos quais o teatro tem sido conduzido, politicamente. Temos de discutir quais são as prioridades em uma cidade como São Paulo. São Paulo é uma cidade que deveria ser exemplar no que diz respeito à ópera. Nós temos de ter orçamento e temos de ter condições de realizar espetáculos à altura do que se faz nos grandes teatros do mundo. Temos de trazer cantores internacionais de verdade, temos de dar emprego aos cantores brasileiros, onde tem gente passando fome. Parece um pouco dramático, mas não é drama não, é realidade! Essas questões não podem mais ser abandonadas. Nós temos de pensar na Centro Técnica de Produção, mas também temos de pensar nas centenas de técnicos que trabalham fora dos teatros. Nós temos de produzir com qualidade.
Quanto à questão da recuperação de acervos, não dá para esperar que o maestro Roberto Duarte, sozinho, fique cuidando da obra do Carlos Gomes até o fim da vida. Nós temos de ter um trabalho orientado para a preservação de acervos. Quantas óperas nós temos escritas no Brasil? Tem um dado na internet de que são 1200. Agora, quem de nós sabe exatamente quantas óperas foram criadas no Brasil? São 400? 600? Nós não sabemos, e isso é um absurdo. Peças guardadas em São João Del Rey, em Mariana. As pesquisas não foram estimuladas para que a gente saiba qual é o nosso acervo de fato.
Nós temos de repensar a nossa ação, e por isso criamos a Acpoesp, que é a Associação dos Cantores e Profissionais de Ópera do Estado de São Paulo. Essa associação tem a intenção de dar voz, de discutir politicamente as nossas posições. O fato concreto é que nós vivemos um estado de miséria cultural absoluta. Nós não temos seriedade em vários níveis, por desinformação. Eu não acredito que nossos políticos não queiram fazer as coisas bem feitas. Eles apenas não tem as informações e nós temos de alimentá-los. Esse debate já vale por isso.





Nelson Rubens Kunze - é diretor-editor da Revista CONCERTO

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