Ainda sobre o ensino superior em música

por Leonardo Martinelli 02/12/2008

Na edição do mês passado da Revista CONCERTO publiquei o artigo "Ensino Superior?", uma pequena reflexão sobre a situação do ensino universitário de música no Brasil. No artigo, resultado de um debate sobre o assunto ocorrido durante um congresso universitário, abordei de forma rapsódica o que entendo como os principais problemas de nosso ensino superior em música, tais como o despreparo dos ingressantes, os problemas que o perfil do calouro ocasiona para todo o curso e a estranha mentalidade presente em uma parcela significativa nesses "estudantes", aparentemente mais interessadas na obtenção de um diploma do que em, de fato, estudar.

Com o passar do mês recebi de colegas de docência e alunos vários comentários, que por vezes eclodiam em discussões muito interessantes. Seja via e-mail, orkut, ou mesmo ao vivo, o assunto se desenvolveu em diversas frentes e mostrou um potencial ainda mais explosivo.
Dos diversos desdobramentos que ocorreram, o mais comum - e interessante e pertinente - foi a propósito do problema existente no "ensino inferior", isto é, aquele que supostamente deveria ter sido realizado antes do ingresso numa universidade.

A fragilidade de nossos cursos básicos de música mostra-se como uma das principais causas dos problemas que se enfrenta no ensino universitário.

Se no Brasil de algumas décadas atrás chegou a existir algo que se esboçava como uma infra-estrutura de ensino musical por meio dos conservatórios - muitos reconhecidos pelo Estado e emissores de diplomas técnicos -, esse tipo de instituição está praticamente extinto nos dias atuais.

Em seu lugar, surgiram as ditas "escolas livres", que com a proposta de ensinar música de forma informal e despojada aboliram o ensino de fundamentos essenciais na formação do músico, fazendo do ensino de arte uma atividade que, na verdade, se assemelha mais ao comércio de fast food, onde o estudante, metamorfoseado em cliente, escolhe fazer apenas aquilo que lhe interessa.

Se sob a ótica do Código de Defesa do Consumidor é perfeitamente compreensível o fato de você escolher apenas as partes que lhe interessam de um determinado produto ou serviço, o engodo dessa lógica se revela quando após anos de "passatempo musical" (pois muitas vezes fica difícil chamar de "estudo"), centenas de jovens em idade de vestibular vêem na faculdade um meio de continuação dessas atividades. Na medida em que, com o passar dos anos, as próprias faculdades se alinharam à lógica de mercado, o resultado disso tudo é uma legião de músicos "titulados", mas não necessariamente "formados".

No fundo, o problema do ensino superior de música no Brasil não passa apenas por investimentos e por sua reestruturação, mas sobretudo pela implantação (na verdade, um creatio ex nihilo) de uma estrutura de base em âmbito nacional. No contrário, continuaremos tendo o estrangeiro como alternativa para espetáculos musicais dignamente artísticos.