Abram alas para Chiquinha!

por Camila Frésca 07/11/2011

Há mais de dez anos, quando iniciava carreira no jornalismo, publiquei meu primeiro texto. Era uma biografia sobre a maestrina e compositora Chiquinha Gonzaga (1847-1935). A pesquisa feita à época revelou para mim um personagem fascinante de nossa música e de nossa história, pelo qual me apaixonei.

Chiquinha foi uma mulher extraordinária para seu tempo, por sua postura progressista seja na música, na política ou nos costumes – já escrevi um texto sobre ela neste espaço em 2009, por ocasião da reedição de sua biografia. Vale a pena, aliás, reproduzir um pequeno trecho:

Se hoje o nome da maestrina e compositora é bastante difundido e dados de sua vida são conhecidos do público em geral – embora não se possa dizer o mesmo de sua música – devemos a maior parte disso ao trabalho de Edinha Diniz, que em 1984 publicou a primeira biografia de Chiquinha Gonzaga escrita a partir de um sério trabalho de pesquisa. É nela que estão a maioria dos dados surpreendentes e até então desconhecidos sobre a trajetória da artista. O livro causou interesse crescente pela compositora, que virou enredo de escola de samba, peça teatral, minissérie de TV e foi descoberta por alguns de nossos músicos, como Clara Sverner, uma das primeiras a registrar a obra de Chiquinha para piano.
[clique aqui para ler o texto na íntegra]


Chiquinha Gonzaga em 1932, no dia de seu aniversário de 85 anos. [Foto: reprodução]

Pois bem, se a redescoberta de Chiquinha começou na década de 1980, com as pesquisas de Edinha Diniz, um importante passo foi dado em 2005, quando seu acervo – milhares de volumes entre partituras manuscritas e impressas, fotos, recortes de jornal, cartas etc. – passou para a guarda do Instituto Moreira Salles, que iniciou um trabalho de preservação, organização e digitalização do acervo (a página de Chiquinha no IMS pode ser visitada em http://ims.uol.com.br/hs/chiquinhagonzaga/chiquinhagonzaga.html).

Acaba de ser dado mais um passo fundamental para a preservação da memória da compositora e, principalmente, para uma avaliação mais exata da contribuição de Chiquinha para nossa música. Se no texto anterior eu dizia que seu nome e sua trajetória eram razoavelmente conhecidos, mas o mesmo não acontecia com sua música, agora essa situação promete mudar: está no ar há alguns dias o site http://www.chiquinhagonzaga.com.br/ que dá acesso a mais de 300 partituras revisadas e digitalizadas da compositora.

Idealizado pelos pianistas Alexandre Dias e Wandrei Braga, o Acervo Digital Chiquinha Gonzaga abriga sua obra fundamental para piano solo, canto e piano e outras formações. Ficaram de fora as músicas (outras centenas) compostas para peças teatrais, que devem ser contempladas num desdobramento do projeto. Alexandre e Wandrei se inspiraram num projeto similar que gerou o site dedicado à vida e à obra de Ernesto Nazareth (http://www.ernestonazareth.com.br/), igualmente patrocinado pela Natura via programa Natura Musical.

Durante mais de três anos a dupla garimpou partituras em diversas fontes e, de aproximadamente 12 obras iniciais disponíveis comercialmente, chegaram aos mais de 300 títulos agora colocados à disposição do público do mundo inteiro de forma gratuita. Uma olhadela pelas obras revela a versatilidade de Chiquinha, que passeou pelos mais diversos ritmos e gêneros, como choro, valsa, tango brasileiro, canção, polca, fado etc. Cada música está disponibilizada em sua versão original e em cifras, acompanhada de notas informativas. Também estão no site todas as letras das canções de Chiquinha Gonzaga, nunca antes publicadas. Recitais de lançamento estão acontecendo no Rio de Janeiro, Brasília e São Paulo. Dias 5, 7 e 11 deste mês haverá eventos na capital federal, e dia 17, Alexandre Dias e Wandrei Braga voltam a São Paulo, no Teatro Humboldt.

A partir de agora, debruçando-nos sobre este riquíssimo material, poderemos falar da importância, pioneirismo e/ou particularidades de Chiquinha Gonzaga com verdadeiro conhecimento de causa. Músicos e pesquisadores, o tesouro está à disposição!